capítulo 03

E então... eu conheci ele.

Nossa pai trabalhava muitos anos pro pai dele, e finalmente conseguiu a promoção que tanto queria. fomos convidados pra jantar na casa deles.

Quando o carro parou diante dos portões de ferro batido, eu perdi o fôlego. A casa não era apenas uma construção, era um monumento.

Parecia um cenário de sonho, um contraste violento com a reclusão cinzenta em que eu me escondia dentro do meu próprio quarto.

Minha mãe e o meu pai entraram na frente, recebidos com abraços e risos. Clarisse, que teve um imprevisto de última hora e só chegaria depois.

Estava sozinha, caminhando devagar pelo hall de entrada, me sentindo como uma intrusa em um palácio de vidro.

Foi então que o pai de Ricardo se aproximou de nós, acompanhado por ele.

— Este é meu filho, Ricardo.

Levantei o olhar, e o mundo simplesmente emudeceu.

Ricardo estava parado, tinha ombros largos sob sua camisa escura, criando uma aura quase mística ao redor dele.

Ele não era apenas um homem bonito, ele tinha uma presença que parecia ancorar o chão sob meus pés. Quando seus olhos, profundos e atentos, encontraram os meus, senti um choque que percorreu minha espinha, um reconhecimento silencioso que eu não sabia explicar.

Ele estendeu a mão, e o simples movimento pareceu rasgar o tecido da minha realidade.

Naquele instante, só conseguia ver aquele par de olhos que me olhavam como se eu fosse a única pessoa naquela sala de gigantes.

Meu coração deu um solavanco, e o ar que eu puxei veio carregado de sentimento que eu nunca tinha provado antes.

Eu nunca imaginaria que, sete anos depois... era exatamente assim que eu estaria com ele, ou que depois daquele jantar, minha vida se tornaria reflexo de todos os anos, que vivi desde a entrada naquela casa. A casa que pertencia a Clarisse:

.....

DIAS ATUAIS:

Sete anos que agora cabiam em quatro folhas de papel A4.

Eu olhava para o documento sobre a mesa de carvalho escura de Ricardo e sentia o peso de cada dia, de cada hora em que respirei o mesmo ar que ele, esperando por um olhar que nunca veio.

O papel do divórcio estava ali, branco, frio e assinado. A tinta da rubrica dele ainda parecia fresca, mas a decisão, eu sabia, fora tomada no instante em que ele colocou a aliança no meu dedo, sete anos atrás. Ele nunca esteve lá.

E ele nunca esteve lá, não de verdade.

Eu passei a vida mendigando afeto, como quem junta migalhas debaixo de uma mesa farta onde eu nunca fui convidada a me sentar.

Primeiro foi minha mãe, que sempre olhou para Clarisse com o brilho que eu desejava para mim.

Depois meu tio, o homem que chamei de pai, que me deu tudo o que o dinheiro podia comprar, mas me negou o perdão quando eu mais precisei.

E, por fim, Ricardo.

Ricardo, o homem que eu amei com cada fibra do meu ser e que me retribuiu com uma cortesia gelada.

Esperava sentada a oportunidade de entrar para falar com ele.

Qualquer outra esposa entraria sem precisar ser anunciada, mas eu não...

Sempre houve um muro entre nós, não importava o que eu fizesse para quebrar.

A porta do escritório se abriu e Letícia, a secretária saiu de lá com o sorriso vitorioso nos lábios.

Ela era melhor amiga de Clarice e fazia questão de me humilhar em cada oportunidade, uma extensão do veneno da minha prima dentro da minha própria vida.

Ricardo sabia disso, eu implorei para que ele é admitisse, contei sobre as palavras ácidas mas ele apenas permitia. Para ele o meu desconforto era irrelevante diante da eficiência dela.

— Ricardo, você tem visita.

Ela disse assim que me viu com uma intimidade que me cortou como navalha.

Entrei na sala sentindo o ar rarefeito. Ricardo estava sentado atrás da mesa, a postura impecável, o rosto esculpido em gelo.

Ele me olhou com aquela frieza de quem nunca me desejou, apenas me suportou por uma questão de honra.

Casamos por causa do nosso filho, Henry.

Ele foi um "homem honrado" que assumiu a mulher que engravidou em um momento de carência, mas nunca me perdoou por não ser a mulher que ele realmente queria.

— Aqui está...

eu disse, colocando o papel assinado diante dele.

— É o nosso divórcio, eu assinei.

Ele me olhou, seus olhos verdes tão potentes e imponentes eram como duas barras de gelo.

E por muito tempo a pergunta que permaneceu na minha mente foi:

Onde estava o homem que eu vi naquele jantar?

....

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