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No Lugar da Noiva
No Lugar da Noiva
Por: Rosana Lyra
Capítulo 1 – Uma vida cheia de dívidas

Maya sempre teve pouco, mas nunca se sentiu pobre de verdade. A casa era simples, os móveis eram antigos, mas havia risadas, café passado na hora e o cheiro de comida da mãe enchendo a cozinha nos fins de semana. Para ela, isso era riqueza.

De manhã, trabalhava meio período em uma cafeteria perto do centro. À tarde e à noite, espalhava linhas e tecidos pela mesa da sala, fazendo barras, ajustando vestidos, costurando pequenos consertos para vizinhas e conhecidas. O dinheiro não sobrava, mas também não faltava o básico.

Até que tudo começou a desandar.

Primeiro, a mãe teve crises de cansaço. Achavam que era só desgaste, excesso de trabalho. Mas ela começou a emagrecer rápido demais, sentia dores constantes, e um dia desmaiou na cozinha. O susto levou todos ao hospital.

— É sério? — Maya perguntou, sentada de frente para o médico, com as mãos frias.

Ele olhou para o prontuário antes de encará-la.

— Ela vai precisar de tratamento contínuo. Exames, remédios, talvez internações.

O pai apertou o joelho com força.

— E… quanto isso vai custar? — ele perguntou, sem coragem de olhar para o médico.

Ninguém precisava responder. O valor apareceu depois, em papéis, boletos e contas.

Maya começou a fazer mais turnos na cafeteria. Pegou pedidos de costura até de madrugada. Mesmo assim, o dinheiro parecia sempre menor que as despesas.

Meses depois, o pai sofreu um acidente no galpão onde trabalhava. Uma máquina falhou, ele caiu, machucou a coluna. Não pôde mais voltar ao serviço.

Na primeira vez em que ele entrou em casa apoiado em uma muleta, Maya sentiu o chão sumir.

— Pai… você vai melhorar, né? — ela perguntou, tentando sorrir.

Ele evitou os olhos da filha.

— Vou, claro que vou… — respondeu, mas a voz não tinha firmeza.

As contas médicas passaram a chegar em montes. Envelope atrás de envelope. Havia também ligações, mensagens, avisos.

Um dia, bateram no portão. Maya abriu e deu de cara com um homem de camisa social e uma pasta debaixo do braço.

— Boa tarde. O senhor Augusto está?

Ela engoliu em seco.

— Está sim. Vou chamar.

O homem entrou na sala com um sorriso profissional, polido demais.

— Infelizmente, as parcelas estão atrasadas há três meses — ele disse, folheando papéis. — O hospital não pode manter esse tipo de débito indefinidamente.

Maya sentiu o queixo travar.

— Estamos fazendo o que podemos — o pai disse, a voz rouca. — Só precisamos de mais um tempo.

O cobrador suspirou, sem muita paciência.

— Eu entendo, senhor, mas existem prazos.

Depois que ele foi embora, o silêncio tomou conta da casa. A mãe chorava baixo no quarto. O pai ficou sentado na sala, olhando para a parede, o papel amassado na mão.

Naquela noite, Maya não conseguiu dormir. Virava de um lado para o outro, o peito apertado.

Levantou para beber água e, ao passar pelo corredor, ouviu a voz da mãe vindo da sala. Ela caminhou silenciosa até a porta e parou, escondida, apenas ouvindo.

— Nós não temos mais nada para vender… — o pai dizia, com a voz quebrada. — Já vendemos a TV, a moto, as economias… tudo.

— Não podemos desistir do tratamento… — a mãe chorava. — Eu ainda quero ver nossa filha realizar os sonhos dela. Ela sempre foi tão esforçada…

— E é justamente por isso que eu não queria que ela carregasse esse peso — ele respondeu. — Ela devia estar pensando em estudar, em viajar, não em dívida de hospital.

Maya sentiu as lágrimas escorrerem. Segurou a própria boca para não deixar nenhum som escapar.

— Talvez eu pudesse… — a mãe começou, mas o pai cortou na hora.

— Não, tem razão. Você não vai parar o tratamento. Não se fala mais nisso.

— E o que vamos fazer? — ela perguntou, desesperada.

Houve um silêncio longo. Maya encostou a testa na madeira da porta.

— Eu não sei… — o pai sussurrou, quase sem voz. — Eu realmente não sei.

Maya voltou para o quarto com o coração despedaçado. Deitou na cama, mas não fechou os olhos. Se eles não sabiam o que fazer, ela teria que descobrir.

No dia seguinte, foi trabalhar com olheiras profundas. A cafeteria estava cheia, o barulho de xícaras, conversas e música baixa misturava tudo. Ela se moveu no automático… anotava pedidos, servia cafés, limpava mesas.

— Maya, está tudo bem? — perguntou Júlia, a colega de trabalho, enquanto pegava uma bandeja.

— Estou cansada só — ela respondeu, forçando um sorriso.

Na pausa do almoço, Maya sentou na calçada, com o celular na mão, tentando procurar bicos, empregos temporários, qualquer coisa. Não tinha nada que pagasse o suficiente.

Ao voltar para dentro, algo chamou a atenção no mural perto do banheiro. Um papel diferente dos outros anúncios de aulas particulares e vendas de móveis.

Ela se aproximou para ler melhor.

— “Procura-se jovem com aparência específica. Trabalho de alto pagamento. Confidencial. Interessadas, entrar em contato com a Agência Hayes.”

Maya franziu a testa.

— “Aparência específica?” — perguntou. — Que tipo de trabalho é esse?

O valor oferecido embaixo, escrito em letras menores, prendeu o olhar dela. Era alto. Alto o suficiente para pagar uma parte grande da dívida. Talvez até para garantir alguns meses de tratamento da mãe.

— Está olhando o quê? — Júlia perguntou, chegando por trás.

Maya apontou.

— Isso. Já viu?

Júlia fez uma careta.

— Agência privada… trabalho confidencial… isso tem cara de problema.

Maya mordeu o lábio.

— Mas olha o valor…

— Justamente. Quando é dinheiro demais assim, tem alguma coisa errada.

Maya riu sem humor.

— Errado já está tudo na minha vida.

Ela tirou uma foto do anúncio com o celular. Durante o resto do turno, a mente dela ficou dividida entre as mesas que atendia e aquele papel grudado na parede.

Ao chegar em casa, encontrou a mãe deitada no sofá e o pai mexendo em contas novamente.

— Mais ligações hoje? — ela perguntou.

— Duas — respondeu o pai, sem levantar a cabeça. — Um deles já falou em acionar advogado.

Maya sentiu um nó na garganta.

— Eu vou resolver isso — ela disse.

O pai riu, sem alegria.

— Você não precisa carregar o mundo nas costas, Maya.

— Eu não estou carregando o mundo — ela respondeu. — Só a nossa família.

Naquela tarde, trancada no quarto, ela digitou o número da Agência Hayes. Pensou em desistir três vezes antes de apertar o botão de chamada. As mãos suavam.

— Agência Hayes, boa tarde — atendeu uma voz feminina, profissional.

— Oi, eu… eu vi um anúncio de vocês, sobre um trabalho para jovem com aparência específica.

— Certo — a atendente respondeu. — Podemos marcar uma entrevista. Qual o seu nome?

— Maya.

— Você pode vir amanhã às dez?

Maya hesitou. Olhou para o teto, respirou fundo.

— Posso sim.

Anotou o endereço, desligou e ficou olhando para o celular por alguns segundos.

No dia seguinte, acordou mais cedo do que o normal. Colocou a melhor roupa que tinha, prendeu o cabelo de um jeito simples, passou um pouco de batom emprestado da mãe.

— Está tão bonita, filha… — a mãe comentou, da porta do quarto. — Vai a algum lugar especial?

Maya forçou um sorriso.

— É só uma entrevista de emprego, mãe.

— Vou rezar para dar certo — ela respondeu, com os olhos brilhando.

O prédio da Agência Hayes era totalmente diferente de tudo que Maya conhecia. Alto, moderno, com uma portaria luxuosa e pessoas bem vestidas entrando e saindo.

Ela quase desistiu na porta.

— Eu não pertenço a esse lugar — sussurrou.

Mas então lembrou da mãe, do pai, das contas. Respirou fundo e entrou.

Na recepção, uma mulher elegante pediu o nome dela e a mandou esperar. Maya sentou em uma poltrona macia, ajeitou a saia, tentou não olhar muito em volta para não parecer deslocada.

Depois de alguns minutos, uma mulher de terno claro apareceu.

— Maya?

Ela se levantou.

— Sou eu.

— Pode me acompanhar, por favor.

O corredor tinha paredes claras, quadros caros. No fim, havia uma sala envidraçada. Maya entrou, sentou na cadeira de frente para a mesa, tentando manter a postura.

A mulher de terno a observou por alguns segundos, calada. Olhou para ela de cima a baixo, os olhos se fixando nos traços do rosto.

Maya começou a se mexer, incomodada.

— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, sem conseguir esconder a insegurança.

A mulher inclinou a cabeça, surpresa.

— Impressionante… — falou. — Você é praticamente idêntica a ela.

Maya franziu a testa.

— Idêntica a quem?

A mulher recostou na cadeira, cruzando as mãos sobre a mesa. Um sorriso surgiu nos lábios, mas não era um sorriso amigável. Era calculado.

— Talvez você seja exatamente a pessoa que estamos procurando.

Maya sentiu um arrepio percorrer a nuca.

— Procurando… para quê?

A mulher não respondeu de imediato. Abriu uma pasta, puxou uma foto e virou na direção de Maya. Quando ela viu o rosto na imagem, quase prendeu a respiração. Era como olhar para um espelho.

— Essa é Elizabeth Hayes — disse a mulher. — E vocês duas… são como duas gotas de água.

Maya olhou da foto para a mulher à sua frente, completamente confusa.

— Eu não entendo.

A mulher sorriu de novo, ainda com aquele ar misterioso.

— Você vai entender. E, se aceitar o nosso acordo, sua vida, e a da sua família, nunca mais será a mesma.

Maya ainda não sabia, mas aquele encontro estava prestes a virar tudo de cabeça para baixo.

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