Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA
Você pode estar se perguntando: por que você simplesmente não foi atrás de um divórcio litigioso? A resposta é: aquele homem desprezível me fez assinar um contrato sem ler, e uma das letrinhas miúdas do contrato dizia que se eu me divorciasse dele, eu teria que pagar uma multa de cinco milhões de euros, e eu não tinha esse dinheiro. E sabe o porquê de eu não ter esse dinheiro? Porque após ter trabalhado tantos anos como modelo, e de ter conseguido excelentes campanhas graças ao Miss Itália, após alguns meses que nos conhecemos, eu fui estúpida o suficiente para entregar todas as minhas economias nas mãos do bastardo do meu ex-marido para que ele pudesse reerguer a Fascino, que na época, estava em ruínas. Pouco tempo depois nos casamos, e durante um ano tudo caminhou bem. O Lorenzo parecia me amar, até demais por sinal. E apesar das atitudes dele que me desagradavam profundamente, como o ciúme excessivo, a prepotência, a forma de tratar garçons em restaurantes, os comentários machistas em relação a mim e a outras mulheres, eu ainda assim o amava, e achava que poderia mudá-lo com o tempo. Eu tinha a ingenuidade de achar que ao longo dos anos ele iria mudar e falar para as pessoas que eu havia transformado ele em uma pessoa melhor. Iludida, não? O que aconteceu foi que, depois de um ano ele se transformou, mas foi para bem pior, e graças a isso, eu passei os dois piores anos da minha vida. Até a universidade, a minha tão sonhada graduação em moda, ele me obrigou a largar quando faltava apenas seis meses para concluir, simplesmente me mantendo em cárcere privado em casa. Meu pesadelo começou em um dia que o Lorenzo chegou embriagado em casa, e quando eu fui questioná-lo a respeito, ele espatifou o meu celular na parede e me deu a maior surra que eu já levei na vida. Meus braços ficaram roxos, meu abdômen extremamente dolorido, o meu rosto ficou deformado, com o meu olho inchado e sangue jorrando do meu supercílio. Após me deixar naquele estado, sem que eu conseguisse nem ao menos me levantar de tanta dor, ele foi dormir e em cinco minutos estava roncando feito um porco. Depois de não sei quanto tempo deitada em posição fetal, eu tirei força de onde não tinha e andei me segurando nos móveis até chegar no banheiro. Eu troquei a temperatura do chuveiro para que a água ficasse bem fria, e fiquei pelo menos meia hora deixando que ela caísse sobre mim. No início, eu senti uma ardência por conta dos cortes, mas logo aquela água foi diminuindo as dores do meu corpo. Após sair do banho, eu arrumei uma mala com alguns pertences, e fui em direção ao portão de saída da mansão, mas fui impedida de sair pelo armário que estava lá de guarda. Mesmo vendo a minha situação deplorável, ele disse que lamentava, mas tinha ordens estritas para não me deixar sair. Eu me lembrei que estava sem celular, então voltei para o interior da mansão para tentar pegar o celular do Lorenzo e ligar para a Giu, mas quando cheguei lá, vi que o celular dele estava no bolso e que como ele estava deitado de bruços, eu não conseguiria pegar o aparelho. Sem falar, que eu precisaria da digital dele para desbloquear. Passei a noite em claro, sentada em uma poltrona e olhando para o desgraçado, sem desviar o meu olhar. Confesso que em um determinado momento, eu até senti vontade de bater com alguma coisa na cabeça dele, só para ele desmaiar e eu conseguir pegar o seu celular, mas fiquei com medo da pancada ser muito forte, e acabar matando ele. Com todo ódio que eu estava sentido dele, não duvido que isso aconteceria. +++ Na manhã seguinte, quando Lorenzo acordou e viu o meu estado, ele se assustou e deu um salto na cama. - Eu quero o divórcio - eu disse o encarando, e mal conseguia abrir os meus olhos por causa dos hematomas. - Divórcio? Nós não vamos nos divorciar. Eu decido quando nós iremos nos divorciar - ele falou com um sorriso sarcástico no canto da boca. - Você acha que eu vou deixar isso impune? Eu vou na delegacia e vou denunciar você - minha voz saía embargada. - Sabe por que você não vai? Porque você está proibida de sair dessa casa. - Você não pode me manter prisioneira. - Não seja dramática, é só até os hematomas sumirem, para que o exame de corpo de delito não mostre as lesões. - Foi tudo premeditado? - Você já vinha merecendo uma surra a muito tempo, sua vadia. - Por que? O que eu fiz para merecer uma atrocidade dessas? - eu me levantei alterada. Aquela frieza dele estava me dando nos nervos. - Você ainda pergunta? Você não vale nada, e não merece tudo que eu já fiz por você. - E o que exatamente você fez por mim? - o encarei incrédula. Ele só podia ser louco. - Te dei um status, um sobrenome de peso... - Sobrenome de peso? - mesmo sentindo dores, eu não contive a risada - Nesses últimos anos a sua família só se envolve em escândalos. - Lave essa sua boca imunda para falar da minha família - ele se levantou vindo em minha direção, e confesso que meu corpo estremeceu de medo. Ele desviou de mim, e abriu uma das gavetas do seu closet. - Está vendo isso aqui? É um contrato. E como pode ver, está com a sua assinatura em todas as páginas. Nesse contrato diz que caso você decida cometer a idiotice de pedir o divórcio, terá que me pagar cinco milhões de euros de indenização. Digamos que é uma compensação por todo esse tempo que venho te suportando. Por acaso você tem esse dinheiro, Elena? - Não tenho porque fui ingênua e te emprestei todas as minhas economias, e até hoje você não me pagou um único euro. É sério que ainda está querendo me cobrar uma indenização pelo divórcio? Você é inacreditável, Lorenzo. Me casar com você foi o maior erro da minha vida. - Como você quer que eu te pague alguma coisa? Eu tenho bancado você todo esse tempo. Nessa época eu ainda tinha forças para brigar, e achava que estava respondendo a altura. +++ Um mês depois, eu descobri que estava grávida, e que inclusive já estava quando fui espancada pelo Lorenzo. Se existia algum resquício de amor ainda por ele, acabou quando eu contei sobre a gravidez. Eu lembro que o médico se sentou na minha frente com alguns exames nas mãos, e me deu duas notícias: A primeira, era que eu estava grávida de aproximadamente dez semanas, e a segunda, era que a minha gravidez era de risco, e que por isso, eu tinha que ficar de repouso e sem passar por nenhum estresse. Por esse motivo, me vi obrigada a contar para o Lorenzo, e confesso que eu ainda tinha um fio de esperança de que, por conta da gravidez, as coisas poderiam mudar. Eu sei, eu era a pessoa mais iludida do mundo quando estava casada com aquele traste. - Lorenzo, eu tenho um presente para você - eu entreguei uma caixa para ele, e dentro tinha um sapatinho de bebê e uma cartinha como se fosse do nosso filho para ele. Expectativa: Que o Lorenzo ficasse emocionado e me abraçasse feliz da vida com a notícia. Realidade: - De quem é essa criança? - ele me perguntou com uma expressão endurecida no rosto. - Como assim, de quem é a criança? - ele parecia ofendido com a minha pergunta, mas na verdade, quem tinha que ter se sentido insultada era eu. Achando pouco, ele ainda apertou meu pescoço e disse que só iria comemorar quando fizesse o DNA e comprovasse que a criança era dele. E ainda me ameaçou dizendo que se não fosse dele, eu iria ter que abortar, e que ele não iria criar o filho de um outro homem. - Lorenzo, solta o meu pescoço - implorei. - A minha gravidez é de risco, e eu tenho que ficar em repouso. Não posso passar por nenhum tipo de estresse. - Nós faremos o exame de DNA o mais rápido possível - ele disse, enfim soltando o meu pescoço e saindo do quarto, e é claro que nem ao menos leu a cartinha. Naquela mesma semana, eu e o Lorenzo fomos para uma consulta com um obstetra. Eu cheguei a achar que ele estava começando a se interessar pela criança, mas a verdade é que ele estava apenas interessado em tirar a sua dúvida. - Doutor, com quanto tempo podemos fazer um exame de DNA ainda na barriga? - foi a primeira pergunta que ele fez no instante em que sentamos de frente ao médico. - Com o tempo de gestação da Elena, nós já podemos fazer - o médico respondeu. - Doutor, tem algum risco para o meu filho? A minha gestação já é de risco - perguntei, eu parecia ser a única ali preocupada com o meu bebê. - Muitas mulheres ficam receosas na hora de escolher por esse procedimento, pois em raros casos, ele pode causar aborto. No entanto, com o avanço dos equipamentos de ultrassonografia que guiam esse procedimento, hoje ele é considerado um método seguro, com uma taxa de meio por cento de perda fetal. - Ainda assim existe o risco - o fitei. - Não seja dramática, Elena. O exame vai ser feito - o Lorenzo falou tentando disfarçar toda a sua irritação. Naquela mesma noite, eu ainda tentei argumentar com o Lorenzo, mas quanto mais eu insistia, mais ele pensava que o filho não era dele, e que eu só estava querendo ganhar tempo. Ele chegou a ameaçar me bater e fazer eu abortar a força se eu me negasse a fazer o exame de DNA. Naquela semana mesmo, o exame foi feito, e até sair o resultado, eu sofri todo tipo de pressão psicológica, já que ele não podia tocar em mim. Parecia que o Lorenzo tinha absoluta certeza de que aquele filho não era dele. Eu não via a hora de que o resultado daquele exame saísse. A minha vontade era esfregar na cara dele, já que eu não tinha motivo nenhum para temer. Eu nunca traí aquele traste, não que eu não tivesse motivo para isso, eu tinha vários, mas eu me respeitava em primeiro lugar. Quando recebemos o resultado do exame, antes de abrir, ele me fuzilou com os olhos. Eu tenho certeza de que o Lorenzo achava que naquele momento ele estava me desmascarando. Foi impagável a cara que ele fez quando viu que o resultado foi positivo. +++ Durante os meses da minha gravidez, até que o Lorenzo me deixou em paz, apesar de não perder uma oportunidade de me dizer o quanto eu estava engordando. O maledetto sempre foi obcecado com essa ideia de que eu tinha que ter um corpo perfeito. Como se não bastasse, ele não me deixava sair de casa, e implicava com as visitas da Giu e da Chiara. A Chiara é tudo para mim, o amor da minha vida. E quando eu estava no quinto mês de gestação, ela teve que ir para Nápoles para cuidar da nossa mãe. Ela havia descoberto um câncer de mama, e eu fiquei desolada de não poder estar lá cuidando dela. Mas ela estava sendo bem cuidada, com os médicos que eram referência em câncer de mama. E, eles estavam bem otimistas em relação ao tratamento da minha mãe, o que me deixou bem mais tranquila. A minha irmã teve que enfrentar essa barra sozinha aos quinze anos. Não eram apenas os cuidados com a minha mãe, mas também a incerteza, o medo... Nós já não tínhamos o nosso pai. +++ Meu pesadelo recomeçou quando eu perdi o meu bebê. Eu tive um sangramento com uma dor insuportável, tão insuportável, que até então, eu nunca havia sentido nada nem parecido. Ao escutar o meu grito, uma das funcionárias da casa correu até mim, e quando viu o meu estado, chamou o motorista para que ele me levasse às pressas para o hospital. Ao chegar lá, já não tinha o que fazer, já não tinha mais coraçãozinho batendo, e o meu bebezinho já estava sem vida. Essa dor me rasgava por dentro, e foi ainda mais forte do que a dor física que eu senti. O meu coração ficou dilacerado. Após perder o meu bebê, eu perdi também a vontade de viver. Sabe quantas vezes o Lorenzo foi até o hospital me ver enquanto eu passava por todo aquele processo doloroso? Nenhuma. Por sorte, eu tinha a Giu e minha irmã comigo. Diante da situação, a Chiara ficou dois dias em Milão comigo, e depois voltou para Nápoles para cuidar da nossa mãe, que estava terminando o tratamento para o câncer. Para ser bem sincera, Lorenzo não me fez falta alguma. Talvez eu tenha sentido falta do antigo Lorenzo, o que eu conheci e me casei, não do torturador que ele havia se transformado.






