Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 2
Noemi Narrando Os dias depois daquela noite pareceram não ter fim. A casa ficou grande demais. Silenciosa demais. Vazia demais. Eu ainda lembrava do barulho da porta batendo quando Nelzinha saiu com Henrique. Nem olhou para trás. Nem hesitou. Só pegou uma mala pequena e foi embora como se nada daquilo tivesse importância. Como se eu nunca tivesse sido irmã dela. Como se eu nunca tivesse sido noiva dele. Eu fiquei parada no meio da sala por um longo tempo depois que eles saíram. O silêncio parecia gritar dentro da minha cabeça. As palavras dela ainda ecoavam. — Você acha mesmo que ele quer você? — Olha pra você, Noemi. — Você é gorda demais pra qualquer homem. Eu tinha ouvido coisas assim antes na vida. Na escola, na rua, até de gente desconhecida. Mas nunca da minha própria irmã. Aquilo doeu diferente. Doía como se alguém tivesse enfiado uma faca devagar no meu peito. Naquela noite eu não dormi. Na outra também não. Eu ficava sentada na cama olhando para o teto, tentando entender em que momento minha vida tinha quebrado daquele jeito. Porque eu amava Henrique. Amava de verdade. Ele tinha sido o primeiro homem que me tratou com respeito. O primeiro que parecia enxergar algo em mim além do meu corpo grande. Eu tinha acreditado nele. Tinha acreditado quando ele dizia que me respeitava. Que queria fazer tudo certo. Que queria construir uma vida comigo. Eu até tinha começado a imaginar casamento. Casa. Filhos. Família. Tudo aquilo agora parecia uma piada cruel. Mesmo assim… meu coração não sabia odiar ele. E isso me machucava ainda mais. Eu continuei trabalhando. O salão não podia parar. A vida não espera ninguém juntar os pedaços do próprio¹ coração. Então eu acordava cedo, abria as portas, ligava o ventilador velho e começava mais um dia. Tranças. Cortes. Escova. Conversa. Sorrisos que eu fingia. Por dentro eu estava quebrada. As clientes percebiam. Algumas perguntavam. Outras apenas me olhavam com pena. Mas a pior parte não era a pena. Era o deboche. Salvador inteira parecia ter descoberto o que tinha acontecido. E a história crescia cada vez mais na boca das pessoas. — Tu soube da Noemi? — A irmã roubou o noivo dela. — Dizem que ele sempre preferiu a mais nova. — Homem nenhum aguenta mulher daquele tamanho. Eu ouvia. Fingia não ouvir. Engolia tudo. Mas cada palavra era mais um peso no meu peito. Até que um dia aconteceu. Eu estava varrendo a frente do salão quando ouvi o barulho de um carro diminuindo a velocidade. Levantei a cabeça. Era o carro de Henrique. Meu coração disparou. Por um segundo eu pensei que ele tinha voltado. Que tinha percebido o erro. Que ia pedir desculpas. Mas então eu vi. No banco do passageiro estava Nelzinha. Com óculos escuros grandes, cabelo solto, rindo de alguma coisa que ele falou. Ela parecia feliz. Livre. Como se nunca tivesse destruído minha vida. Quando o carro passou devagar na minha frente, ela virou o rosto e me viu. E sorriu. Não era um sorriso de irmã. Era um sorriso de vitória. Eu senti minhas pernas fraquejarem. Tive que segurar na porta do salão para não cair. Mesmo depois que o carro desapareceu na rua, eu ainda fiquei ali parada. Com o coração apertado. Porque, apesar de tudo… Eu ainda amava aquele homem. E odiava a mim mesma por isso. Os dias viraram semanas. E as coisas só pioravam. As meninas que antes se diziam minhas amigas começaram a agir diferente comigo. Algumas pararam de aparecer no salão. Outras vinham só para fofocar. — Noemi… tu viu a barriga da tua irmã? Eu congelei. — Barriga? A menina que estava sentada na cadeira fez uma cara falsa de surpresa. — Tu não sabia? Meu coração começou a bater forte. — Sabia o quê? Ela mexeu no celular, abriu uma foto e virou a tela para mim. Era Nelzinha. Em frente à padaria de Henrique. Com a mão na barriga. Uma barriga pequena… mas já aparecendo. A legenda dizia: "Nosso milagre." Eu senti o mundo parar. O ar sumiu dos meus pulmões. — Ela… está grávida? — Tá sim, a menina respondeu. Todo mundo já sabe. Minhas mãos começaram a tremer. Grávida. Minha irmã estava grávida. Do homem que eu amava. Do homem que eu acreditava que seria o pai dos meus filhos. A tesoura caiu da minha mão no chão. O barulho ecoou no salão. Eu não consegui falar nada. Não consegui respirar direito. Só consegui pensar em uma coisa. Tudo que eu tinha sonhado para minha vida… agora era a vida dela. E naquele momento eu entendi uma coisa dolorosa. Eu não tinha perdido só um noivo. Eu tinha perdido minha irmã. Minha família. Meu futuro. E a pior parte… Era que eu ainda precisava levantar no dia seguinte, abrir o salão e fingir que meu coração não estava em pedaços.






