Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu sempre soube que não poderia controlar tudo, mas ainda assim passei tempo demais me convencendo de que, se fosse cuidadosa o suficiente, se mantivesse distância de qualquer coisa que pudesse me desestabilizar, conseguiria pelo menos evitar o tipo de situação que me deixasse sem escolha, vulnerável diante de algo maior do que eu, e foi exatamente essa ilusão que começou a desmoronar no momento em que me vi deitada naquela maca, conectada a monitores, com pessoas ao meu redor tomando decisões que eu não podia antecipar, enquanto meu próprio corpo parecia agir por conta própria.
O som ritmado do monitor ainda ecoa na minha cabeça, mesmo agora que já estou sentada novamente, com a sensação de normalidade voltando aos poucos, embora eu saiba que nada realmente voltou ao que era antes, porque existe uma diferença enorme entre passar por algo e simplesmente seguir em frente como se aquilo não tivesse deixado nenhuma marca, e no meu caso, a marca não foi apenas física, mas emocional de uma forma que eu não estava preparada para lidar.
O que mais me incomoda não é a dor que senti, nem mesmo o medo momentâneo de que algo estivesse errado com o bebê, mas sim a forma como tudo saiu do meu controle em questão de segundos, deixando claro que, por mais que eu tente manter tudo organizado e previsível, existem coisas que simplesmente não dependem de mim, e aceitar isso sempre foi a parte mais difícil.
Eu respiro fundo, apoiando as mãos na lateral da maca antes de me levantar completamente, ignorando o olhar atento de uma das enfermeiras que ainda parece avaliar se estou realmente em condições de voltar à rotina, e por um instante considero a possibilidade de simplesmente dizer que preciso de mais tempo, que talvez devesse descansar um pouco mais, mas essa ideia desaparece tão rápido quanto surge, porque parar significa pensar, e pensar significa encarar tudo o que eu venho evitando desde o momento em que ele entrou na minha vida.
Ben.
O nome surge sem esforço, trazendo consigo não apenas a lembrança do que aconteceu, mas também a sensação incômoda de que ele esteve ali em um momento em que eu não queria ninguém por perto, não daquela forma, não com aquele nível de atenção que ultrapassa o profissional e se aproxima perigosamente de algo pessoal.
Eu não gosto disso.
Não gosto da forma como ele me observa como se estivesse tentando entender mais do que eu estou disposta a mostrar, não gosto da maneira como ele insiste em não aceitar respostas superficiais, e principalmente, não gosto do fato de que, mesmo sabendo disso tudo, eu não consigo simplesmente ignorar a presença dele como faço com todo o resto.
Caminho lentamente até o corredor, ajustando a postura e tentando retomar o controle que sempre me definiu, mas a cada passo sinto que alguma coisa mudou, não de forma visível, não algo que qualquer pessoa ao redor perceberia, mas algo interno, algo que torna mais difícil sustentar a barreira que eu construí com tanto cuidado ao longo dos meses.
Quando levanto o olhar, encontro exatamente aquilo que eu sabia que encontraria.
Ele está ali.
Encostado próximo ao balcão, conversando com outro médico, mas claramente atento a qualquer movimento ao redor, como se estivesse esperando algo, ou alguém, e quando nossos olhares se encontram, por um segundo que parece longo demais, eu tenho a nítida sensação de que ele já sabe que eu estou melhor antes mesmo que eu diga qualquer coisa.
Isso me irrita.
Não por ele estar certo, mas porque ele não deveria saber.
Desvio o olhar primeiro, retomando o caminho como se aquilo não tivesse importância, mas antes que eu consiga me afastar completamente, a voz dele me alcança, firme e direta, sem espaço para evasão.
— Você deveria estar descansando.
Eu paro.
Não porque quero, mas porque a forma como ele diz não deixa muita escolha.
Viro lentamente, cruzando os braços em um gesto automático de defesa enquanto encontro o olhar dele novamente, dessa vez mais preparada para sustentar o contato sem recuar.
— Eu estou bem — respondo, mantendo o tom estável, como se isso fosse suficiente para encerrar o assunto.
Ele não se move imediatamente, mas a expressão dele deixa claro que não está convencido, e isso já era esperado, considerando tudo o que aconteceu há pouco.
— Estar de pé não significa estar bem — ele retruca, com uma calma que beira a teimosia.
Eu respiro fundo, sentindo a irritação crescer de forma controlada, porque o problema não é exatamente o que ele está dizendo, mas a insistência, a forma como ele se coloca como alguém que tem direito de questionar algo que deveria ser exclusivamente meu.
— Eu sei me cuidar — digo, enfatizando cada palavra com cuidado, como se isso fosse reforçar o limite que estou tentando manter.
— Eu não disse que você não sabe — ele responde, aproximando-se um pouco mais, o suficiente para reduzir a distância entre nós, mas não o bastante para ser invasivo. — Eu só estou dizendo que talvez você não precise fazer isso sozinha o tempo todo.
E lá está.
Exatamente o ponto que eu evito.
Porque ele não está falando só da situação atual.
Ele está falando de algo maior.
E isso… isso é o que realmente me desestabiliza.
Por um momento, eu fico em silêncio, não porque não tenho resposta, mas porque qualquer resposta honesta abriria espaço para uma conversa que eu não estou disposta a ter, não aqui, não agora, não com ele.
— Eu preciso — digo por fim, com mais firmeza do que antes, como se estivesse reafirmando isso não apenas para ele, mas para mim mesma.
Ele me observa por alguns segundos, analisando, como se estivesse tentando decidir até onde pode ir sem ultrapassar um limite que eu deixei claro, e para minha surpresa, ele recua, não completamente, mas o suficiente para não transformar aquilo em um confronto direto.
— Tudo bem — diz, embora o tom indique que ele não concorda totalmente.
O silêncio que se instala depois disso não é confortável, mas também não é completamente hostil, porque existe algo ali que ainda não foi definido, algo que não se encaixa na categoria de conflito, mas também não pode ser ignorado como algo irrelevante.
Eu me viro novamente, pronta para seguir em frente, quando sinto um movimento mais forte na barriga, diferente dos anteriores, mais intenso, mais presente, fazendo com que eu leve a mão ao local automaticamente.
Ele percebe.
Claro que percebe.
E antes que eu diga qualquer coisa, ele já está ao meu lado, a atenção completamente voltada para mim, como se o resto do mundo tivesse desaparecido.
— Foi mais forte? — pergunta, a voz mais baixa agora, mais focada.
Eu assinto levemente, ainda sentindo o resquício do movimento.
— Ele está agitado hoje — digo, tentando manter o tom leve, mesmo sabendo que aquilo também pode ser interpretado de outra forma.
Ben não responde imediatamente, mas o olhar dele permanece atento, avaliando cada detalhe como se estivesse montando um quadro completo a partir de pequenas informações, e por um instante eu tenho a sensação de que ele está prestes a dizer algo mais, algo que vá além do profissional.
Mas ele não diz.
Em vez disso, ele apenas assente, mantendo a postura firme, mas agora com uma calma diferente, menos defensiva, mais… presente.
— Qualquer coisa diferente, você me chama — ele diz, repetindo a mesma frase de antes, mas dessa vez com um significado que vai além da obrigação médica.
Eu hesito.
Por um segundo.
E isso é suficiente para me irritar comigo mesma, porque hesitar não faz parte do plano, não faz parte da forma como eu conduzo minha vida desde que tudo mudou.
— Eu sei — respondo, finalmente, sem sustentar o olhar dele por muito tempo.
E então eu saio.
Não porque a conversa acabou.
Mas porque eu sei que, se ficar mais um minuto, vou começar a ceder em coisas que eu não posso permitir.
Enquanto caminho pelo corredor, tentando recuperar o ritmo normal da respiração e dos pensamentos, uma única certeza se forma com clareza desconfortável na minha mente.
Eu não estou mais no controle como antes.
E, pela primeira vez desde que tudo começou… isso não depende só de mim.







