capítulo 03

O cemitério estava silencioso, com bancos de madeira dispostos sob as árvores. O pastor falava palavras sobre vida eterna, mas eu não conseguia processar.

Me sentei na última fileira, longe deles que estavam na frente, ao redor do caixão.

Ricardo ainda não havia chegado.

Até que senti o perfume dele.

Aquele amadeirado que impregnava meus lençóis e minha alma. Olhei para o lado e vi meu filho.

— Meu amor... você está aqui...

o puxei para o meu colo, buscando todo o conforto que o universo me negava nos braços pequenos dele.

— O vovô foi para o céu, mamãe? A vovó Márcia disse que ele virou um anjo.

Henry sussurrou.

— Sim, meu amor. Mas ele continua vivo aqui...

coloquei a mão no coraçãozinho dele.

— Sempre vai estar.

Levei ele para sentar ao meu lado e meu coração saltou quando Ricardo, em vez de seguir para a frente onde seus pais e a minha família estavam, sentou-se ao meu lado.

Fiquei sufocada.

As palavras do pastor faziam minhas lágrimas caírem finalmente, mas meus olhos estavam fixos no nada.

Eu não tinha mais ninguém além do meu menino.

Quando terminou, as pessoas começaram a se levantar.

— Paloma?

a voz de Ricardo era baixa.

Limpei o rosto rapidamente e me Levantei com Henry pela mão e caminhei atrás da multidão.

Já não aguentava mais ficar perto dele, sentindo o seu perfume que tanto amava.

— Vem filho... Vem com a mamãe.

Talvez seu ato de piedade fosse apenas remorso, só pena, eu não queria a pena dele, depois de todo o conforto que ele deu a Clarisse ou o que veio depois da hora que eu sair daquele hospital.

Tinha muitas pessoas nos dando os pêsames, cercando a todos mais a ela, o círculo era maior.

Agora ela era a garota que perdeu os dois pais, "sozinha" no mundo.

Mas ela nunca esteve só, tudo sempre foi sobre ela.

De longe, vi Ricardo se aproximar da minha mãe para ajudá-la, mas logo seus braços estavam ocupados novamente.

Era nossa última despedida.

— Vem filho, vamos deixar a flor pra ele.

Fui pra frente daquele caixão, não por mim mas pelo meu menino que tinha lembranças boas com ele, dentre seus seis anos de vida.

Porque eu sei que ele e o amor, mesmo me odiando ele amou meu filho como Neto.

Ele deixou a flor em cima do caixão.

— Adeus vovô...

Acenei levemente trazendo ele para trás de novo.

Clarice foi para frente do caixão E como sempre fez tudo ser sobre ela.

— Aí meu paizinho.. meu paizinho.

Se debruçou sobre o caixão.

Não duvidava do seu amor por ele ou por todas as suas lembranças, porque agora ela não tinha mais os seus pais, mas não conseguia não pensar que aquilo era culpa.

Ela o deixou e alegou que a culpa era minha por não voltar todos esses anos.

Mas ela não se importava com ele.

E então três pontos para enterrar aquele sentimento que eu ainda sentia, Ricardo a consolou na frente de todos, acabando com o resto que existia em mim.

Clarisse chorava desolada e se pendurou nele. Ele a acolheu, o braço firme em volta dela enquanto o caixão era descido.

Minha mãe abraçada o Maik.

Ricardo abraçado a Clarisse.

E eu, segurando a mão do meu filho no meio das lápides frias.

Ali, vendo a terra cobrir o homem que me deu um nome, eu decidi que não podia mais ser sugada por eles.

Clarisse voltou para me resumir a nada, para me machucar até eu não sobrar nada de mim.

Olhei para o meu filho e para o homem que eu estava perdendo de vez para o passado.

Eu não podia mais ficar ali. Eu precisava de um lugar onde eu não fosse apenas a sombra de um erro.

Onde talvez, em algum momento fosse amada de verdade..

....

Já não aguentava mais ficar naquele lugar. Era sufocante, esmagador.

Ser obrigada a ver eles dois juntos, sentir todos os olhares em mim como se esperasse uma reação minha, como uma régua de julgamento que nunca seria ao meu favor.

Ao me virar para sair com Henry, senti a primeira barreira. Os pais de Ricardo, que sempre me olharam como um acidente de percurso na vida do filho, se colocaram no caminho.

— Onde pensa que vai com o menino, Paloma?

a mãe dele perguntou, a voz polida, mas carregada de uma autoridade que me fazia sentir minúscula.

— Henry está no fim de semana com o pai.

Um nó se apertou na minha garganta. Olhei para o lado e vi Ricardo.

Ele não estava vindo até nós; ele estava ocupado demais segurando o mundo de Clarisse nos braços.

A visão era como uma brasa encostada na minha pele.

— Ricardo está ocupado demais consolando a nora que vocês tanto queriam.

Respondi, e a ironia saiu da minha boca com um gosto de bile.

— Ele não vai se importar se eu levar nosso filho.

— Isso quem decide é ele. Você não pode simplesmente tomar uma decisão dessas.

o pai dele rebateu, dando um passo à frente, quase me cercando.

Apertei a mão de Henry.

Senti o suor frio nas minhas palmas.

O medo subiu pela minha espinha como uma descarga elétrica.

Eles tinham o dinheiro, os contatos, o sobrenome que abria portas. E eu?

Eu era uma enfermeira que acabou de assinar um papel abrindo mão de metade de uma vida.

Eu só tinha o Henry, e o pavor de que eles o arrancassem de mim era a única coisa que me mantinha de pé.

....

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