Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia do meu aniversário de 22 anos, uma página de votação apareceu nas telas dos celulares da minha família. [Você aceita trocar Ana Soares por Bruna Soares para trazê-la de volta do mundo paralelo?] Meus pais votaram em "aceitar" sem a menor hesitação. Segundo eles, minha irmã mais velha faleceu em um acidente trágico, e foi apenas por causa dessa perda irreparável que eu acabei nascendo. Por essa lógica torta, eu devia a minha vida a ela. Por fim, a notificação pulou na tela do celular de Jorge Cunha. Ele era o meu namorado há cinco anos e, por ironia do destino, o garoto que a minha irmã havia salvado daquele mesmo acidente. "Bastava que ele dissesse um único 'não' para que eu encontrasse forças para continuar lutando", pensei, encarando o rosto dele. Contudo, após um longo silêncio, ele apenas murmurou: — É só um teste bobo de internet, Ana. Ela salvou a minha vida no passado, então o mínimo que posso fazer é retribuir a ajuda. No segundo seguinte, o dedo dele tocou em "aceitar". [Todos os votos foram computados com sucesso. A substituição de Ana Soares será concluída em cinco dias.] Minha mãe soltou um longo suspiro de alívio e afagou os meus cabelos. — Relaxa, minha filha. Quando a Bruna voltar, a mamãe promete lembrar de você com carinho. Olhei para os três, e de repente uma risada amarga escapou dos meus lábios. — Tudo bem... Só espero que a garota que vai voltar seja a filha perfeita que vocês tanto desejam.
Ler maisNo meu terceiro dia nesse mundo paralelo, a interface do aplicativo flutuava no ar diante dos meus olhos, trazendo um pedido de chamada da minha antiga família. O aviso luminoso exibia uma mensagem direta e insistente. [Mamãe, Papai e Jorge solicitam uma visita de retorno. Deseja aceitar a conexão?] Sentada perto da janela com o nosso novo gatinho laranja aninhado no colo, observei a luz do sol banhar as costas da minha mão. A pele ali parecia sólida e real, sem qualquer sinal de transparência ou daquele antigo relógio em contagem regressiva que tanto me assombrava no passado.Diana estava sentada ao meu lado, descascando uma maçã com todo o cuidado. Ao notar a notificação pairando no ar, ela fez uma breve pausa, a faca parada sobre a fruta, e me olhou com uma serenidade reconfortante.— A decisão é toda sua, Ana. — Disse ela, com a voz carregada de uma compreensão silenciosa, sem colocar qualquer peso sobre os meus ombros.Naquele momento, Sandro saiu da cozinha trazendo uma caneca
Já passava da meia-noite quando o pai por fim conseguiu acessar o portal do centro de estudos de universos paralelos. A mãe estava sentada na frente do computador, com os olhos vermelhos de dar medo de tanto chorar. Com as mãos trêmulas, ele digitou o meu nome no sistema: Ana Soares. A página ficou carregando por um tempo que pareceu uma eternidade, até que um aviso em letras vermelhas saltou na tela.[Vínculos familiares do mundo de origem cancelados. O sujeito substituído abriu mão do direito de arrependimento. Retorno impossível.]Em desespero, a mãe começou a atualizar a página sem parar, batendo os dedos no teclado com tanta força que o som ecoava pelo quarto. — Isso é mentira! Fui eu quem deu à luz aquela menina. Como assim o retorno é impossível? — Gritava ela para o monitor. O sistema do aplicativo, no entanto, exibia a mesma mensagem fria. [Ancoragem familiar rompida. A família de origem não possui permissão para solicitar o retorno.]O pai se virou de forma brusca na direç
Eles por fim perceberam que a garota que haviam trazido de volta não era a Bruna dos seus sonhos. Ela se recusava a vestir vestidos brancos para tirar fotos, não abria um sorriso sequer diante de um bolo de aniversário, não ficava grudada no Jorge e, muito menos, comia a comida que eles preparavam com tanta expectativa. Qualquer abraço inesperado a deixava apavorada, e o cheiro de perfume lhe causava grande irritação. As cortinas da casa nunca podiam ser abertas por inteiro, e o volume da televisão precisava ficar sempre abaixo do nível vinte.No início, a mãe ainda tentava ter paciência, buscando acalmá-la com palavras doces. — Bruna, meu amor, a mamãe sabe que você sofreu muito naquele outro lugar, mas você precisa tentar se adaptar aos poucos. — Dizia ela, buscando uma aproximação.Bruna, no entanto, apenas cobria os ouvidos com as mãos e afundava o rosto na almofada do sofá. — Eu sempre fui desse jeito, vocês é que nunca tentaram se adaptar a mim. — Respondeu ela, com a voz abafa
No terceiro dia após o retorno de Bruna, a estrutura da família Soares já estava desmoronando sob a tensão. Ela se recusava a dormir na minha antiga cama, argumentando que o cheiro de amaciante era insuportável, que os lençóis cor-de-rosa ofuscavam a sua visão e que a luz do teto era agressiva demais. No entanto, quando a mãe desligava o interruptor, Bruna entrava em crise, abraçando os próprios joelhos enquanto tremia na escuridão.Exausto daquela dinâmica imprevisível, o pai acendeu as luzes da sala num gesto brusco de irritação.— Afinal de contas, o que é que você quer que a gente faça? — Esbravejou ele, perdendo a paciência.Bruna se encolheu ainda mais contra o canto da parede, a respiração acelerando em golpes curtos e desesperados.— Não grite comigo, por favor, isso faz os meus ouvidos doerem! — Suplicou ela, tapando as orelhas.As lágrimas de frustração começaram a escorrer pelo rosto da mãe.— Bruna, trouxemos você de volta para casa para cuidarmos de você, e não para você f
Último capítulo