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Capítulo 05 — O Contrato de Casamento

Ela não estava assinando um casamento, estava escolhendo o lado em uma guerra que ainda não tinha começado.

Este é o contrato.

Alina não respondeu de imediato, apenas olhou para o documento sobre a mesa, como se aquele pedaço de papel carregasse mais peso do que deveria.

Alexander permanecia de pé ao lado da mesa de madeira escura, com uma postura firme e natural, ocupando o espaço com facilidade, enquanto o terno bem ajustado destacava seus ombros largos e reforçava a imagem de um homem no controle de tudo ao seu redor, até do seu próprio silêncio.

Sentada na poltrona diante dele, Alina parecia menor, porém, não fraca, mas uma mulher que ainda carregava no corpo as consequências de uma tempestade recente demais para ser ignorada.

A frase foi simples e direta, sem tentar suavizar o que aquilo realmente representava. Alexander  deslizou o documento até ela com a mesma naturalidade com que provavelmente tomava decisões que mudavam destinos inteiros.

Alina observou as folhas por alguns segundos antes de tocá-las. 

Horas atrás, ela havia fugido de Moscou com medo de não sobreviver. Agora, estava prestes a assinar um contrato de casamento com um homem que não conhecia. A vida não mudava só rápido, ela virava tudo de uma vez, sem aviso.

Quando finalmente pegou o documento, os dedos ainda tremiam, apesar da tentativa de disfarçar. Alexander percebeu, mas não comentou, como se entendesse que, naquele momento, o silêncio dizia mais do que qualquer palavra.

Alina começou a ler o contrato, percebendo logo nas primeiras linhas que o texto era claro, objetivo e completamente desprovido de qualquer traço de emoção. 

Formalizava um casamento civil temporário entre Alexander Cárter e Alina Ivanov, e o termo temporário fez sua garganta secar antes que ela continuasse, passando os olhos por cada cláusula com uma atenção quase dolorosa. 

As condições eram diretas: proteção legal, residência nos Estados Unidos, cobertura jurídica e segurança privada. Em troca, exigiam discrição absoluta, cooperação total e a manutenção irrepreensível da imagem pública de esposa, deixando evidente que nada ali tinha relação com romance ou qualquer tipo de sentimento.

Era um acordo estratégico, frio e calculado.

E, ainda assim, havia algo no modo como ele a observava enquanto ela lia que tornava tudo mais intenso, como se aquele momento estivesse sendo analisado além do óbvio.

Alina ergueu os olhos.

Ele estava apoiado na mesa, com os braços cruzados, observando-a com calma e atenção, como se cada reação dela fosse relevante. 

— Você não parece surpreso — disse ela.

Alexander inclinou levemente a cabeça, como se a observasse por um ângulo diferente.

— Já lidei com situações piores.

— Casamentos de mentira?

— Não. Inimigos mais perigosos.

Aquilo não soou como exagero. Soou como fato.

Alina voltou a olhar o documento, mas logo franziu a testa ao encontrar uma cláusula específica.

— Aqui diz que eu vou morar com você.

— Sim.

— Isso é necessário?

— Muito.

Ela levantou o olhar novamente.

— Por quê?

Alexander se afastou da mesa e caminhou até a janela com a calma de quem não precisava responder rápido para ser convincente, observando Manhattan como se aquilo fosse apenas parte de um cenário já calculado.

— Porque Viktor Volkov não é impulsivo.

O nome apertou algo dentro dela e ele continuou:

— Ele observa, investiga, testa limites antes de agir.

Se virou apenas para encará-la.

— Se você estiver sozinha, em um espaço que não esteja diretamente ligado a mim… ele vai perceber.

Alina apertou o documento entre os dedos.

— Então eu preciso parecer realmente sua esposa.

— Exatamente.

A palavra ficou no ar por mais tempo do que deveria.

Esposa.

Alina voltou a ler, mas já não absorvia da mesma forma.

— Quanto tempo dura?

— Até Viktor desistir.

Ela soltou uma pequena risada nervosa.

— Isso pode levar anos.

— Não vai.

O tom dele não tinha dúvida.

Ela o observou com mais atenção.

— Você parece muito confiante.

Alexander sustentou o olhar.

— Eu não começo guerras que não pretendo vencer.

— E se eu quiser ir embora depois?

Alexander respondeu com calma.

— Você pode.

— Sem consequências?

— Sem consequências.

Ela respirou fundo.

— Por que você realmente está fazendo isso? 

Alexander permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder, como se escolhesse exatamente o que dizer. 

— Porque Viktor Volkov precisa aprender uma coisa básica… — disse, com a voz baixa, firme, sem pressa — ninguém destrói alguém e continua vivendo como se nada tivesse acontecido.

Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos escurecendo.

— Toda ação tem consequência. — fez uma pausa curta, sustentando o olhar nela — E eu faço questão de garantir que ele entenda isso da pior forma possível.

A resposta a pegou desprevenida, carregada de algo pessoal, mais profundo do que ela esperava, mas antes que pudesse questionar, ele completou, no mesmo tom controlado: 

— E também… porque minha irmã me pediu. 

O coração dela acelerou ao ouvir o nome da amiga. Mas, havia algo que precisava perguntar, mesmo que o constrangimento viesse junto.

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

Alexander arqueou uma sobrancelha, quase imperceptível.

— Pode tentar.

Alina hesitou por um instante, enquanto o leve rubor subiu pelo rosto antes mesmo de formular a frase completamente.

— Sobre… nós.

Ele não respondeu, apenas esperou ela continuar.  O silêncio dele não pressionava. Mas também não ajudava.

— Esse casamento… — ela começou, desviando o olhar por um segundo antes de voltar a encará-lo — existe alguma expectativa em relação à… proximidade?

A palavra saiu mais baixa, cautelosa. 

Por um segundo o olhar verde dele escureceu de forma quase imperceptível, como se tivesse entendido muito mais do que ela havia dito. 

Ele sorriu.

Um sorriso mínimo, controlado e perigoso.

— Minha pequena russa… não sou um garoto na puberdade. — disse, com a voz baixa, firme, quase tranquila demais para o peso da frase — e, se por acaso eu precisar transar, não se preocupe, serei discreto.

Alina sentiu o rosto aquecer imediatamente, desviando o olhar por um segundo antes de conseguir encará-lo de novo, visivelmente desconcertada. 

Não vou tocar em você sem que você queira.

A frase a pegou de surpresa, e por um instante Alina apenas o encarou, enquanto o corpo reagia antes que ela pensasse. Ela deveria estar assustada, mas de alguma forma que ela não compreendia, ela não temeu. 

Ele não desviou o olhar.

— Entenda de uma vez por todas — continuou — todos precisam se convencer de que você é minha esposa.

Alina não sabia se aquela informação a deixava aliviada, ou mais nervosa.

Alexander pegou a caneta e a colocou ao lado do contrato.

— Antes de assinar… preciso saber de uma coisa. Você é boa mentindo, senhorita Ivanov?

Alina hesitou por um instante mas respondeu com firmeza. 

— Não se preocupe, senhor Carter, serei convincente. 

Ele sorriu e empurrou o contrato para próximo dela.

— Então… não teremos problemas.

Alina respirou fundo, pegou a caneta e assinou. 

O som da ponta da caneta sobre o papel foi suave, mas naquele instante pareceu o som de algo muito maior começando.

Alexander pegou o documento, observou a assinatura e assinou logo embaixo, fechando a pasta logo em seguida.  

— Está feito.

Ela respirou fundo.

— Então agora…

Ele a interrompeu com calma.

Agora você é minha esposa.

A palavra caiu entre eles pesada e irreversível.

Ele se aproximou alguns passos dela e parou respeitando o limite. 

— Amanhã oficializamos no civil.

Ela assentiu.

— Minha equipe de segurança começa hoje.

— Se-segurança?

— Sim.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Você não achou que eu deixaria minha esposa andando sozinha por Nova York, achou?

Ela quase sorriu.

— Emma vai levá-la para casa. — disse se virando levemente para a cadeira ao lado pegando o paletó. 

— Su-sua casa? — perguntou ainda se acostumando com a ideia. 

Alexander vestiu o paletó sem pressa, ajustando o tecido nos ombros e deslizando os dedos até o punho, alinhando o relógio com precisão antes de completar, com a mesma tranquilidade: 

 — Agora é sua também.

Caminhou até a porta com a mesma calma controlada, mas parou antes de sair e se virou novamente, deixando o olhar verde percorrer o rosto dela até se deter no hematoma, o que fez sua expressão endurecer de forma imediata.

— A partir de agora, você não está mais sozinha — disse, em tom baixo, sem elevar a voz.

A pausa foi breve, mas suficiente para dar peso ao que vinha a seguir.

— E você não precisa mais se preocupar em se proteger. — O olhar permaneceu fixo nela, firme, inquestionável. — Isso agora passa a ser problema meu.

Alina não respondeu de imediato.

Por um instante, apenas o encarou, como se precisasse de tempo para entender o que aquelas palavras realmente significavam.

Era a primeira vez, desde que tudo começou, que alguém dizia aquilo sem exigir nada em troca.

Em Moscou, Viktor Volkov observava a fotografia de Alina sobre sua mesa enquanto um de seus homens entrava na sala.

— Senhor.

— Fale.

— Sabemos para onde ela foi.

Viktor ergueu os olhos.

— Diga de uma vez por todas. 

O homem respondeu:

— América. 

Viktor inclinou levemente a cabeça.

— Então alguém acabou de cometer o maior erro da própria vida.

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