CÚMPLICES

ELENA

A entrada triunfal, as coisas que eu fiz e falei, a tomada da presidência da empresa… tudo aquilo foi demais.

Demais porque saiu exatamente como eu planejei.

E demais porque o preço veio logo depois.

Por fora, eu mantive a postura impecável. Fria. Controlada. Intocável.

Mas, por dentro, cada segundo ali cobrou seu peso.

Estar naquele lugar, diante daquelas pessoas… não foi só uma vitória. Foi um confronto direto com tudo o que eu vivi.

Ver o Lorenzo, a Alessia e aqueles dois acionistas — os mesmos que já assistiram calados enquanto eu era agredida — sem esboçar reação nenhuma… ainda mexe comigo.

Eles estavam lá.

Sabiam.

Viram.

E escolheram não fazer nada.

Na época, eu estava destruída.

Afundada em uma depressão que parecia não ter fundo.

Eu tinha acabado de perder o meu bebê.

E, mesmo assim… aquilo não foi suficiente para despertar empatia em ninguém.

Quer saber o motivo de tudo ter começado?

Uma cinta modeladora.

Sim.

Foi isso.

O Lorenzo ficou irritado porque eu parei de usar.

Segundo ele, já que eu “não prestava nem para segurar uma criança no ventre”, eu deveria pelo menos tentar fazer com que meu corpo voltasse ao que era antes.

Eu perdi o meu bebê com sete meses.

Sete meses.

E aquilo foi o que ele teve a coragem de jogar na minha cara.

Naquele dia, algo dentro de mim reagiu.

Uma reação pequena, mas suficiente para me fazer avançar.

Eu tentei revidar o tapa que levei.

Não consegui.

A Alessia me puxou pelos cabelos.

Disse que estava defendendo o Lorenzo.

Que eu estava descontrolada.

Como se aquilo justificasse qualquer coisa.

Foi rápido.

Violento.

Cruel.

E, então, os dois acionistas — Pasquale e Dante — entraram na sala.

No exato momento em que o Lorenzo apertava o meu pescoço.

Ele aproveitou o fato de a minha cabeça estar inclinada para trás, presa pelo puxão de cabelo, e tentou me sufocar.

Sem hesitar.

Sem pensar.

E eles assistiram.

Parados.

Como espectadores.

Como se aquilo fosse apenas mais uma cena qualquer.

Eu sempre fui o tipo de pessoa que não tolera injustiça.

Sempre fui.

Então, ver aquilo… sem poder fazer nada…

Foi uma das partes mais difíceis.

Porque não era só dor.

Era abandono.

[...]

Quando entro no banco de trás do carro, com o Giuseppe dirigindo, tiro os sapatos e deixo tudo cair.

A postura.

A tensão.

A máscara.

Minha bolsa já está jogada ao meu lado.

Meu corpo se inclina.

Minha cabeça encosta no vidro frio.

Eu fecho os olhos.

O silêncio toma conta do carro.

Geralmente, eu e o Giuseppe conversamos durante o trajeto.

Hoje, não.

Hoje eu não tenho forças para nada.

Nem para falar.

Nem para pensar.

Só… existir já parece suficiente.

— Casa da signorina Giulianna? — ele pergunta.

Eu apenas assinto.

Ele entende.

Sempre entendeu.

[...]

A porta se abre.

— Fique sabendo que você vai ter que pagar uma extensão de unhas para mim — é a primeira coisa que a Giu diz. — Ruí todas por sua causa.

Eu rio.

Na hora.

Sem esforço.

É automático.

Ela tem esse efeito em mim.

— Por favor, me diz que você arrastou a cara da Alessia e do Lorenzo no asfalto — ela diz, me puxando para um abraço apertado.

— Não cheguei a tanto… — sorrio — mas você está falando com a nova CEO da Fascino.

Ela se afasta com os olhos brilhando.

— E qual foi a sua primeira decisão?

— Demiti a Barbie de Chernobyl.

— EU SABIA! — ela praticamente grita, já indo em direção à cozinha. — Espera… hoje merece comemoração de verdade.

Ela volta com uma garrafa que a gente costumava guardar para “momentos importantes”.

— Hoje nós podemos — diz, erguendo a garrafa.

Eu me jogo no sofá.

Cansada.

Mas leve.

— Queria ter demitido o Lorenzo também… — suspiro — mas, infelizmente, ele ainda é o segundo maior acionista.

— E a reação dele? — ela se senta ao meu lado, me entregando uma taça.

— Por fora? Frio. Controlado — dou um gole. — Mas eu sei que acertei.

E acertei onde mais dói.

— Eu tirei dele o poder dentro da empresa… — continuo, com um sorriso sutil — e ainda sentei na cadeira dele.

A Giu ri alto.

— Eu pagaria para ver isso.

— Você ia amar — balanço a cabeça. — O olhar dele… da Alessia… e dos outros acionistas…

Eu quase consigo ver de novo.

Quase consigo sentir.

— Ele vai surtar — ela diz, satisfeita.

— Vai tentar reagir — concordo. — Mas eu conheço o Lorenzo.

Muito bem.

— Eu sei exatamente onde apertar.

— E quando ele te viu… assim? — ela provoca, sorrindo.

Eu não consigo segurar o riso.

— Deve ter achado que eu fiz dieta só para provocar.

— Com aquele ego? Óbvio.

Nós rimos juntas.

Sem peso.

Sem tensão.

Só… riso.

E, por alguns instantes, tudo fica mais leve.

— Você é completamente maluca — ela diz, me encarando.

— Eu tive uma ótima professora — retruco.

Ela sorri.

E eu também.

Porque, no fim…

Nada disso teria sido possível sem ela.

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