Capítulo 1: O Preço da Esperança e o Sal da Sobrevivência
Marina Duarte
O cheiro de mofo da nossa casa era o perfume da minha infância. Não era um cheiro ruim, era o cheiro da luta, da umidade do mar e da teimosia de uma família que se recusava a afundar. O sol brasileiro era inclemente, mas a realidade da nossa família era ainda mais dura.
Eu olhava para a cozinha, onde minha mãe, Damares, começava a preparar o café da manhã. Ela era a definição de uma mulher batalhadora. Seus braços, fortes de anos lavando roupa para fora, amassavam o pão de milho com uma determinação silenciosa. Damares trabalhava muito para sustentar a mim e minhas duas irmãs mais novas, Laura e Betina. Ela limpava casas pela manhã e, à noite, costurava uniformes em uma máquina velha. Ela dormia apenas o tempo suficiente para não desmaiar.
Nós conhecíamos a fome pelo nome. Lembro-me de noites em que dividíamos um ovo frito em quatro partes, e minha mãe insistia que já havia comido. Nós passamos fome. Não era a fo