capítulo 02

Ricardo viu o celular no chão e franziu o cenho, se aproximando.

— O que aconteceu?

— Meu pai...

eu mal conseguia respirar.

— Ele está no hospital. Sofreu um ataque cardíaco. Preciso ir para lá agora.

— Vá. Eu vou assim que deixar o Henry com meus pais.

Ricardo disse, e pela primeira vez em anos, vi um lampejo de algo que não era frieza em seus olhos, mas eu não tinha tempo para decifrar.

Entrei no meu carro e dirigi como se minha vida dependesse disso.

Ao chegar ao hospital, o ar era pesado, carregado de uma despedida que eu não estava pronta para ter.

Eu queria pedir perdão, queria dizer que nunca quis trair ninguém, que apenas me apaixonei e que o erro me deu o maior tesouro do mundo.

Mas a resposta que recebi no corredor foi o silêncio e os olhos vermelhos de Maik e a notícia do médico:

"ele não resistiu".

O homem que me criou se foi...

E no meio da dor dilacerante, um pensamento sombrio me atingiu: com a morte dele, ela voltaria.

Clarisse, a mulher que Ricardo verdadeiramente amava, retornaria para reivindicar o lugar que eu tentei, inutilmente, preencher por sete anos.

Ela voltaria pro que sempre foi dela...

...

O hospital tinha um cheiro de éter e finais inevitáveis. Eu estava ali, a poucos metros da minha mãe e do meu irmão, mas a distância entre nós não era medida em passos, e sim em abismos de silêncio e rancor.

Eu via o desespero de Maik, o modo como ele socava a parede e depois cobria o rosto com as mãos, destruído pela perda do homem que ele idolatrava.

Via minha mãe, Márcia, encolhida em uma cadeira, o rosto pálido e as mãos trêmulas. Meu coração gritava para que eu corresse até eles. Eu queria envolver Maik em um abraço de irmã mais velha, queria segurar a mão da minha mãe e dizer que, apesar de tudo, eu também estava sangrando.

Mas eu não era bem-vinda.

Cada vez que meus olhos encontravam os deles, eu sentia a repulsa.

Para eles, eu era a mancha na história da família, a intrusa que causara desgosto ao patriarca até o seu último suspiro.

Fiquei no canto, as costas encostadas na parede fria, sem conseguir derramar uma única lágrima.

Meus olhos estavam secos, petrificados por uma dor tão profunda que não cabia no choro. Eu sentia apenas um peso esmagador no peito, como se o meu corpo todo estivesse se transformando em chumbo.

Foi quando Ricardo chegou.

Ele não veio até mim primeiro.

Ele foi direto para a minha mãe. Vi quando ele a envolveu em um abraço firme e protetor.

Minha mãe sempre o amou, sempre o viu como o genro perfeito, mas não por minha causa. Ela o amava pelo que ele representava para Clarisse.

Era como se, ao abraçar Ricardo, ela estivesse abraçando a felicidade que eu, na cabeça dela, havia roubado da sua protegida.

Maik também foi consolado por ele.

Ricardo colocou a mão no ombro do meu irmão, murmurando palavras que eu nunca tive o direito de ouvir.

E eu continuei ali, invisível, um fantasma em meio aos vivos.

Me afastei para o fim do corredor, sentindo que meu corpo físico começava a doer sob a pressão da rejeição.

Eu não queria mais esperar por migalhas de conforto.

Estava cansada de ser a última opção, a nota de rodapé na vida de todos eles.

E então, ela entrou.

Clarisse atravessou o corredor como um furacão de desespero.

Sete anos não haviam diminuído sua beleza, apenas adicionado uma camada de drama que ela sabia usar perfeitamente.

— Meu pai, cadê meu pai!

— Clarisse, calma... O nosso pai, ele... Ele não resistiu.

— Não, não! Meu paizinho não Maik...

Ela se jogou nos braços do meu irmão.

— Clarisse...

Meus olhos arderam quando vi quem ela procurou para se consolar.

Ricardo a chamou pelo nome e ela se jogou nos braços dele.

— Rick... Meu pai..

Vi as mãos dele se espalharem pelas costas dela, o modo como ele a apertou contra o peito, oferecendo um abrigo que eu passei sete anos tentando conquistar.

O olhar que ele lançou para ela era carregado de uma ternura que ele nunca, nem nos nossos momentos mais íntimos, direcionou a mim.

As mãos dele se espalhando no rosto dela, como se o tempo nunca tivesse passado, como se fosse só eles dois ali e o mundo todo estivesse sumido.

Tudo doía. O ar queimava meus pulmões. Não consegui olhar mais.

Me afastei pelo corredor sentindo que, se ficasse ali, eu desmoronaria em cinzas.

Eu ainda o amava, mesmo com o divórcio assinado, mesmo com todo o gelo.

Mas o fantasma agora tinha corpo e voz. Clarisse estava de volta para retomar o que sempre foi dela.

Fui para casa em transe.

Me deitei na cama e senti o vazio daquela casa me engolir.

O arrependimento de não ter falado uma última vez com o homem que me criou era uma ferida aberta.

Ele nunca me olhou como olhava para Clarisse, mas ele me amou até um dia, antes da gravidez, antes da "traição".

E minha mãe... minha mãe era a que menos podia me julgar. Ela, que passou a vida amando o meu tio enquanto ele estava com outra, que esperou a esposa dele morrer para assumir o lugar dela.

Ela via em mim o seu próprio reflexo, a mesma busca desesperada por um amor que pertencia a outra pessoa.

Eu nunca tive vez naquela casa.

Clarisse era a preferida dele, Maik era o protegido dela.

Eu era o erro, a sobra.

Eu podia ter errado ao me apaixonar, mas eu nunca traí ninguém.

Ricardo estava solteiro quando aconteceu. Mas a família preferiu a versão dela.

Não consegui dormir, desligar era tão difícil quando você perdeu tudo.

O telefone tocou. Era Maik.

— Não vai haver velório longo. Vamos enterrá-lo hoje. O mínimo que você faz para agradecer tudo o que ele fez por você é ir ao culto em memória antes de ele descer.

Ele deu o horário e desligou.

Suspirei pesado.

A saudade de Henry me atingiu com força.

Se ele estivesse aqui, me abraçaria com seus bracinhos pequenos e diria o nosso código.

Mas ele estava com Ricardo, longe da mim.

Vesti um vestido preto, simples e fechado. Mandei uma mensagem curta para Ricardo:

"Traga o Henry para o cemitério. Ele precisa se despedir do avô."

....

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