Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlice, uma jovem de vinte e três anos se vê desesperada à procura de um emprego por causa de sua mãe que a pressionava para que trabalhasse para ajudar nas despesas da casa. Cansada de escutar ofensas de Damares, Alice se inscreve para algumas vagas de emprego na internet, para sua surpresa e alívio, um deles acaba chamando A vida porém lhe me reserva surpresas inesperadas, que a mesma nunca imagino
Ler maisSara Lemos
Eu sempre fui a excluída da família. E hoje, no grande dia do casamento da minha irmã mais velha, Raquel, isso não seria diferente. Enquanto os empregados corriam pelos corredores, finalizando os últimos detalhes da recepção pós-cerimônia, eu permanecia aqui, esquecida. Invisível, como sempre fui.
Raquel era linda, idolatrada pelos meus pais desde pequena, e agora iria se casar com um dos homens mais ricos do país. Já eu… era o oposto. Sempre fui alvo de humilhações, chamada de patinha feia devido às lentes grossas de meus óculos, resultado da minha miopia severa. Como se ver o mundo embaçado fosse motivo suficiente para não merecer amor, atenção ou respeito.
— Pare de ficar aí parada como uma estátua e vá ver se sua irmã precisa de alguma coisa! — gritou minha mãe no meu ouvido, enquanto passava por mim apressada, usando um vestido tão elegante que provavelmente custava mais do que tudo que eu já tive na vida.
— Duvido que a Raquel vá precisar de mim — respondi, sabendo bem que ela nunca gostou da minha presença. Sempre fez questão de dizer a todos que era filha única, só para não ter que me apresentar aos amigos.
— Não venha bancar a coitada agora, Sara. Não estrague o dia da sua irmã com esse seu vitimismo. Vá agora mesmo e pergunte se ela precisa de ajuda!
— Tudo bem — murmurei, já sabendo que protestar seria inútil.
Caminhei pelo corredor e, ao chegar à porta do quarto da minha irmã, bati antes de abrir.
— Raquel? — chamei, mas não ouvi nenhuma resposta.
Entrei devagar, em silêncio, e fui até o closet. Lá estava ela, sentada no chão, usando uma lingerie branca, com o celular nas mãos, digitando algo com tanta concentração que nem me notou. No entanto, quando me viu, levou um susto e se levantou num pulo.
— Patinha feia! Como ousa entrar no meu quarto sem bater?
— Mas eu bati — respondi, sem me alterar.
— O que está fazendo aqui? Quem te chamou? — disse com a voz cortante.
— A mamãe mandou eu vir perguntar se você precisa de ajuda.
Ela soltou um riso irônico.
— Por que eu aceitaria ajuda de uma inútil como você? — murmurou, voltando a olhar para o celular, que apitou com uma nova notificação.
Ela encarou a tela e suspirou, visivelmente cansada. Parecia travar um dilema interno. Por um instante, me deu vontade de perguntar o que estava acontecendo. Mas eu sabia que ela jamais me responderia.
Enquanto Raquel voltava a digitar, não pude deixar de reparar, mais uma vez, em como seu corpo parecia perfeito. Pernas longas e torneadas, cintura fina, seios fartos e um rosto angelical que, com certeza, encantou Renato Salles, o poderoso dono da AgroSalles Global. Eles namoraram por um ano e meio, e no mês passado ele a pediu em casamento. Já que Renato iria se mudar em breve e queria levá-la como esposa.
— Por que está me olhando assim, patinha? — Ela disparou de repente, me encarando com desdém. — Está colocando seu olho gordo em mim?
— Eu… — tentei responder, mas minha voz falhou. — Só queria saber por que ainda não está pronta. Seu vestido de noiva continua no cabide… e o casamento já vai começar.
— Eu não vou mais me casar — ela respondeu com naturalidade.
— O quê? — perguntei, incrédula.
— Além de cega, é surda? — rebateu, revirando os olhos enquanto ia até a cômoda pegar uma peça de roupa.
— Como assim não vai se casar? O Renato já deve estar te esperando na igreja!
— Eu sei — disse, já rindo —, e aposto que ele vai ficar arrasado quando souber que vou fugir com o melhor amigo dele.
— Raquel, você enlouqueceu?! — Me aproximei dela, chocada. — Você tem noção do que está fazendo?
— Ai, para de drama — murmurou, puxando uma calça jeans e a vestindo com calma. — Para você pode parecer o fim do mundo, já que ninguém olha para essa sua cara feia… mas para mim, Sara, todos olham. Todos me desejam. Eu sou o tipo de mulher por quem qualquer homem largaria tudo. E é por isso que vou fugir com o Alessandro. Além disso, se eu me casar com o Renato, terei que viver isolada com ele numa casa de campo, no meio do mato, longe de tudo. Da nossa família, dos meus amigos, das festas…
Ela pegou a blusa e continuou, como se estivesse contando algo trivial.
— Ele seria perfeito para você, sabia? Se casasse com ele, você iria correndo, sem reclamar. Você já é praticamente inútil nessa família, não tem amigos, nem ninguém, nem sentiria a mudança de ambiente — zombou. — Mas um homem como o Renato jamais olharia para uma patinha feia como você.
— Raquel… como pode dizer isso com tanta frieza? — sussurrei, sentindo uma pontada no peito. — O Renato te ama.
— E eu amo o amigo dele — disse, dando uma gargalhada como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. — O Renato vai superar, não se preocupe. E eu preciso pensar em mim primeiramente. Nunca estive pronta para esse casamento. Sou nova demais para me prender a um só homem. Pensar em família, filhos… que tédio. Isso não tem nada a ver comigo. Imagina se vou estragar a melhor fase da minha vida, só para realizar os sonhos do Renato?
— Se você sempre se sentiu assim, por que nunca disse nada? Por que esperou o dia do casamento para abandoná-lo no altar? — perguntei, ainda tentando processar o absurdo que minha irmã estava dizendo.
Mesmo sem conhecer Renato pessoalmente, eu sabia que ele era completamente apaixonado por ela.Raquel me encarou com um sorriso debochado que só ela sabia dar: cruel, frio.
— Eu não disse… porque estava ocupada demais na cama com o melhor amigo dele. — respondeu, caminhando até a penteadeira e pegando sua bolsa. — Se está tão preocupada com o Renato, vá em meu lugar! — Riu, desdenhando.
Sem me dar tempo de reagir, ela saiu do quarto com passos decididos e bateu a porta com força atrás de si.
37 entrar! — Escutei vozes atrás da porta do quarto. — Eu só quero vê-la, por favor! —a voz de Liu soou aflita. — Eu já falei que não pode ver a noiva antes do casamento. — Val rebate, brava. Segurei o vestido para que pudesse ir até lá. Tentei abrir a porta, mas a maçaneta parecia que estava emperrada. — Val, abre a porta! — gritei, chateada por ela ter me trancado. — Ele não pode ver você antes. Ah! Qual é? Todo mundo sabe dessa tradição. — Eu só quero vê-la, tocá-la, por favor! É só um pouco, eu vou até fechar os olhos, se você quiser, mas me deixa tocá-la?. — ele queria me fazer borrar a maquiagem. Que homem mais lindo! — Daqui a pouco você vai fazer muito mais do que apenas vê-la ou tocá-la. — Eu quero vê-la, abra a porta! - ele continuou insistindo, o que deixou a minha amiga mais irritada. — Liu! — eu o chamei. — Alice! — consegui perceber dor na sua voz por não poder me ver. — Valquíria Rodrigues, você vai abrir essa porta nem que seja para eu colocar apenas a m
36ESTAR APAIXONADO é tão bobo. Pensava constantemente em Liu, a maior parte do tempo, revivendo as lembranças de nós dois. A primeira vez que eu o vi, eu nunca vou esquecer! Sempre dou um sorriso quando pensava naquele. Quem diria que hoje estaríamos juntos e perdidamente apaixonados?Antigamente, eu tinha medo de não encontrar alguém para estar ao meu lado, hoje, meu medo é de perdê-lo. Engraçado, a vida é uma incerteza, tudo o que sabemos de fato, ao nascer, é que um dia morreremos. A morte é certa, porém incerta também, pois não se sabe nem um dia muito menos a hora. Apenas sabemos que ela chegará.— Qual é a sua cor preferida? — Liu me perguntou.Estávamos sentados em cima de uma toalha de mesa perto de um lago. Eu o convidei para fazer um piquenique.Liu tinha um bloco
35ME ENFIEI dentro do vestido azul turquesa de mangas compridas com botões no pulso. Ele era de um tecido fino delicado com forro por dentro. Em meu cabelo, fiz um rabo de cavalo baixo. Coloquei um batom cor de boca. Escolhi uma sandália alta de tiras, queria ficar mais alta ao lado de Liu. Peguei uma bolsa pequena de mão e desci para encontrá-lo.— Olha, como está linda! — exclamou Laura quando me viu.— Obrigada! — agradeci com timidez descendo as escadas.— Vamos? — perguntou Liu.Ele estava com um casaco cinza e com o colarinho branco da camisa social mostrando por baixo. Ele se enfiou dentro de um casaco aberto preto igual a sua calça. Essas cores são as preferidas dele. Era muito raro vê-lo usando outra cor. Quando são, é um verde escuro fechado ou azul.Saímos e Hugo abriu a porta do carro para nós.<
34Quando julgas, (...) te condena a te mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, práticas o mesmo.Romanos 2:1SEMPRE Temos a tendência de acreditar que a nossa visão é correta, entretanto, o amor não culpa ou julga o outro tão facilmente.Talvez eu tenha que dar o benefício da dúvida para Liu. Ele não faria algo irresponsável. Não faria algo para memagoar, não de propósito, acredito. Eu vou tentar não pensar muito no fato dele ter saído com a sua ex.Meus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta do quarto. Ao abrir, vi que se tratava da Sra. Laura.— Tudo bem, Alice? Posso conversar com você um minuto?— Claro, entre! — abri a porta um pouco mais para dar passagem para a mesma entrar.— Você não desceu para almoçar.





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