COMEMORAR

ELENA

— Por que você não parece tão feliz? — a Giu, que me conhece melhor do que qualquer pessoa, percebe na hora que tem alguma coisa fora do lugar.

Ela não precisa de muito.

Um olhar mais distante.

Um sorriso que dura menos do que deveria.

Ela lê.

Sempre leu.

— Eu estou feliz… — começo, apoiando a taça entre as mãos. — Estou muito feliz. Tudo saiu como eu planejei. Exatamente como eu queria.

Faço uma pausa.

Porque tem um “mas”.

Sempre tem.

— Mas tinha um babaca lá que conseguiu me tirar do sério — completo, soltando o ar devagar. — E adivinha de quem eu estou falando.

Ela me encara, estreitando levemente os olhos, como se estivesse tentando decifrar.

Depois balança a cabeça, negando.

— Bem difícil — ela entorta a boca. — Babaca era o que não faltava naquela reunião. Vamos ver… Lorenzo, o babaca dos babacas… a Barbie de Chernobyl… aqueles dois acionistas inúteis que te viram sendo agredida e ficaram assistindo… — ela levanta uma sobrancelha. — De qual deles estamos falando?

— Do irmão do Lorenzo.

Ela pisca.

Uma vez.

Duas.

— Irmão? — repete, surpresa. — Eu nem sabia que aquele idiota tinha irmão.

— Eu sabia… — dou de ombros — mas nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Ele passou anos fora, viajando o mundo. O Lorenzo sempre falava dele com desprezo, dizia que era só um fotógrafo qualquer.

— O maledetto do seu ex-marido sendo esnobe, que novidade… — ela revira os olhos.

— Pois é… — murmuro, pensativa. — Mas o tal “fotógrafo qualquer” tem dez por cento das ações da Fascino… tem restaurantes… investimentos em hotéis…

Faço uma pausa.

E não consigo evitar.

— E parece sentir um certo prazer em ver o Lorenzo contrariado.

Que merda.

Eu estou sorrindo.

Percebo isso no mesmo instante.

E tento disfarçar, mas já foi.

— Por acaso você fez uma pesquisa sobre o seu ex-cunhado? — a Giu pergunta, cruzando os braços, claramente se divertindo.

— Só por curiosidade — desconverso rápido demais.

Ela não compra.

Nunca compra.

— E ele é o babaca de que estamos falando? — ela inclina a cabeça, me analisando com aquele olhar de quem já entendeu tudo.

Droga.

— Sim.

— E o babaca é bonito? — ela não perde tempo. — Qual o nome dele?

Eu respiro fundo.

Como se isso fosse ajudar.

Não ajuda.

— Matteo Médici — respondo. — Ele se recusa a usar o sobrenome Marino… não sei exatamente por quê. E…

Eu hesito.

Mas continuo.

— Ele é lindo. Incrivelmente lindo. E tem um olhar… — paro por um segundo, buscando a palavra certa — …um olhar que parece atravessar a gente.

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

Eu percebo o que acabei de fazer.

E endureço a expressão na hora.

— Mas o que tem de lindo, tem de babaca — completo, firme.

— Entendi… — a Giu sorri de um jeito que eu conheço muito bem.

— Nem vem — aponto para ela. — Eu já cansei desses rostinhos bonitos que só servem para dar problema. E, caso você tenha esquecido, ele é irmão do Lorenzo. Eu quero distância daquela família.

— Eu nem falei nada — ela levanta as mãos, inocente demais para ser verdade. — Por que você está se explicando tanto, Elena?

— Não estou me explicando — retruco rápido. — Só estou me antecipando às teorias malucas que você sempre inventa.

— Sei… — ela segura o riso. — Então me responde uma coisa: ele é bonito tipo o Lorenzo?

Eu solto um suspiro.

— Porque, olha… — ela continua — o Lorenzo é um lixo de pessoa, isso é indiscutível. Mas, por fora, ele é bonito. Infelizmente.

— O Lorenzo? — faço uma careta leve. — Ele coloca o Lorenzo no bolso.

Ela arregala os olhos.

— Sério?

— Nós estamos falando de outro nível — afirmo, antes mesmo de pensar.

E pronto.

Lá vou eu de novo.

— Mamma mia… — ela leva a mão ao peito, teatral.

— O Lorenzo é todo engomadinho, previsível… — continuo, gesticulando sem perceber. — Já ele… não estava nem de terno na reunião. Muito menos de gravata. Tem um estilo mais… solto. Mais natural. O cabelo bem cortado, mas a barba por fazer… — balanço a cabeça, lembrando — dá um ar meio selvagem.

A Giu está quase rindo.

Eu continuo.

— E o corpo… — paro, franzindo o cenho — aquilo ali não é normal. Dá para ver definição até por baixo da camisa. Sem esforço. Sem exagero.

Agora ela não segura mais.

— Uau — diz, claramente se divertindo às minhas custas. — Mas me conta… o que o babaca bonitão fez para te deixar tão irritada?

— Ele teve a audácia de insinuar que eu estava fazendo tudo aquilo por causa da traição do Lorenzo — digo, voltando ao ponto que realmente me incomoda.

— Só isso? — ela arqueia uma sobrancelha.

— Ele disse que eu era muito bonita para deixar minha vida girar em torno de um maledetto como o Lorenzo — completo, indignada. — Olha a ironia… um maledetto falando do outro.

Cruzo os braços.

— Como ele pode tirar conclusões sobre mim sem me conhecer?

— Ele não faz ideia do que você passou — a Giu diz, mais séria agora, puxando minha cabeça para o ombro dela. — Ele julga baseado no que vê.

Faço silêncio.

Ela continua:

— Mas, se ele chamou o Lorenzo de maledetto… ele sabe de alguma coisa. Eles não devem se dar bem. E isso, querendo ou não… j**a a favor dele.

— É… — admito, relutante. — Teve uma votação, um tempo atrás, para manter o Lorenzo como CEO. E adivinha quem foi o único voto contra?

— Matteo? — ela pergunta, já sorrindo.

Eu confirmo com a cabeça.

— Acho que estou começando a gostar dele — ela diz, sem nenhum pudor.

Reviro os olhos.

Mas, no fundo…

Eu entendo.

— Depois disso, o Fabrízio Mancini vendeu parte das ações… — continuo, mais calma — o plano deles era concentrar tudo em uma única pessoa. Mas a pressão da imprensa… o escândalo com o nome Marino… fez eles recuarem.

Dou um gole no champanhe.

— E a minha proposta ajudou.

— Claro que ajudou — ela sorri. — Você sabe exatamente o que está fazendo.

— Isso não muda o fato de que ele me julgou sem me conhecer — digo, terminando a taça de uma vez e me levantando.

Ainda me incomoda.

Mais do que deveria.

— Amiga… — a Giu levanta na mesma hora, animada de novo. — Hoje não é dia de ficar presa nisso.

Ela segura meu braço.

— Hoje a gente comemora.

— Giu…

— Sem discussão — ela aponta o dedo para mim. — Vamos ligar para a Chiara. Tenho certeza de que ela vai topar na hora.

Eu hesito.

Por um segundo.

Só um.

E então…

— Tá bom.

Porque, depois de tudo…

Eu mereço isso.

E, talvez…

Só por hoje…

Eu possa deixar o resto de lado.

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