Minha Família Me Trocou Pela Minha Irmã

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Cianne  concluído
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Índice

No dia do meu aniversário de 22 anos, uma página de votação apareceu nas telas dos celulares da minha família. [Você aceita trocar Ana Soares por Bruna Soares para trazê-la de volta do mundo paralelo?] Meus pais votaram em "aceitar" sem a menor hesitação. Segundo eles, minha irmã mais velha faleceu em um acidente trágico, e foi apenas por causa dessa perda irreparável que eu acabei nascendo. Por essa lógica torta, eu devia a minha vida a ela. Por fim, a notificação pulou na tela do celular de Jorge Cunha. Ele era o meu namorado há cinco anos e, por ironia do destino, o garoto que a minha irmã havia salvado daquele mesmo acidente. "Bastava que ele dissesse um único 'não' para que eu encontrasse forças para continuar lutando", pensei, encarando o rosto dele. Contudo, após um longo silêncio, ele apenas murmurou: — É só um teste bobo de internet, Ana. Ela salvou a minha vida no passado, então o mínimo que posso fazer é retribuir a ajuda. No segundo seguinte, o dedo dele tocou em "aceitar". [Todos os votos foram computados com sucesso. A substituição de Ana Soares será concluída em cinco dias.] Minha mãe soltou um longo suspiro de alívio e afagou os meus cabelos. — Relaxa, minha filha. Quando a Bruna voltar, a mamãe promete lembrar de você com carinho. Olhei para os três, e de repente uma risada amarga escapou dos meus lábios. — Tudo bem... Só espero que a garota que vai voltar seja a filha perfeita que vocês tanto desejam.

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Capítulo 1

Capítulo 1

Minha mãe, no entanto, precisou se apoiar na borda da mesa para não cair, soltando o ar que parecia prender nos pulmões.

— Graças a Deus... — Ela suspirou, com os olhos vermelhos e marejados de choro, ostentando um sorriso que iluminava o seu rosto de orelha a orelha. — A nossa Bruna vai enfim poder voltar para casa.

Meu pai abraçou os ombros dela, a voz embargada pela emoção do momento.

— Esperamos tanto tempo por esse dia, meu amor.

As velas do meu bolo de aniversário continuavam acesas, derretendo sobre o glacê, esquecidas por todos. Fiquei paralisada no mesmo lugar, sentindo um zumbido ensurdecedor tomar conta dos meus ouvidos enquanto a minha realidade desabava.

— Esperaram tanto tempo? — Perguntei, sentindo a garganta fechar. — Desde quando, para ser exata?

Ela ergueu a cabeça para me encarar, e um brilho de hesitação cruzou o seu olhar por uma fração de segundo.

— Desde os seus seis anos de idade, eu acho. Foi nessa época que você começou a ficar cada vez menos parecida com ela.

Engoli em seco no puro reflexo do choque, mas a saliva desceu pelo caminho errado e um engasgo violento tomou conta de mim. Dobrei o corpo para a frente, tossindo até as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, buscando ar em puro desespero. Ninguém moveu um músculo para me ajudar, nenhum dos três sequer me dirigiu o olhar.

Desde os meus seis anos, minha mãe fazia questão de repetir que eu não lembrava em nada a minha irmã. Ela revirava as gavetas, tirava os vestidos brancos que pertenceram à Bruna e me obrigava a vesti-los. As roupas sempre ficavam curtas, a gola apertava o meu pescoço a ponto de me sufocar, e as costuras das mangas prendiam a circulação dos meus braços. Nessas horas, ela franzia a testa e me observava com uma expressão de desgosto indisfarçável.

— A Bruna não ficava desse jeito quando usava essa roupa. — Ela resmungava, insatisfeita.

A rotina de tortura piorava quando ela colocava as fitas de vídeo caseiras para rodar. Minha mãe me fazia assistir às gravações antigas da minha irmã dezenas de vezes, pausando a imagem no meio da tela para apontar cada detalhe minúsculo.

— Olha bem, Ana. A Bruna nunca mostrava os dentes quando sorria. Ela segurava a caneta com essa inclinação. A voz da Bruna era doce e suave, não espalhafatosa como a sua.

E assim, eu passava os meus dias imitando uma garota morta. Aprendi a reproduzir o penteado das fotos de olhos fechados. Decorei os trejeitos, as pausas na fala e o tom de voz dos vídeos com mais afinco do que as matérias da escola.

"Se eu me esforçar para ser um pouquinho mais parecida com ela, talvez os meus pais me deem um pingo de amor", eu pensava todas as noites.

Porém, não importava o tamanho do meu esforço, o resultado era sempre um balançar de cabeça repleto de decepção.

— Ainda não está bom, você não chega nem aos pés dela.

Lembro de uma tarde em que vesti aquele vestido branco apertado, abaixei a cabeça no ângulo exato que a Bruna fazia e chamei por ela. Minha mãe me encarou em um silêncio pesado, até que as lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto.

— Pode parar com esse teatro, Ana. Por mais que você tente imitar, você nunca será a Bruna.

Naquela noite, me tranquei no quarto e chorei escondida debaixo das cobertas até o amanhecer. No dia seguinte, no entanto, levantei com o rosto inchado e voltei a ensaiar as gravações da Bruna do início ao fim.

Quem me tirou desse ciclo doentio foi o Jorge. Durante o ensino médio, ele me flagrou no corredor da escola memorizando os diários antigos da minha irmã. Num impulso de raiva, ele arrancou o caderno das minhas mãos e o atirou direto na lixeira.

— Você não é a sombra de ninguém, Ana! Você tem a sua própria vida! — Ele esbravejou na época.

Foi aquela única frase que me deu forças para continuar respirando por todos esses anos. Por causa dessa lembrança, quando a notificação bizarra pulou na tela do celular dele mais cedo, eu ainda nutria a esperança patética de que ele fosse me escolher. Mas o clique no botão "aceitar" destruiu tudo.

Voltei a olhar para ele, buscando qualquer traço daquele garoto que um dia me defendeu.

— Jorge, você também acha que eu devo sumir para que ela volte?

Ele engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo com força, e desviou os olhos dos meus.

— Não leva isso tão a sério, Ana. É só um teste de internet, as chances de isso dar certo são nulas.

A ponta da minha língua formigou, o gosto da traição amargando na boca.

— E quando você apertou aquele botão confirmando a troca... — A minha voz embargou. — Você pensou em mim por um segundo sequer?

O rosto dele se contorceu em uma expressão de impaciência.

— Dá para parar de fazer drama com esse tom de voz? A sua mãe já sofreu o suficiente. Ela só sente saudades da filha, tenta entender o lado dela.

Antes que eu pudesse responder, vi meu pai remexendo na minha bolsa. Em um movimento rápido, ele puxou o meu documento de identidade lá de dentro. Avancei para tentar impedir, mas ele me empurrou para longe com uma força brusca.

— A Bruna vai precisar de documentos quando chegar. — Ele disse com frieza, guardando o meu documento no bolso da calça.

Encarei o fundo dos olhos dele, sentindo o peito arder.

— E o que vai acontecer comigo? Como eu fico sem os meus documentos?

Meu pai virou as costas e trancou a gaveta do armário, o tom de voz exalando irritação.

— Vocês são irmãs de sangue, Ana. Não tem necessidade de ficar dividindo o que é de quem.

Sem forças para continuar aquela discussão inútil, me arrastei até o meu quarto. Abri a gaveta da escrivaninha e peguei o meu diploma da faculdade. Assim que a ponta dos meus dedos tocou o papel, as letras pretas do meu nome começaram a borrar, como se a tinta estivesse se dissolvendo na água.

Diante dos meus olhos, os traços de "Ana Soares" foram sumindo, apagando o meu passado, enquanto o nome "Bruna Soares" surgia impresso com nitidez no lugar. A foto de rosto no canto do documento foi coberta por uma névoa espessa, desfazendo os meus traços até sobrar apenas uma silhueta irreconhecível.

Fiquei vidrada naqueles caracteres, o choque travando até o simples ato de piscar. Apenas quando a vista ardeu de tanta secura, fechei as pálpebras com força. O choro reprimido encontrou passagem, descendo quente e silencioso pelas minhas bochechas.

O ranger da porta quebrou o silêncio do quarto. Minha mãe entrou e, ao bater os olhos no diploma modificado, um brilho de puro encanto iluminou o rosto dela.

— A nossa Bruna partiu tão cedo, não teve a chance de crescer e se formar... — Ela sussurrou, maravilhada. — Pelo menos agora essa injustiça foi corrigida.

Com o rosto encharcado de lágrimas, ergui a cabeça para encará-la, o desespero rasgando a minha voz.

— Mãe, e se essa troca for real? E se eu acabar morrendo para ela poder voltar?

Os dedos dela apertaram o batente da porta com força, e o som das unhas arranhando a madeira ecoou pelo cômodo. Ela evitou o meu olhar por um longo momento, apertando os lábios.

— Pare de dizer essas bobagens de mau agouro. Vai atrair coisa ruim. — Repreendeu ela, ríspida, antes de fechar a porta e ir embora.

Deixada na mais pura solidão, deslizei as costas pela parede até atingir o chão frio. Abracei os joelhos contra o peito e afundei o rosto entre eles para sufocar os soluços que rasgavam a minha garganta.

Peguei o celular largado na beirada da cama. No grupo da família no aplicativo de mensagens, minha mãe tinha acabado de atualizar o meu apelido.

Onde antes se lia "Ana", agora estava escrito em letras garrafais, "Receptáculo da Bruna".

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