Mundo ficciónIniciar sesiónISABEL LINORES
Observei o homem misterioso, ou melhor, meu futuro marido de aluguel, assinar as duas vias do contrato com uma elegância que me deixou hipnotizada. — Pronto. — Ele empurrou os papéis de volta para mim, junto com a caneta. — Meu nome é Charles. Charles Kingston. Pisquei algumas vezes, segurando a risada. Charles Kingston? Sério? — Kingston? Entendi. É um ótimo nome artístico — comentei, dobrando o contrato com cuidado e guardando na bolsa. — Muito sofisticado. Dá um ar de magnata, sabe? Suas clientes devem adorar. Ele ergueu uma das sobrancelhas escuras e sorriu com diversão. — Nome artístico? — Ah, relaxa! Não precisa me dizer seu nome verdadeiro agora. Eu respeito o sigilo da sua profissão — sussurrei, dando uma piscadela cúmplice para ele. — Amanhã no cartório a gente resolve a papelada com os nomes reais, ok? Mas, por enquanto, "Charles Kingston" está ótimo. O meu nome é Isabel Linores. Ele pegou o copo de uísque novamente, deu um gole lento e encostou no sofá. Aquele homem exalava poder. A boate com certeza treinava muito bem seus funcionários para entrarem no personagem. — Cartório amanhã? A que horas? — aquela voz grave fez meu estômago dar cambalhota. — Nove da manhã em ponto. Não se atrase, por favor. — Eu me levantei, alisando a saia do meu vestido. Meus olhos varreram o corpo dele mais uma vez. O terno escuro caía perfeitamente naqueles ombros largos. — A propósito... se o clube permitir, seria muito legal você ir com esse terno amanhã. Charles quase engasgou com o uísque, mas disfarçou com uma tosse, limpando a garganta. — Se o clube permitir? — É, sabe como é... o seu uniforme de trabalho. — Apontei para a roupa dele. — Ele te deixa com uma cara ótima de "homem respeitável". Mas, caso o seu chefe seja chato e não deixe você sair com a roupa da boate... Abri minha bolsa novamente, vasculhei o fundo e tirei três notas amassadas de vinte dólares e um cartão com meu contato. Estiquei a mão e enfiei o dinheiro sem cerimônia no bolso da frente do paletó que ele usava. — Aqui. E esse é meu número. Se não puder ir de terno, compra pelo menos uma camisa social nas lojas populares. Pelo amor de Deus, não vá de regata cavada ou calça de couro apertada, tá bom? Nós precisamos parecer um casal normal no cartório, não um show de striptease matinal! Ele olhou para o dinheiro amassado espiando pelo bolso do paletó e depois para o meu rosto. Ele parecia genuinamente chocado, como se nunca tivesse visto uma nota de vinte dólares vir tão fácil na vida. Pobre coitado, pensei com pena, deve viver de migalhas e comissões baixas que o dono da boate repassa. — Obrigado, senhorita Linores. Serei o mais... "normal" possível. — Perfeito! Até amanhã, Charles. Virei as costas e saí da sala VIP. Eu consegui! Tinha um plano, tinha um noivo de mentira e a herança do vovô estava praticamente garantida! Passei pela pista de dança lotada, saí e respirei o ar puro da noite. — Ora, ora. Se não é a encalhada do ano saindo de um antro de perdição. Impossível. Aquela voz anasalada e irritante me dava calafrios. Virei a cabeça lentamente e lá estavam eles. Simon e Stephanie. Os dois pombinhos traidores estavam de braços dados, atravessando a rua vindo de um restaurante chique. — O que vocês estão fazendo aqui? — Nós viemos comemorar nosso noivado, é claro — Stephanie sorriu com malícia, apertando o braço de Simon. Ela me olhou de cima a baixo com nojo. — E você, Isabel? Veio afogar as mágoas? Ou tentou dar o golpe em algum velho rico lá dentro para tentar pagar o hospital da mamãe? — Lave a boca para falar da minha mãe! Simon deu uma risadinha arrogante, ajeitando o terno que eu mesma tinha comprado para ele parcelado no último Natal. — Não faça escândalo no meio da rua, Isabel. Já não bastou o vexame no restaurante que nem nos permitiu terminar o jantar? Olhe para você. Saindo de uma boate sozinha... Você não tem classe, não tem dinheiro e, pelo visto, não tem dignidade. Senti as lágrimas de raiva queimando nos meus olhos. Eu queria socar a cara dos dois, mas a humilhação parecia colar meus pés no chão. Eles estavam me encurralando e rindo de mim. De repente, uma mão grande e surpreendentemente quente pousou na minha cintura, puxando minhas costas contra um peito sólido. Em seguida, uma voz grave, rouca e ameaçadora soou acima da minha cabeça, fazendo um arrepio incontrolável subir pela minha nuca. — Algum problema aqui, querida?






