Mundo de ficçãoIniciar sessãoA ARMADILHA
Um mês.
Trinta dias de agulhas, de exames, de mãos estranhas tocando seu corpo como se ele fosse um mapa de terras devastadas.
Trinta dias de fisioterapeutas girando suas articulações, de nutricionistas medindo porções, de enfermeiras anotando cada função do seu organismo em pranchetas que nunca mostravam para ela.
Maelyn perdeu a conta de quantas vezes desejou sumir e de quantas vezes saia dolorida de cada sessão.
Mas o corpo, teimoso, por um golpe de sorte respondia.
Primeiro vieram os dedos. Depois os pulsos. Os braços. As pernas começaram a tremer sob comando, depois a sustentar o peso por segundos, depois por minutos. Hoje, um mês depois de acordar naquele quarto de hóspedes que mais parecia uma cela de luxo, Maelyn conseguia andar.
Mal, mas conseguia.
Cada passo era uma negociação com a gravidade. O corpo pesava, doía, reclamava. Mas ela estava de pé. Sozinha. E isso, por enquanto, era o suficiente.
[...]
Os corredores da mansão Blackthone eram labirintos de opulência vazia.
Maelyn descobriu isso nas suas caminhadas matinais, quando o sol mal havia nascido e os empregados ainda não tinham começado suas rondas.
Ela aprendera a evitar horários de movimento. Aprendera a desviar de olhares. Aprendera que, naquela casa, sua presença era tolerada, nunca bem-vinda.
Os empregados falavam pouco com ela. Quando falavam, era com uma polidez gelada que doía mais que grosseria aberta.
E havia algo nos olhos deles, um brilho de julgamento, de superioridade mal disfarçada, que Maelyn aprendera a reconhecer.
Ela não é nada. Está aqui por caridade. O senhor vai se livrar dela logo.
Ela ouvia essas palavras mesmo quando ninguém as dizia e ela pensava de volta, "Como ele vai se livrar de mim se por alguma razão me prendeu em um acordo de casamento?"
O quarto que ocupava era outro motivo de ressentimento. Ela descobriu isso por acaso, numa noite em que não conseguiu dormir e ouviu duas empregadas conversando no corredor:
— Por que ela fica no quarto principal de matriarca? Aquele é o melhor depois do quarto do senhor.
— Dizem que o senhor deu ordens. Mas não entendo. Olha o estado dela... E, até onde sei, ela não significa nada, ele nem mesmo suporta encará-la.
— Deve ser algum acordo. Dinheiro envolvido. Só pode.
Maelyn apertou os olhos na escuridão e fingiu que não ouviu, "era Claro que ele não ia contar aos empregados que se casou com ela, mas o que se podia esperar?"
Naquela manhã, porém, algo estava diferente.
Maelyn acordou antes do sol, como de costume. Vestiu o roupão, um dos poucos itens que serviam em seu corpo, especialmente providenciado, e começou sua caminhada lenta pelo corredor.
O silêncio era reconfortante. Por alguns minutos, ela podia fingir que era apenas uma visitante numa casa bonita, não uma prisioneira sob a custódia de um homem que raramente via mas que sabia que estava sempre à espreita.
Porque Magnus Blackthone não aparecia.
Ela não o via há semanas. Desde aquele primeiro dia, quando acordou imóvel e ele estava lá, sentado na poltrona com seu chapéu e suas luvas, ele simplesmente... sumiu. Os médicos vinham. Os enfermeiros. Os empregados. Mas ele, nunca.
Às vezes, Maelyn pensava que tinha sonhado com ele.
Mas aí lembrava da voz. Da frieza. Das palavras: "Não espere nada de mim."
E sabia que era real.
Enquanto pensava em tudo isso, continuava caminhando pelo corredor.
O corredor era largo, forrado com um tapete persa que abafava os passos. Maelyn andava devagar, uma mão na parede para apoio, quando uma porta à sua esquerda se abriu de repente.
Um homem saiu, o mesmo empregado jovem que estivera no quarto no primeiro dia, o que desviou o olhar com nojo.
Ele carregava uma bandeja com restos de café, claramente vindo da copa. Não viu Maelyn. Não esperava ninguém ali tão cedo.
Ela tentou desviar, mas o corpo lento não respondeu a tempo.
O choque foi leve, um esbarrão de ombros, nada mais. Mas o empregado perdeu o equilíbrio, a bandeja voou, e as xícaras se estilhaçaram no chão com um barulho que pareceu explodir no silêncio da manhã.
— Desculpe! — Maelyn se apressou, estendendo a mão para ajudá-lo. — Eu não vi você saindo, me desculpe...
O homem olhou para ela.
E havia algo no olhar dele, um cálculo rápido, um brilho de oportunidade, que fez o estômago de Maelyn se contrair.
— Não preciso da ajuda de uma mulher que maltrata os empregados da casa.
Ele se levantou sozinho, ignorando a mão estendida. Seus olhos desviaram rapidamente para o fundo do corredor, onde uma figura se movia nas sombras que não houve tempo de Maelyn reconhecer.
A outra empregada. A mulher de meia-idade que a limpara no primeiro dia.
Maelyn sentiu o perigo antes de entendê-lo.
— Eu vou chamar alguém para limpar — disse ela, recuando. — Peço desculpas pelo transtorno, eu...
— Não precisa, dona. — A voz do homem era educada, mas os olhos... os olhos mentiam. — Eu cuido disso, afinal eu sou um dos funcionários da mansão.
Ele se curvou para pegar os cacos, e Maelyn, aliviada por escapar, seguiu em direção ao seu quarto.
Ela não viu o sorriso que ele trocou com a mulher no corredor.
Vinte minutos depois, Maelyn estava no quarto, sentada na cama, tentando acalmar a respiração. O esbarrão a deixara mais abalada do que deveria. Talvez fosse o medo constante de ser um fardo e a certeza de que todos ali a odiavam.
A porta estava entreaberta, ela raramente fechava completamente, porque ainda tinha medo de não conseguir abrir se precisasse. Ela mal se lembra de quando foi que adquiriu esse medo de espaços fechados, mas se lembra que esse medo veio das vezes que Azael a trancava por dias, com vergonha e nojo de seu novo corpo.
Essas lembranças a consumiam até que ouviu passos apressados no corredor.
A mulher entrou sem bater.
Era a mesma empregada de meia-idade, a que liderara a limpeza no primeiro dia. Mas agora seu rosto não era profissionalmente vazio. Agora havia algo diferente, uma tensão, um brilho nos olhos que Maelyn não soube interpretar.
A mulher entrou, passou por ela sem olhar, e começou a arrumar a cama. Mas não fazia sentido, a cama já estava arrumada. Maelyn mesma a arrumara horas antes, um hábito que aprendera nos tempos de internamento, quando qualquer tarefa era vitória.
— Posso ajudar? — Maelyn ofereceu, levantando-se com dificuldade. — A cama já está...
— Não precisa, dona. — A mulher não a olhava. Continuava alisando os lençóis, passando as mãos onde não havia dobras. — É meu trabalho. A senhora não precisa se preocupar.
Maelyn hesitou. Algo estava errado, mas ela não sabia o quê.
Deu um passo em direção à mulher.
— Escuta, eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu no corredor. Foi sem querer, eu não vi seu colega saindo e...
A mulher se virou tão rápido que Maelyn recuou.
Mas não foi o movimento que a assustou. Foi o que veio depois.







