Nas mãos de um CEO (Em suas mãos I)
Nas mãos de um CEO (Em suas mãos I)
Por: Odette Carmonna
01.

Alex,

A sorte é para todos e, de repente, ela muda de lado. Quem diria que eu seria adotada aos sete anos por um casal louco para cuidar de uma criança sem lar. Os casais preferem os recém-nascidos. Eles perderam o filho para uma doença degenerativa e, dois anos depois, decidiram adotar um. Ficaram eufóricos com a ligação e não entenderam que era uma menina. Como eu disse, a sorte é para todos.

- Assim que eu coloquei meus olhos naquela menina magrela e assustada, me derreti - foi o que o meu pai disse com a fala embargada. As lágrimas escorreram dos olhos da minha mãe. Eles me contaram esse segredo quando completei 10 anos. Foi minha terceira festa de aniversário.

Na manhã do último domingo, em São Paulo

Acordei atrasada e, apesar de ser domingo, hoje é o último dia dos jogos da faculdade. Sou uma das voluntárias e preciso sair logo. Antes, quero ligar para meus pais.

- Mãe ... – quem fala do outro lado não é a minha mãe.  – Quem fala? - Será que roubaram o celular dela?

- Não desligue, sou a enfermeira chefe do hospital perto de General Carneiro – a pessoa do outro lado da linha inspirou o ar com dificuldade. - Qual o seu nome?

- Alex Annye Mouny – engoli seco e senti minhas mãos suarem. – Você disse hospital? – Com o coração acelerado, perguntei. - Aconteceu alguma coisa com meus pais?

- Sinto muito, eles sofreram um acidente de carro e não resistiram aos ferimentos.

- Eles ... morreram?

- Sinto muito.

Um buraco se abriu embaixo dos meus pés e as coisas perderam o sentido para mim, eles eram a minha única família.

Na manhã de terça-feira, em São Bernardo do Campo

Sentirei muito a falta dos meus pais.

O agente funerário fechou os caixões e Alex derramou mais uma enxurrada de lágrimas.

***

Arkel,

Na mesma manhã de terça-feira, em General Carneiro

O silêncio no escritório na casa da fazenda me deixou angustiado.  Pela janela, espreitei os carros da polícia estacionados no quintal, cobertos pela garoa fina que tinha acabado de cair. Alguns policiais estavam fumando e, um ou outro, destrinchando o que aprontou no final de semana. O frio parecia penetrar nos ossos daqueles homens, mas não nos meus. Ao contrário, o suor escorria pela minha testa, têmporas e corria pelo meu peito, encharcando aos poucos a minha camisa social preta. Aqueles homens estavam prontos para agir e nem sabiam ao que. Eles enchiam suas xícaras com o café quente da garrafa térmica, colocada na pequena mesa na varanda. A casa da fazenda era grande, simples e de madeira como a maioria das casas da região. Alguns dos policiais assistiam pelo celular a notícia de um trágico acidente que acontecera na madrugada do domingo, o mesmo dia do sequestro da minha namorada. O carro de um casal, de São Bernardo do Campo, entrara embaixo de um caminhão. Eles não resistiram aos ferimentos e morreram no local.

Neste momento, a casa da fazenda não se parece em nada com a maneira simples e pacata de viver do campo que estou acostumado. Há 3 anos, minha mãe trata um câncer na capital e meu pai largou tudo na minha mão para acompanhá-la. Nesses anos, “comi o pão que o diabo amassou” e não me arrependo. Comprei a fazenda que moramos e acabei de comprar outra na região metropolitana de Curitiba. Sou um homem de negócios bem sucedido e quero prosperar mais. Uns sonham com uma carreira de sucesso e outros em abrir o próprio negócio. Meu nome é Carlos Romero Arkel, tenho 26 anos, moro na região rural perto de General Carneiro e estou aguardando o telefonema dos sequestradores da minha namorada.

- Por que eles não ligam? – perguntei para o inspetor Santori, designado para acompanhar o sequestro da Beatriz, minha namorada e única herdeira de um empresário bem sucedido do ramo de alimentos industrializados, conhecido como Soares.

- Porque eles querem fazer uma guerra de nervos com você – o inspetor que lia as anotações no seu caderno, respondeu.

- Estão conseguindo – meus pensamentos foram para o momento do sequestro, na manhã do último domingo.

Sou um cara alto e tenho um porte atlético, mesmo assim, fui brutalmente agredido pelos marginais armados que usaram máscaras. Um deles se abaixou, grudou na gola da minha camisa e me puxou para perto dele. Fiquei enojado com o bafo quente do bandido na minha cara. Colocou a arma bem na frente dos meus olhos e me deu um recado curto e grosso.

- Nada de polícia, se não a garota morre – eles pegaram o meu celular e tiraram a bateria. Entraram no carro, um de cada lado da minha namorada, e me deixaram no meio da estrada machucado e com muita dor. O senhor de idade arregalou os olhos para mim e exigi que o “pote de mel” se explicasse. Com uma gagueira irritante, me disse que a mulher e os filhos foram feitos reféns de outros caras, armados até os dentes, e o obrigaram a me parar naquela estrada. O cara correu para dentro da mata e desapareceu. Que cagada a minha parar no meio do nada para um desconhecido. Era uma armadilha.

- Se concentre para seguir com o que combinamos – O inspetor me tirou daquelas lembranças, visualizou uma mensagem sem importância no celular e me encarou.

Aguardar de braços cruzados que um marginal ditasse as ordens era o fim da picada. Nenhum sinal dos caras.

- Arkel falando – quase atendi a ligação do marginal antes das cinco chamadas.  Meus batimentos cardíacos aceleraram e minha transpiração aumentou. Aquele escritório parecia me sufocar. Com uma das mãos atendi o telefone e com a outra, ergui os óculos com os dedos e esfreguei entre os olhos, ardidos e fundos pelas poucas horas de sono.

- Conseguiu o dinheiro? – O marginal perguntou no outro lado da linha.

- Já estou com o dinheiro – caminhei e parei no meio do escritório com uma das mãos no quadril e a outra segurando o celular.

- Escute e não me interrompa – o criminoso deu as instruções sobre a entrega do resgate ... – faça exatamente o que eu disse e nada de truques, se não a namoradinha morre.

- Como saberei que ela está bem? – preciso manter o sequestrador na linha, o maior tempo possível, para que a polícia consiga rastrear a chamada.

- Eu quero o dinheiro e você a garota, o que é uma troca mais do que justa – o bandido deu uma risada abafada. - Faça o que mandei e nada de ruim acontecerá com a princesa - queria gritar com o marginal e exigir que a soltassem imediatamente. - Bom ... a culpa será sua se acontecer alguma coisa com ela – o criminoso e outros ao fundo soltaram uma gargalhada irritante. Queria matá-los com minhas próprias mãos.

No outro lado da linha, o bandido desligou o telefone. Fiquei furioso e dei um soco na mesa do escritório.

– Não consegui manter o criminoso na linha por mais de 3min.

- Os caras sabem o que estão fazendo – o inspetor falou preocupado.

- O que acontece se ela não aparecer? - Encarei o inspetor por cima dos ombros e de olho nos policiais espalhados pelo quintal.

- Iremos atrás dos marginais - esclareceu.

Não coloquei fé no que o inspetor Santori disse e ele percebeu.

- Arkel, eles não querem ficar com uma morte nas costas, só querem o dinheiro. Se pegarmos os caras, com certeza dirão onde ela está ou onde a soltaram, para não aumentar ainda mais a pena deles. Acredite, eles têm experiência em sequestros.

Aquele sequestro não ganhou repercussão nacional e o inspetor Santori, um dos maiores especialistas em sequestros do país foi chamado às pressas para acompanhar o caso. Isso porque o Soares era um homem influente e com contatos de peso no governo. A esposa dele é neta de um político importante.

- Como acabaram os sequestros que o senhor acompanhou? – passei a mão nos meus cabelos desalinhados e encostei o ombro no batente da janela.

– São três tipos de sequestros, isso inclui aqueles com fins políticos. Na minha opinião, claro.

- Quais são? – Fiquei impaciente, queria entender a engrenagem do que está acontecendo.

- O primeiro é a extorsão, onde a sujeito ameaça alguém para conseguir alguma coisa, como senha de banco ou celular.

- Que não é o caso dela – respondi.

- O segundo é a extorsão mediante sequestro, onde os criminosos pedem dinheiro, geralmente.

- Que é o caso dela. E o terceiro? – perguntei para que o inspetor respondesse logo minha pergunta.

- O último, para mim, é o pior. O sequestrador restringe a liberdade de alguém.

- Não entendi - dobrei as mangas da minha camisa até os punhos.

- A pessoa simplesmente desaparece e o sequestrador não entra em contato. Ninguém sabe o que aconteceu, o que é uma verdadeira tortura para os familiares.

- Mas o que o sequestrador ganha com isso?

- São mulheres, na sua maioria.  Sofrem abuso sexual e são obrigadas a fazer o serviço doméstico para o sequestrador. Algumas conseguem escapar, mesmo anos depois, e o sequestrador acaba cometendo suicídio. Os que fogem, são geralmente presos. Eles destroem a família pelos anos de espera. A vítima, raramente, se recupera disso.

- O senhor não respondeu minha pergunta – queria respostas rápidas.  

- Neste caso, a maioria acaba solta assim que o resgate é pago.

- A maioria?

- Arkel, confie no trabalho da polícia.

- É o que eu mais quero.

- A entrega do dinheiro será daqui a 3h. Por que não sobe e descansa um pouco?

Com dor pelo corpo todo e exausto, encarei o inspetor e fui para o meu quarto.  Embaixo do chuveiro, deixei que a água quente escorresse pelo meu peito assim como minhas lágrimas. Me sentia culpado pelo sequestro.

- Arkel, seguiremos você até os limites das suas terras – o inspetor, com as mãos nos bolsos do casaco, falou. – Aconteça o que acontecer, não reaja – ele falou de frente para mim e com os olhos grudados nos meus. – Eles são perigosos – o inspetor colocou a mão em um dos meus ombros e um calafrio percorreu minha espinha. Os sequestradores exigiram que eu entregasse o resgate sozinho e desarmado. Para mim, era mais uma armadinha e queriam me matar.

Era uma terça-feira de maio e a garoa da tarde parecia mais gelada e melancólica. Fechei o porta-malas com o dinheiro dentro, plantei meus olhos no portão e nos policiais ao meu redor. Eles me encararam. Eram muitos os agentes parados, sem utilidade alguma naquele momento. Em algum lugar próximo, criminosos armados e perigosos fazem a minha namorada refém. Entrei no carro, liguei o motor e acelerei. Assim que passei pelo portão, enxerguei pelo retrovisor que o inspetor fazia uma ligação. Com certeza, reportaria ao seu superior, que reportaria ao político poderoso, que reportaria ao pai dela que saí para entregar o montante exigido pelos bandidos.

Enquanto dirigia, solitariamente, lembrei das palavras do inspetor insistindo que eles só queriam a grana e que a soltariam em algumas horas.  Foram quatro malas entregues em quatro lugares diferentes ao longo de uma estrada secundária - ao lado do leito de um rio – muito conhecida dos moradores da região e, pelo jeito, dos marginais também. Eles mandaram que eu dirigisse alguns quilômetros e aguardasse em um caminho aberto no meio da mata. Esperei o tempo que eles exigiram e retornei para casa, com a escuridão da noite e a neblina densa como companheiras. Senti frio e medo naquele lugar deserto e suspeito. Graças a Deus, não me mataram.

Lá fora, a penumbra e o ar frio da madrugada insistiam em permanecer. No relógio de parede do escritório da minha casa na fazenda eram 05h50 e o ponteiro dos minutos não saía mais do lugar. Finalmente, consegui dormir mais de 4h e acordei assustado.

- Acharam as malas – o inspetor Santori comentou, assim que encerrou a ligação com um dos policiais designados para ir atrás do dinheiro.

- Alguma notícia dela? –  Com os olhos no portão, perguntei.

- Ainda não.

- E os sequestradores?

- Não, acharam apenas as malas.

- Eu deixei o dinheiro naquela estrada há mais de 12h, como me mandaram fazer e nem sinal dela – cheguei ao meu limite.

- Calma Arkel, pela minha experiência, pode demorar algumas horas para ela ou alguém ligar.

Antes de sair do escritório, joguei um vaso de cerâmica na parede, encarei o inspetor e fui para o meu quarto. Há dias, o sono interrompido e a espera pelo fim daquele sequestro me consumiam. Carrego a culpa em meus ombros pelo sequestro dela. Que cagada parar naquela estrada deserta para um desconhecido.

Já eram 16:39 no relógio de parede do escritório e quase 24h depois da entrega do dinheiro. Finalmente, um dos policiais ligou para o inspetor. Queria acreditar que tudo acabaria bem. Só que, a falta de notícias por muito tempo e as malas encontradas boiando nas águas calmas daquela parte do rio, a quilômetros de distância dos locais da entrega, me fizeram pensar o pior. O inspetor atendeu e demorou mais que o normal no telefone e, pelas perguntas com frases curtas e engasgadas, desconfiei que as notícias não eram nada boas.

- Você sabe que recebemos várias ligações e, algumas, conseguimos saber se são verdadeiras ou não – o inspetor começou a me preparar para o pior. Eu não sou bobo.

- Sei, mas tem alguma que ajude?

- Uma ajudou.

- E o que a pessoa disse?

- A pessoa deu a localização de onde a Beatriz foi mantida nesses dias e os investigadores foram até lá. Bem, ... – o investigador limpou a garganta e estendeu a mão para minha cadeira. – Arkel, sente-se – deu merda, pensei.

- Fale – fiquei de costas para a janela do escritório, com os braços cruzados e os olhos marejados e grudados nos olhos do inspetor, esperando pelo pior.

- Eu já acompanhei vários sequestros durante a minha carreira e, raramente, ...

- Fale logo – continuei com o olhar no inspetor e as lágrimas escorreram por baixo dos meus óculos.

- Eles a encontraram morta.

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