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Capítulo 2 – O herdeiro Kameron

Do outro lado da cidade, bem longe das ruas simples por onde Maya caminhava todos os dias, ficava a mansão Kameron. O portão era alto, o muro parecia mais um paredão de segurança, as câmeras vigiavam cada canto. Lá dentro, tudo era impecável, jardins milimetricamente cuidados, carros de luxo alinhados na garagem, funcionários que andavam em silêncio pelos corredores.

Era ali que Josh Kameron vivia.

Ele era o único herdeiro direto do grupo Kameron, um conglomerado bilionário com braços em construção civil, tecnologia, mercado financeiro e mais alguns setores que a maioria das pessoas comuns sequer entendia direito. Desde jovem, os jornais o chamavam de “o príncipe de gelo dos negócios”. Bonito, inteligente, reservado. E, acima de tudo, impossível de alcançar.

Josh, no entanto, não parecia impressionado com nada disso. Para ele, aquilo era apenas rotina.

Naquela manhã, ele estava no andar de cima, na própria suíte, terminando de dar nós na gravata em frente ao espelho. O terno caía perfeitamente no corpo, os cabelos bem alinhados, o relógio caro no pulso.

Um funcionário bateu na porta, com cuidado.

— Senhor Kameron, o carro já está à sua disposição.

— Já estou descendo — Josh respondeu, sem desviar o olhar do espelho.

Ele não tinha pressa. Nunca tinha. Aprendeu desde cedo que quem manda chega quando quer, não quando é esperado.

Ao descer as escadas largas da mansão, encontrou a mãe na sala de estar, tomando café em uma xícara de porcelana delicada. Ela sempre parecia pronta para uma foto de revista, postura reta, roupas elegantes, expressão controlada.

— Vai sair sem comer nada de novo? — ela perguntou, erguendo levemente uma sobrancelha.

— Já pedi café no escritório — ele respondeu, ajustando o relógio.

O pai estava lendo o jornal logo ao lado, com um óculos de leitura na ponta do nariz. Ele levantou os olhos por cima das páginas.

— A reunião de hoje é importante — comentou. — Aqueles investidores não vão perdoar hesitações.

Josh deu um leve sorriso de canto.

— Eles podem ficar tranquilos. Eu não hesito.

Esse era o mundo dele… números, gráficos, contratos, decisões rápidas. Era nisso que ele era bom.

Em compensação, quando o assunto era sentimentos, ele simplesmente preferia não se envolver.

Nem sempre foi assim.

Antes de se tornar o homem frio que todos conheciam, Josh já tinha acreditado no amor. E esse nome vinha sempre junto com outro: Yelena.

Ele a conheceu anos atrás, em um evento beneficente. Ela não parecia impressionada com o sobrenome dele, nem com o carro que ele dirigia, nem com os flashes dos fotógrafos. Foi isso que chamou sua atenção logo de cara.

— Você parece entediado — ela disse, na primeira vez que conversaram.

Josh arqueou a sobrancelha.

— E você parece sincera demais.

Ela sorriu.

— Alguém precisa ser.

Com o tempo, os dois começaram a sair com frequência. Não eram encontros cheios de glamour. Às vezes era só um café em um lugar discreto, uma caminhada à noite, um restaurante simples onde ninguém parecia reconhecer o rosto dele das revistas.

Com Yelena, ele podia falar sobre coisas que nunca comentava com ninguém… a pressão de ser herdeiro, o medo constante de decepcionar, a sensação de que tudo na vida dele já estava decidido antes mesmo de nascer.

— Você não é obrigado a seguir o que esperam de você — ela dizia.

— Não é tão simples assim — ele respondia.

— Talvez não seja simples — ela insistia. — Mas também não é impossível.

Ele realmente acreditou que, com ela, poderia ter algo diferente. Algo que não tivesse a ver com negócios, acordos, interesses.

Até que, um dia, ela simplesmente sumiu.

Sem brigas, sem discussão, sem um “adeus”. Josh passou dois dias tentando ligar, três dias esperando respostas, uma semana checando mensagens antigas, um mês fingindo que não se importava. Quando finalmente conseguiu falar com alguém que a conhecia, ouviu apenas que ela tinha ido embora “para seguir a própria vida”.

Aquilo quebrou algo dentro dele.

Depois disso, ele não confiou mais em promessas, nem em juras de amor, nem em sorrisos fáceis.

Relacionamentos, para ele, tinham se tornado apenas isso: perda de tempo. Pessoas iam embora. Pontos finais chegavam sem aviso. E ele decidiu que não deixaria mais ninguém ter o poder de destruí-lo daquela forma.

Agora, anos depois, sua vida estava organizada como um relógio. Acordava cedo, trabalhava o dia inteiro, fechava contratos, aumentava lucros. À noite, às vezes aparecia em eventos sociais porque era obrigado, outras vezes trancava-se no próprio escritório e continuava trabalhando.

Nada o abalava.

Ou pelo menos era o que todos acreditavam.

Naquela noite, em particular, a família estava reunida para um jantar formal. A grande mesa da mansão estava posta com talheres alinhados, louças finas e taças brilhantes. Havia três funcionários à disposição, revezando pratos, bebidas e bandejas.

Josh comia calado, atento à própria comida, mas com a cabeça ainda presa em números e relatórios. Foi a mãe quem puxou o assunto que ele gostaria de evitar.

— Josh, você já tem trinta e oito anos — ela começou, com uma calma que ele reconhecia como perigosa. — Está na hora de pensar em casamento.

Ele ergueu os olhos devagar, encarando-a por alguns segundos.

— Casamento? — repetiu, como se a palavra fosse estranha na própria boca.

— Não é uma surpresa — o pai interferiu, deixando o talher sobre o prato. — Em algum momento, isso teria que ser discutido.

Josh inclinou um pouco a cabeça para trás na cadeira.

— Discutido ou decidido por mim? Porque são duas coisas bem diferentes.

A mãe respirou fundo.

— A família Hayes sempre foi nossa aliada. Quando tivemos problemas com a expansão internacional, foram eles que nos ajudaram a segurar o prejuízo. O mínimo que podemos fazer agora é ouvir o pedido deles.

— Pedido? — Josh repetiu, já imaginando o rumo da conversa.

— A filha deles, Elizabeth, está em idade de casar — explicou a mãe. — É uma jovem educada, de boa família, preparada para esse tipo de posição. Um casamento entre vocês seria… conveniente.

Josh soltou uma risada baixa, sem humor, olhando para o próprio copo de vinho.

— Então é isso? Um acordo de negócios? Um mero contrato frio de casamento?

O pai não pareceu incomodado com o tom.

— Às vezes, os casamentos mais fortes começam assim — disse, pegando a taça com calma. — Com dois adultos conscientes, que entendem responsabilidades. Amor vem com o tempo. Ou não. Mas compromisso é o que sustenta uma família.

Josh girou o vinho dentro da taça, observando o líquido vermelho rodar.

— Vocês falam como se eu não tivesse opção.

— Claro que você tem — respondeu a mãe. — Mas também precisa entender que liderar essa família vai muito além da empresa. Existem alianças, compromissos antigos, promessas que foram feitas.

Ele ergueu o olhar, fixando os olhos no pai.

— E a promessa que eu fiz a mim mesmo, de nunca mais entrar em um relacionamento? Essa não conta?

O pai manteve a expressão firme.

— Você tem o privilégio de escolher não amar — ele afirmou. — Mas não tem o privilégio de escolher não assumir responsabilidades.

A sala ficou em silêncio por alguns segundos. O som distante de talheres e vozes na cozinha parecia mais alto do que realmente era.

Josh levou a taça aos lábios. Bebeu um pouco, deixou o sabor do vinho se espalhar na boca antes de responder.

— Façam o que quiserem — ele disse, por fim. — Conversem com a família Hayes, marquem encontros, organizem o que acharem melhor.

A mãe pareceu aliviada por um breve momento, até ouvir o complemento:

— Desde que não esperem que eu me apaixone.

Ele deixou a taça sobre a mesa com cuidado.

— Eu posso comparecer a um jantar. Posso usar um anel. Posso sorrir para fotos. Mas vocês sabem tão bem quanto eu que, no fim, isso será apenas mais um contrato.

A mãe fechou os olhos por um momento, como se aquela frase doesse mais do que gostaria de admitir.

— Josh… — ela começou.

— Eu não sou mais aquele garoto que acreditava que amor mudava tudo — ele cortou, sem grosseria, mas com firmeza. — O que vocês querem é um acordo de famílias. E isso, sim, eu sei como honrar.

O pai encarou o filho, avaliando cada palavra.

— Então podemos considerar que você não se opõe? — ele perguntou, em tom mais prático.

Josh levantou-se lentamente, ajeitando o paletó.

— Considerem que eu vou fazer o que precisa ser feito.

Ele deu alguns passos em direção à saída da sala.

— Mas se estiverem esperando uma história de amor… vão se decepcionar.

Sem olhar para trás, Josh deixou o jantar e seguiu para o escritório, como fazia sempre que algo o incomodava.

Lá dentro, trancado entre paredes de vidro, estantes de livros e uma mesa cheia de papéis, ele se sentia no controle. Pegou o notebook, abriu relatórios, mergulhou de novo no mundo que sabia dominar.

Enquanto digitava, uma única lembrança insistia em voltar… o sorriso de Yelena naquela noite em que ela disse que ele não precisava seguir o que esperavam dele.

Ele respirou fundo, espantando o pensamento.

— Amor é o roteiro dos outros — falou para si mesmo. — O meu é assinar contratos.

Do lado de fora daquela mansão, porém, o destino já estava escrevendo outra história para ele. Uma história que começaria com um casamento que ele não queria… e com uma mulher que ele nem imaginava conhecer.

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