Cap.7

Cap. 7

A notícia ainda ecoava na cabeça dela.

Azael na televisão, sorrindo, triunfante. Melina ao lado dele, linda, radiante. A legenda.

Maelyn apertou os olhos com força, mas a imagem não saía. Ficava ali, gravada na mente como um ferro em brasa.

Ela levantou da cama.

O quarto era pequeno, Cama estreita, cômoda simples, uma janela que dava para os fundos da mansão. Nada do luxo do primeiro quarto. Nada do tapete macio, dos lençóis de seda, do banheiro com mármore italiano.

Magnus a rebaixara, e ela aceitara.

Ela começou a andar pelo quarto. Passo lento, doloroso, mas firme. As pernas doíam, os joelhos reclamavam, mas ela continuou.

Dez passos. Vinte. Cem. Quando as pernas fraquejaram, ela se apoiou na parede e continuou. Quando o fôlego faltou, ela parou, respirou fundo, e recomeçou.

Os médicos disseram que o movimento era essencial. Que o corpo precisava reagir. Que o peso, aquele peso maldito, só iria embora com suor e determinação.

Maelyn suava. E estava determinada.

Vou sair daqui. Vou provar que sou inocente. Vou fazer Azael pagar.

A raiva era um motor poderoso.

Enquanto caminhava, um pensamento a incomodava, Melina.

Melina, sua melhor amiga desde a faculdade. Melina, que segurou sua mão quando a mãe adoeceu que a consolou nas noites em que Azael a ignorava. Melina, que sempre esteve ao seu lado.

Será que Melina acreditava nas mentiras de Azael? Será que ela pensava que Maelyn realmente roubara a empresa? Desde que Maelyn se lembrará, Melina era inimiga de Azael e defendia ela com unhas e dentes, e tinha vindo morar em sua casa justamente para a proteger, não é possível que ela tenha a traída, isso jamais, Maelyn alimentava isso na cabeça.

— Não — Maelyn murmurou, parando no meio do quarto. — Ela não pode acreditar. Ela me conhece. Ela sabe que eu sou incapaz disso.

Talvez Melina estivesse tão enganada quanto todos. Talvez ela também fosse vítima das mentiras de Azael. Talvez, se Maelyn conseguisse contato, Melina pudesse ajudá-la.

A esperança era tola, mas Maelyn se agarrou a ela como um náufrago a uma tábua.

Se conseguisse falar com Melina, tudo poderia se resolver.

A porta se abriu sem aviso.

Magnus Blackthone entrou no quarto como quem invade território inimigo.

A distância calculada que mantinha entre eles, pelo menos dois metros, como se ela fosse radioativa. Maelyn já se acostumara com aquilo. Achava que era nojo. Nojo do seu corpo, da sua aparência, da sua existência.

— Senhor Blackthone — ela disse, parando de caminhar. A voz saiu neutra, cansada.

Ele a analisou por um momento. Sob a aba do chapéu, era impossível ler sua expressão.

— Vejo que está de pé.

— Sim.

— Os médicos disseram que sua recuperação está dentro do esperado.

— Estou melhorando, obrigada.

Silêncio.

Ele deu um passo para dentro do quarto, um passo apenas, o mínimo necessário.

— Quero deixar claro uma coisa, senhora Tafyllo. Você não sai deste andar sem minha permissão. Não desce as escadas. Não frequenta as áreas sociais da mansão. Seu espaço é este quarto e, quando autorizada, o corredor para exercícios. Estamos entendidos?

Maelyn engoliu seco, a visita dele e ele finalmente dirigir a palavra a ela de forma civilizada era raro, mas... era só mais uma de suas regras frias e desprezo evidente.

— Entendidos.

Ele a observou mais um instante. O nojo era algo que Maelyn lia nele, na forma como ele desviava o olhar, na tensão dos ombros, na maneira como mantinha as mãos enluvadas rigidamente ao lado do corpo.

— Não quero problemas — continuou ele. — Já tive o suficiente com a confusão da empregada.

— Você ao menos investigou? — Maelyn murmurou, mas a voz saiu tão baixa que ele talvez nem tenha ouvido.

Ele ouviu.

— Fez ou não fez, não importa. Importa que a confusão aconteceu. E enquanto você estiver nesta casa, vai seguir minhas regras.

Ela baixou a cabeça.

— Sim, senhor.

Magnus hesitou por um segundo. Algo parecia querer sair, mas ele o reprimiu. Virou-se e saiu, batendo a porta com mais força do que o necessário.

Maelyn ficou sozinha novamente.

Ela olhou para a porta fechada e sentiu o peso daquela visita. Não era apenas frieza. Era desprezo ativo. Ele a olhava como se ela fosse um inseto, um erro que precisava ser tolerado.

— Claro — murmurou, amarga. — Por que alguém como ele olharia para mim de outro jeito? Além disso... ele esconde tanto aquele rosto, com certeza é um homem tao desprezível quanto eu.

Ela voltou a andar.

[...]

No escritório de Magnus, a atmosfera era pesada.

Ele entrou, fechou a porta e caminhou até a escrivaninha imponente de mogno. Sobre ela, uma fotografia em moldura de prata, um homem idoso, de olhos gentis e sorriso sábio. Seu avô. O magnata Jones Blackthone, fundador do império que Magnus agora administrava.

Magnus sentou-se na poltrona de couro e ficou olhando para a foto.

— Está feito, avô — disse em voz baixa. — Ela está aqui. Sob meu teto. Exatamente como o senhor pediu.

Ele fez uma pausa, os dedos enluvados tamborilando na madeira.

— Mas não acredito no potencial dela. É só uma mulher manipulável, não encontro nela nada do que o senhor disse. O senhor Jones disse que ela era especial, que um dia eu entenderia. Mas só vejo uma mulher derrotada, sem fibra, sem reação, será que ele ainda vai me obrigar a manter esse casamento?

A foto do avô não respondia. Apenas sorria, eternamente.

Magnus suspirou.

— Vou cumprir minha palavra. Vou cuidar dela até o fim do prazo. Depois, seguiremos caminhos separados. Espero que o senhor me perdoe, mas não consigo enxergar nela o que o senhor via.

Ele guardou a foto na gaveta, como se esconder a imagem pudesse aliviar a culpa.

[...]

Horas depois, já noite, Maelyn estava sentada na cama, de pernas cruzadas.

Na mão, um pedaço de papel e um lápis, um dos poucos pertences que conseguira trazer do quarto, mas não o suficiente.

Ela tinha um passatempo especial, que eram seus desenhos, já fazia tanto tempo que não criara nada, decidiu usar aquele espaço para criar, e Não era um desenho qualquer. Era um vestido. Fluido, elegante, com recortes estratégicos e um caimento que parecia dançar no papel. Depois veio outro. E outro. E outro.

Desenhar sempre fora sua válvula de escape. Nos tempos de faculdade, quando a pressão era grande.

Nos anos de casamento, quando Azael a ignorava. Nos momentos de solidão, quando o mundo parecia desabar.

Agora, naquele quarto minúsculo, desenhar era a única coisa que a mantinha sã.

Ela parou em um dos croquis, um vestido de noiva, surpreendentemente. E pensou, Eu ainda tenho isso. Minha identidade. Meu talento. Ninguém sabe que sou a designer M. Ninguém. Isso ainda é meu.

Uma centelha acendeu dentro dela.

Se eu conseguir sair daqui... se eu conseguir provar a minha inocência... posso reconstruir tudo. Posso fazer Azael pagar. Posso recuperar a minha vida.

Ela olhou para a porta.

Lá fora, a mansão dormia.

Maelyn levantou-se devagar, os músculos doloridos, mas determinados. Vestiu o roupão, o mesmo simples que ganhara, e abriu a porta com cuidado.

O corredor estava vazio. Silencioso.

Ela começou a andar.

Não sabia exatamente para onde ia, mesmo que não pudesse, naquela hora da noite ninguém estava ali para lhe dizer nada, mas tudo que ela queria agora, era mais papel para continuar dedicando o seu tempo a criar.

Passo a passo, ela explorou o corredor, desceu uma escada estreita (não a principal, mas uma de serviço), e chegou a um andar diferente. Mais suntuoso. Portas de mogno, tapetes persas, quadros nas paredes.

O escritório.

Ela reconheceu a porta. Já vira Magnus saindo dali uma vez, durante uma das raras vezes em que ele aparecera no andar dela.

O coração batia acelerado. Ela olhou para os lados. Ninguém.

Empurrou a porta.

Estava aberta.

O escritório era enorme, escuro, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pelas cortinas abertas. Livros, estantes, uma escrivaninha imponente. Maelyn entrou devagar, os olhos se acostumando à penumbra.

Ela andou ao redor, curiosa. Quem era aquele homem que a mantinha prisioneira? O que ele escondia?

Foi quando viu.

Sobre uma estante, uma fotografia. Uma moldura de prata, antiga, com um rosto que ela conhecia bem.

Maelyn parou.

O coração disparou.

Ela se aproximou, as pernas tremendo, e pegou a moldura com as mãos trêmulas.

O homem na foto sorria para ela. Idoso, de olhos gentis, cabelos brancos impecáveis, e aquele sorriso que ela guardava na memória como um tesouro.

— Tutor... — a voz saiu um sussurro rouco. — Meu Deus, é o senhor.

Lágrimas brotaram dos olhos dela sem aviso. Ela apertou a moldura contra o peito, como se pudesse abraçar o homem da foto.

— Tutor Jones... quanto tempo. Meu querido tutor.

As lembranças vieram em avalanche. As aulas de investimento... ela se lembra que doutor Jones tinha mais duas pessoas com ele, desde muito nova aprendia com eles, a filha dele e seu marido, a mulher com quem ela aprendeu moda e os dois homens mestres de investimentos, mas ela já não sabe a muito tempo o paradeiro deles, quando ele a descobriu ainda aos doze anos.

O incentivo, o carinho, a forma como ele a chamava de minha menina prodígio. Os anos em que ele foi mais pai que qualquer figura paterna. E depois, o sumiço, ele simplesmente desapareceu de sua vida, sem explicação, quando ela se casou com Azael.

— O que o senhor faz aqui? — ela murmurou, ainda segurando a foto. — Por que seu retrato está na casa de Magnus Blackthone?

Ela limpou as lágrimas com as costas da mão e olhou ao redor com novos olhos.

Livros de negócios. Prêmios empresariais. Uma placa com o nome "Blackthone Enterprises

— Magnus... é discípulo do tutor? — ela sussurrou, incrédula.

Ela olhou para a foto novamente. Para o sorriso gentil de Jones. Para os olhos que sempre a enxergaram quando ninguém mais via.

— Tutor, o que o senhor fez? Quem é esse homem?

Nenhuma resposta. Apenas o silêncio da noite e o peso de um mistério que acabava de começar.

Maelyn devolveu a moldura ao lugar com cuidado, as mãos ainda tremendo.

Ela saiu do escritório tão silenciosamente quanto entrara, mas algo mudara dentro dela.

Ela se recompôs e começou a procurar algumas folhas de papel, assim que encontrou pegou as apertando contra o peito e saiu do escritório.

— O que está fazendo em meu escritório? — ela ouviu a voz fria atrás dela a analisando sem se aproximar.

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