capítulo 02

Os anos passaram, e o que era travessura de criança se transformou em uma estratégia refinada.

Na adolescência, a nossa casa em se tornou um palco onde Clarisse encenava sua perfeição. Ela era a luz, eu a sombra que ela projetava para parecer mais brilhante.

Minha mãe e o tio meu tio viviam em uma espécie de transe. Eles não viam a Clarisse que eu via.

Para eles, ela era a menina resiliente que, mesmo sem a mãe biológica, se esforçava para ser a melhor em tudo. Eu? Eu era apenas a "menina difícil".

Me lembro de quando os primeiros rapazes começaram a aparecer. Clarisse não queria apenas ser notada, ela precisava ser a preferida.

Se algum colega de escola demonstrava interesse por mim, ela entrava em um modo de operação silencioso. Ela não o atacava, ela me sabotava.

— A Paloma é tão sensível, né?

ela dizia para os meus amigos, com aquele tom de falsa preocupação.

— Às vezes ela fica dias trancada no quarto, sem falar com ninguém. A gente fica até com medo de como ela vai reagir às coisas.

Aos poucos, as pessoas se afastavam de mim, com receio da "instabilidade" que ela inventava.

Houve uma noite, perto do meu aniversário de 12 anos, que marcou o fim da minha inocência sobre quem ela realmente era.

O tio, tinha me dado um colar, uma joia simples que pertencera à minha avó paterna. Foi a primeira vez que senti que ele estava me vendo de verdade, ele até me deixou chamar ele de pai, ele me viu de verdade e não apenas como a sombra da Clarisse.

Naquela mesma noite, o colar sumiu.

— Você viu o meu colar, Clarisse?

perguntei, tentando manter a calma enquanto revirava minhas gavetas.

Ela estava sentada na cama, pintando as unhas com uma indiferença que me dava calafrios.

— Não, Paloma. Mas você sabe como você é desorganizada. Deve ter perdido por aí.

Procurei por dias. Até que, durante um jantar, nosso pai parou de comer e apontou para o pescoço da Clarisse. Lá estava ele. O brilho da prata contra a pele dela parecia um deboche.

— Clarisse, esse não é o colar da Paloma?

ele perguntou, confuso.

Ela arregalou os olhos, levando a mão ao peito como se tivesse sido atingida por um raio.

O choro veio em segundos, mestre como sempre.

— Pai... eu... eu achei no lixo! Estava embrulhado num papel amassado. Eu achei que a Paloma tivesse jogado fora porque disse que era velho e feio... eu só queria guardar uma lembrança da vovó também, já que não tenho nada da minha mãe aqui.

Minha mãe imediatamente a abraçou.

— Oh, querida... Paloma, como você pôde ser tão ingrata? Jogar fora um presente?

Eu não conseguia nem falar.

A audácia dela de me roubar e ainda me fazer parecer a vilã diante da minha própria mãe era quase admirável, de tão perversa.

Olhei para Clarisse por cima do ombro da minha mãe. Ela não estava chorando. ela estava fingindo.

A rejeição de Clarisse não era contra a minha mãe. Ela aceitava o amor dela porque isso me privava dele.

Ela queria o pai dela só para ela, e o resto do mundo também. Eu era o espelho que refletia o que ela não suportava em si mesma: o fato de que, por mais que ela fingisse, ela nunca seria a dona daquela história por direito.

Foi ali, sentada àquela mesa, vendo minha mãe consolar a ladra do meu presente, que eu entendi:

eu precisava ir embora. Se eu ficasse naquela casa, Clarisse terminaria de apagar o pouco que restava de mim.

....

o equilíbrio daquela casa já era frágil, sustentado por aparências e pelo teatro impecável da Clarisse. Foi quando a notícia chegou, como uma onda que prometia unir a família, mas que, para mim, acabou sendo o tsunami que me isolou de vez.

Minha mãe estava grávida.

Lembro do dia em que ela nos contou, reunidas na sala. nosso pai transbordava um orgulho que nunca tinha dedicado a mim, e minha mãe tinha aquele brilho no olhar de quem finalmente sentia que o "novo lar" estava completo.

Clarisse, por um momento, paralisou.

Vi o medo nos olhos dela, o medo de perder o trono. Mas, com a astúcia que já era sua marca registrada, ela recalculou a rota em segundos.

— Um bebê!

ela exclamou, correndo para abraçar a barriga da minha mãe antes mesmo de eu conseguir me levantar.

— Eu vou cuidar tanto dele, mãe. Vai ser o meu irmãozinho.

Ela deu uma ênfase cruel no "meu".

Quando Maik nasceu, o resto da visibilidade que eu ainda tinha se desintegrou.

Minha mãe mergulhou em uma adoração absoluta pelo filho. Maik era o elo de carne e sangue que justificava o seu lugar naquela casa.

O nosso pai via no menino a continuação do seu nome, mas continuava tendo Clarisse como sua princesa, sua confidente, a menina que ele precisava proteger do mundo.

E eu? Eu me tornei o fantasma da casa.

Eu observava as cenas da cozinha como se estivesse vendo um filme em que não fui escalada nem para o papel de figurante.

Minha mãe amava o Maik, o nosso pai amava a Clarisse. E ninguém parecia se lembrar de amar a mim. Eu sobrava nos almoços de domingo, sobrava nas fotos de família, sobrava até nas orações de antes de dormir.

mas eu amava meu irmão, ele era tão fofinho, e não tinha culpa de nada.

Me tornei reclusa. O silêncio passou a ser meu único companheiro fiel.

Eu passava horas no quarto, ou escondida no quintal, sentindo o peso sufocante de não pertencer a lugar nenhum. Eu era a filha da dona da casa, mas me sentia uma visita que já tinha passado do tempo de ir embora.

Clarisse carregava o Maik para cima e para baixo, agindo como a pequena mãe, a cuidadora exemplar. Ela recebia os elogios, os beijos e os olhares de aprovação.

Foi naquela época, entre o choro do Maik e os sorrisos ensaiados da Clarisse, que eu entendi que se eu quisesse sobreviver, eu teria que construir um mundo só meu, bem longe dali.

Um mundo onde eu não fosse apenas a sombra de uma irmã que me odiava e a sobra de pais que não me viam.

....

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