Mundo de ficçãoIniciar sessão
Maya sempre teve pouco, mas nunca se sentiu pobre de verdade. A casa era simples, os móveis eram antigos, mas havia risadas, café passado na hora e o cheiro de comida da mãe enchendo a cozinha nos fins de semana. Para ela, isso era riqueza.
De manhã, trabalhava meio período em uma cafeteria perto do centro. À tarde e à noite, espalhava linhas e tecidos pela mesa da sala, fazendo barras, ajustando vestidos, costurando pequenos consertos para vizinhas e conhecidas. O dinheiro não sobrava, mas também não faltava o básico. Até que tudo começou a desandar. Primeiro, a mãe teve crises de cansaço. Achavam que era só desgaste, excesso de trabalho. Mas ela começou a emagrecer rápido demais, sentia dores constantes, e um dia desmaiou na cozinha. O susto levou todos ao hospital. — É sério? — Maya perguntou, sentada de frente para o médico, com as mãos frias. Ele olhou para o prontuário antes de encará-la. — Ela vai precisar de tratamento contínuo. Exames, remédios, talvez internações. O pai apertou o joelho com força. — E… quanto isso vai custar? — ele perguntou, sem coragem de olhar para o médico. Ninguém precisava responder. O valor apareceu depois, em papéis, boletos e contas. Maya começou a fazer mais turnos na cafeteria. Pegou pedidos de costura até de madrugada. Mesmo assim, o dinheiro parecia sempre menor que as despesas. Meses depois, o pai sofreu um acidente no galpão onde trabalhava. Uma máquina falhou, ele caiu, machucou a coluna. Não pôde mais voltar ao serviço. Na primeira vez em que ele entrou em casa apoiado em uma muleta, Maya sentiu o chão sumir. — Pai… você vai melhorar, né? — ela perguntou, tentando sorrir. Ele evitou os olhos da filha. — Vou, claro que vou… — respondeu, mas a voz não tinha firmeza. As contas médicas passaram a chegar em montes. Envelope atrás de envelope. Havia também ligações, mensagens, avisos. Um dia, bateram no portão. Maya abriu e deu de cara com um homem de camisa social e uma pasta debaixo do braço. — Boa tarde. O senhor Augusto está? Ela engoliu em seco. — Está sim. Vou chamar. O homem entrou na sala com um sorriso profissional, polido demais. — Infelizmente, as parcelas estão atrasadas há três meses — ele disse, folheando papéis. — O hospital não pode manter esse tipo de débito indefinidamente. Maya sentiu o queixo travar. — Estamos fazendo o que podemos — o pai disse, a voz rouca. — Só precisamos de mais um tempo. O cobrador suspirou, sem muita paciência. — Eu entendo, senhor, mas existem prazos. Depois que ele foi embora, o silêncio tomou conta da casa. A mãe chorava baixo no quarto. O pai ficou sentado na sala, olhando para a parede, o papel amassado na mão. Naquela noite, Maya não conseguiu dormir. Virava de um lado para o outro, o peito apertado. Levantou para beber água e, ao passar pelo corredor, ouviu a voz da mãe vindo da sala. Ela caminhou silenciosa até a porta e parou, escondida, apenas ouvindo. — Nós não temos mais nada para vender… — o pai dizia, com a voz quebrada. — Já vendemos a TV, a moto, as economias… tudo. — Não podemos desistir do tratamento… — a mãe chorava. — Eu ainda quero ver nossa filha realizar os sonhos dela. Ela sempre foi tão esforçada… — E é justamente por isso que eu não queria que ela carregasse esse peso — ele respondeu. — Ela devia estar pensando em estudar, em viajar, não em dívida de hospital. Maya sentiu as lágrimas escorrerem. Segurou a própria boca para não deixar nenhum som escapar. — Talvez eu pudesse… — a mãe começou, mas o pai cortou na hora. — Não, tem razão. Você não vai parar o tratamento. Não se fala mais nisso. — E o que vamos fazer? — ela perguntou, desesperada. Houve um silêncio longo. Maya encostou a testa na madeira da porta. — Eu não sei… — o pai sussurrou, quase sem voz. — Eu realmente não sei. Maya voltou para o quarto com o coração despedaçado. Deitou na cama, mas não fechou os olhos. Se eles não sabiam o que fazer, ela teria que descobrir. No dia seguinte, foi trabalhar com olheiras profundas. A cafeteria estava cheia, o barulho de xícaras, conversas e música baixa misturava tudo. Ela se moveu no automático… anotava pedidos, servia cafés, limpava mesas. — Maya, está tudo bem? — perguntou Júlia, a colega de trabalho, enquanto pegava uma bandeja. — Estou cansada só — ela respondeu, forçando um sorriso. Na pausa do almoço, Maya sentou na calçada, com o celular na mão, tentando procurar bicos, empregos temporários, qualquer coisa. Não tinha nada que pagasse o suficiente. Ao voltar para dentro, algo chamou a atenção no mural perto do banheiro. Um papel diferente dos outros anúncios de aulas particulares e vendas de móveis. Ela se aproximou para ler melhor. — “Procura-se jovem com aparência específica. Trabalho de alto pagamento. Confidencial. Interessadas, entrar em contato com a Agência Hayes.” Maya franziu a testa. — “Aparência específica?” — perguntou. — Que tipo de trabalho é esse? O valor oferecido embaixo, escrito em letras menores, prendeu o olhar dela. Era alto. Alto o suficiente para pagar uma parte grande da dívida. Talvez até para garantir alguns meses de tratamento da mãe. — Está olhando o quê? — Júlia perguntou, chegando por trás. Maya apontou. — Isso. Já viu? Júlia fez uma careta. — Agência privada… trabalho confidencial… isso tem cara de problema. Maya mordeu o lábio. — Mas olha o valor… — Justamente. Quando é dinheiro demais assim, tem alguma coisa errada. Maya riu sem humor. — Errado já está tudo na minha vida. Ela tirou uma foto do anúncio com o celular. Durante o resto do turno, a mente dela ficou dividida entre as mesas que atendia e aquele papel grudado na parede. Ao chegar em casa, encontrou a mãe deitada no sofá e o pai mexendo em contas novamente. — Mais ligações hoje? — ela perguntou. — Duas — respondeu o pai, sem levantar a cabeça. — Um deles já falou em acionar advogado. Maya sentiu um nó na garganta. — Eu vou resolver isso — ela disse. O pai riu, sem alegria. — Você não precisa carregar o mundo nas costas, Maya. — Eu não estou carregando o mundo — ela respondeu. — Só a nossa família. Naquela tarde, trancada no quarto, ela digitou o número da Agência Hayes. Pensou em desistir três vezes antes de apertar o botão de chamada. As mãos suavam. — Agência Hayes, boa tarde — atendeu uma voz feminina, profissional. — Oi, eu… eu vi um anúncio de vocês, sobre um trabalho para jovem com aparência específica. — Certo — a atendente respondeu. — Podemos marcar uma entrevista. Qual o seu nome? — Maya. — Você pode vir amanhã às dez? Maya hesitou. Olhou para o teto, respirou fundo. — Posso sim. Anotou o endereço, desligou e ficou olhando para o celular por alguns segundos. No dia seguinte, acordou mais cedo do que o normal. Colocou a melhor roupa que tinha, prendeu o cabelo de um jeito simples, passou um pouco de batom emprestado da mãe. — Está tão bonita, filha… — a mãe comentou, da porta do quarto. — Vai a algum lugar especial? Maya forçou um sorriso. — É só uma entrevista de emprego, mãe. — Vou rezar para dar certo — ela respondeu, com os olhos brilhando. O prédio da Agência Hayes era totalmente diferente de tudo que Maya conhecia. Alto, moderno, com uma portaria luxuosa e pessoas bem vestidas entrando e saindo. Ela quase desistiu na porta. — Eu não pertenço a esse lugar — sussurrou. Mas então lembrou da mãe, do pai, das contas. Respirou fundo e entrou. Na recepção, uma mulher elegante pediu o nome dela e a mandou esperar. Maya sentou em uma poltrona macia, ajeitou a saia, tentou não olhar muito em volta para não parecer deslocada. Depois de alguns minutos, uma mulher de terno claro apareceu. — Maya? Ela se levantou. — Sou eu. — Pode me acompanhar, por favor. O corredor tinha paredes claras, quadros caros. No fim, havia uma sala envidraçada. Maya entrou, sentou na cadeira de frente para a mesa, tentando manter a postura. A mulher de terno a observou por alguns segundos, calada. Olhou para ela de cima a baixo, os olhos se fixando nos traços do rosto. Maya começou a se mexer, incomodada. — Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, sem conseguir esconder a insegurança. A mulher inclinou a cabeça, surpresa. — Impressionante… — falou. — Você é praticamente idêntica a ela. Maya franziu a testa. — Idêntica a quem? A mulher recostou na cadeira, cruzando as mãos sobre a mesa. Um sorriso surgiu nos lábios, mas não era um sorriso amigável. Era calculado. — Talvez você seja exatamente a pessoa que estamos procurando. Maya sentiu um arrepio percorrer a nuca. — Procurando… para quê? A mulher não respondeu de imediato. Abriu uma pasta, puxou uma foto e virou na direção de Maya. Quando ela viu o rosto na imagem, quase prendeu a respiração. Era como olhar para um espelho. — Essa é Elizabeth Hayes — disse a mulher. — E vocês duas… são como duas gotas de água. Maya olhou da foto para a mulher à sua frente, completamente confusa. — Eu não entendo. A mulher sorriu de novo, ainda com aquele ar misterioso. — Você vai entender. E, se aceitar o nosso acordo, sua vida, e a da sua família, nunca mais será a mesma. Maya ainda não sabia, mas aquele encontro estava prestes a virar tudo de cabeça para baixo.






