Capítulo 4
[Missão fracassada. Restam apenas 12 horas para a eliminação.]

O aviso do sistema soou, mas agi como se não tivesse ouvido nada.

Com um martelo, quebrei os enfeites de cerâmica que tínhamos feito juntos.

Também cortei em pedaços a enorme foto do nosso ensaio de casamento.

Esvaziei o guarda-roupa, doei todas as joias e joguei fora os bonecos e os presentes que ele tinha me dado.

O jardim de inverno envidraçado logo ficou vazio.

Era o lugar que Daniel costumava chamar, sorrindo, de “nosso cantinho”.

Às oito da noite em ponto, Daniel ligou.

— Beatriz, o casamento é amanhã. Está feliz? Hoje vou voltar para a Mansão dos Silva e passar a noite lá. Amanhã vou direto para o local da cerimônia esperar você.

Sua voz soava firme e tranquila, como sempre.

Ele sabia que me faltava afeto e que eu sonhava em ter um lar.

Por isso, tinha certeza de que eu jamais iria embora na véspera do casamento.

Aquela era só mais uma ligação de rotina, como tantas outras.

— Estou.

Minha voz saiu fria.

— Então dorme cedo. Até amanhã.

No meio da frase, ele cobriu o microfone do celular com a mão.

Mesmo assim, ouvi a risada de Clara.

Desliguei na hora, fechei os olhos e parei de dar atenção aos avisos da contagem regressiva do sistema.

......

O dia seguinte amanheceu bonito.

A maior parte da alta sociedade de Costa Serena tinha comparecido à cerimônia.

Mal me aproximei, ouvi os comentários:

— O Sr. Daniel exagerou mesmo. Já é casado e ainda faz uma cerimônia desse tamanho para a amante.

Alguém ao lado riu com deboche.

— Cerimônia é uma coisa, casamento no civil é outra. O que ele deve querer mesmo hoje é apresentar Paulo oficialmente como herdeiro.

Segui direto para a frente do palco, como se não tivesse ouvido nada.

Clara e Paulo estavam ao lado de Daniel, com os pais dele logo atrás.

Juntos, eles é que pareciam uma família de verdade.

Eu, a noiva só no nome, parecia uma intrusa que tinha forçado a entrada.

Assim que Daniel me viu, sua expressão mudou.

— Por que você não está com o vestido de noiva?

Ergui os olhos para ele e respondi num tom neutro:

— Não gosto de coisas que os outros já usaram. Isso vale para pessoas também.

Daniel fechou a cara na hora.

— O que você quer dizer com isso?

Sem responder, olhei para Clara, que sorria satisfeita ao lado dele.

— Hoje é aniversário do seu filho. Preparei um presente para vocês.

Clara franziu a testa por um instante, mas logo voltou a sorrir.

— Paulo já tem de tudo. Um dia, todo o patrimônio da família Silva vai ser dele.

Paulo levantou a cabeça e me encarou com desprezo.

— Não quero nada seu. É tudo nojento!

Daniel repreendeu Paulo num tom severo:

— Paulo, cala a boca!

Paulo ficou com os olhos vermelhos na hora, como se tivesse sofrido a maior injustiça do mundo.

Pegou uma garrafa de vinho da mesa e jogou contra mim.

O som do vidro se quebrando veio junto com os gritos.

Num instante, minha visão se tingiu de vermelho vivo.

Não sabia se era vinho tinto ou sangue.

Só sentia uma dor terrível que começava no alto da cabeça e se espalhava.

Por instinto, estendi a mão para Daniel.

Mesmo com a visão turva pelo sangue, consegui ver a primeira reação dele: se virar e ficar na frente de Clara e Paulo.

Era o mesmo Daniel que dizia amar só a mim e prometia me dar um lar.

Forcei um sorriso. Minha mão caiu, sem forças.

Clara não escondia a satisfação no olhar. Aproveitou a confusão para me dar um chute.

Caí com o corpo inteiro sobre os cacos de vidro espalhados pelo chão.

Os cacos se cravaram na minha pele. Logo, filetes de sangue começaram a escorrer pelo meu corpo.

De repente, a voz fria do sistema ganhou urgência: [Missão fracassada. Contagem regressiva para a eliminação: 30 segundos.]

Só então Daniel se lembrou de mim.

Estendeu a mão na minha direção, mas continuou me culpando:

— Achei que a gente tivesse chegado a um acordo. Primeiro você finge que está grávida, agora provoca os dois de propósito e acaba se machucando. O que você quer, afinal?

Fiquei encarando ele e, de repente, sorri.

Mesmo depois de tudo aquilo, ele ainda achava que a culpa era minha.

[Contagem regressiva para a eliminação: 5 segundos.]

Minha mente ficou em branco.

Com a mão trêmula, tirei a adaga que tinha escondido junto ao peito.

Ouvi as pessoas ao redor puxarem o ar de susto.

Daniel arregalou os olhos. Até a voz dele mudou.

— Beatriz, o que você vai fazer?!

[3.]

[2.]

[1.]

Enquanto ele me encarava, apavorado, ergui a mão e cravei a lâmina no meu peito.

Virei a cabeça para o lado e olhei para ele, sorrindo.

— Eu me matei e matei o nosso bebê... para que vocês três possam ser uma família.

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