Mundo ficciónIniciar sesión— Coluna ereta, Jade. Uma Luna não se senta, ela se posiciona.
A voz da Sra. Sterling cortou o ar como um chicote de couro. Ela era uma loba anciã, seca como um deserto e com o coração provavelmente feito de gelo e protocolos. Eu estava sentada em uma cadeira de encosto reto há três horas, com dois livros pesados sobre a cabeça e um espartilho que reduzia minha capacidade pulmonar a meros suspiros. — Eu não sou uma Luna, Sterling — sibilei, sentindo uma gota de suor escorrer entre minhas escápulas. — Eu sou um projeto de arquitetura que meu pai está tentando finalizar. — Menos sarcasmo e mais elegância. O Alfa Caleb não vai tolerar essa sua língua afiada na frente dos convidados do conselho. — O Alfa Caleb não consegue nem tolerar o próprio reflexo sem passar meia hora ajeitando o topete — retruquei, e o livro da esquerda escorregou, batendo no chão com um estrondo que ecoou pela sala de música. Sterling soltou um suspiro de pura decepção. Ela caminhou até mim, seus saltos batendo no mármore com uma precisão irritante. — Você não entende a gravidade disso, entende? — Ela segurou meu queixo com dedos frios e ossudos. — Você é a vitrine da Matilha da Lua Prateada. Se você falhar no banquete de noivado, a aliança com a Matilha de Ferro desmorona. E se isso acontecer, o sangue que será derramado nas fronteiras estará nas suas mãos. — Engraçado como a paz mundial sempre depende de eu saber qual garfo usar para o peixe — ironizei, afastando o rosto do toque dela. — Levante-se. Vamos praticar a dança de abertura. De novo. Eu queria rosnar. Queria rasgar o tapete persa com as minhas unhas e pular pela janela. Mas eu sabia que meu pai estava assistindo pelas câmeras. Se eu não cooperasse, ele cortaria minha única liberdade: as caminhadas solitárias pela floresta. E, depois de ver Dominic ontem à noite, a floresta era o único lugar onde eu realmente me sentia viva. A música começou — um piano clássico, monótono e sem alma. Sterling assumiu o papel do "homem" na dança. Ela segurou minha mão e minha cintura, me conduzindo pelo salão. — Sorriso suave, Jade. Olhos baixos, mas submissos. Você deve parecer que está flutuando, não marchando para a guerra. — É difícil não marchar quando você está sendo levada para o abate. — O Caleb te deseja, menina. Vi o jeito que ele te olhou. Você deveria usar isso a seu favor em vez de lutar contra o inevitável. — O desejo dele me dá náuseas, Sterling. É como se um réptil estivesse deslizando pela minha pele. Eu tentava focar nos passos, mas minha mente estava a quilômetros dali. Eu me imaginava dançando sob a luz da lua, mas não com um herdeiro engomado. Eu imaginava mãos brutas apertando minha cintura com uma força que deixaria marcas. Imaginava o cheiro de sândalo abafando esse cheiro de mofo da sala de etiqueta. — Você está distraída — Sterling acusou, apertando meu braço. — Sua frequência cardíaca está acelerada. No que está pensando? — No quanto eu gostaria de ver este piano cair em cima do Caleb. — Chega! — A porta do salão se abriu e meu pai entrou. A aura de Alfa dele inundou o recinto, pesada e sufocante. — Sterling, deixe-nos. A velha se curvou e saiu sem dizer uma palavra. Fiquei sozinha com o homem que deveria me proteger, mas que passava os dias planejando como me vender. — Você está sendo difícil de propósito — Silas disse, caminhando ao meu redor. — Caleb ligou. Ele disse que o beijo de despedida ontem foi… frio. — Talvez porque eu estivesse tentando não vomitar o jantar dele na boca dele. O tapa veio tão rápido que eu não tive tempo de desviar. Minha cabeça virou para o lado e o gosto metálico de sangue inundou minha boca. Eu não caí. Eu não ia dar a ele esse prazer. — Você vai aprender a ser a fêmea que eu mandei você ser — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. — Caleb é a nossa salvação. Se eu tiver que te quebrar para que você se encaixe no molde dele, eu farei isso. Eu olhei nos olhos dele, sentindo o calor do tapa queimar na minha bochecha. O ódio era uma chama límpida no meu peito. — Você pode me quebrar, pai. Mas um objeto quebrado não tem utilidade em um altar. O que você vai entregar para o Caleb? Um cadáver bonito? Ele levantou a mão novamente, mas parou. O som do meu celular apitando em cima do piano interrompeu a tensão. Era uma notificação de emergência da rede de segurança da mansão. Silas franziu a testa e pegou o aparelho. — O que é isso? — Ele olhou para a tela. — Um rastro de calor nos fundos da propriedade. Meu coração deu um salto. Dominic. — Devem ser apenas cervos, pai — eu disse, tentando manter a voz neutra, apesar da adrenalina disparar. — Cervos não desativam sensores de pressão, Jade. Ele saiu da sala aos gritos, chamando os guardas e o Beta de segurança. Fiquei ali, parada no centro do salão vazio, com a bochecha ardendo e o sangue pulsando nas pontas dos dedos. Caminhei até a janela e olhei para o jardim. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um vermelho sangrento. Eu sabia que não eram cervos. E sabia que a segurança da matilha não ia encontrar nada. Dominic não era alguém que se deixava pegar a menos que quisesse ser visto. Limpei o sangue do canto da boca com as costas da mão. O vestido azul estava amassado, e meu cabelo, que Sterling gastou horas arrumando, estava um desastre. Eu nunca me senti tão bonita. Se meu pai queria guerra, ele teria. Se Caleb queria uma boneca, ele ia descobrir que algumas bonecas vêm com lâminas escondidas. E se Dominic estivesse realmente lá fora, me assistindo… então talvez o treinamento de etiqueta não fosse totalmente inútil. Afinal, uma Luna precisa saber exatamente como se portar enquanto assiste o reino do seu inimigo queimar. Fui para o meu quarto, ignorando os gritos dos guardas lá fora. Eu tinha uma longa noite de sonhos eróticos pela frente, e dessa vez, eu não ia lutar contra eles. Eu ia deixá-los me consumir até que eu não restasse nada da "Jade obediente". Eu estava pronta para ser o caos que Dominic esperava.






