Passei a noite inteira atormentada por pesadelos. Quando acordei, estendi a mão para a beirada da cama pelo puro hábito de abraçar o meu gatinho, mas encontrei apenas o vazio lençol amassado.
Um aperto gelado tomou conta do meu peito, fazendo-me jogar as cobertas longe e pular da cama num pulo só. Rastejei pelo chão procurando debaixo dos móveis, vasculhei a varanda, o guarda-roupa e até o espaço atrás do sofá. Nada.
Até que, ao lado da lixeira da porta de entrada, encontrei o pequeno sino da coleira dele com alguns pelos alaranjados presos no metal.
Agachei para pegar o objeto e senti o mundo girar ao me colocar de pé. Minha mãe saiu da cozinha segurando uma espátula, exibindo uma expressão impassível.
— Pare de procurar, o gato já foi doado. — Declarou ela, em tom indiferente. — A Bruna tem alergia a pelos. Como ela está prestes a voltar para casa, não podemos manter esse tipo de bicho por aqui.
Apertei o sino contra a palma da mão com tanta força que o metal cravou na minha pele, deixando uma marca funda. Tentei falar alguma coisa, mas a voz que saiu da minha garganta tremia além do meu controle.
— Ele estava comigo há sete anos. Ele é tão medroso e arisco, vai morrer de medo em um lugar estranho... — Supliquei, deixando o choro embargar as últimas palavras.
Minha mãe, por sua vez, apenas franziu a testa em desaprovação.
— A sua irmã também sente medo, Ana. Será que você consegue parar de pensar apenas no seu próprio umbigo por um minuto?
O ar pareceu sumir dos meus pulmões. Comecei a ofegar em busca de oxigênio, encostando-me na parede de olhos fechados até a tontura passar. Assim que a escuridão abandonou a minha visão, disparei em direção à rua.
— Ana, volte aqui!
Escutei a minha mãe gritar às minhas costas.
Eu não olhei para trás. Interroguei o porteiro, bati na porta dos vizinhos, rolei as conversas do grupo de moradores e implorei para ver as câmeras de segurança da portaria. O vigia comentou que havia visto alguém levando um gato laranja para fora logo no início da manhã.
Quando alcancei o portão dos fundos do condomínio, minhas pernas já não me obedeciam e o suor escorria gelado pelas costas. Revirei cada lixeira da calçada e vasculhei o meio de todos os arbustos, mas o meu pequeno companheiro havia sumido sem deixar nenhum rastro.
No início da noite, uma notificação apitou no grupo de moradores.
[Tem um gato laranja aqui debaixo do toldo do portão dos fundos, de quem é?]
Meu corpo inteiro estremeceu ao carregar a foto no celular. Era o meu gatinho. Ele estava encolhido ao lado de uma caixa de papelão, com os pelos ensopados pela chuva, mas mantinha o olhar fixo na entrada do nosso prédio, aguardando.
Agarrei meu casaco num impulso e corri em direção à saída, mas fui bloqueada pela minha mãe.
— Você ainda pretende trazer aquele bicho imundo para dentro de casa? — Repreendeu ela, ríspida.
Meu pai surgiu do escritório feito um furacão, esbravejando:
— Como você pode ser tão perversa, Ana? A sua irmã nem voltou direito e você já está conspirando contra ela!
Ele ergueu a mão para me bater. Eu não recuei. Naquele milésimo de segundo, cheguei a desejar que o tapa acertasse em cheio.
"É melhor sentir a dor física rasgando o rosto do que suportar esse sufoco invisível no peito", concluí.
Mas a minha mãe se jogou na frente dele para segurar o golpe, advertindo em tom de pânico:
— Não bate nela! E se machucar o rosto? O que vamos fazer quando a Bruna voltar?
A mão do meu pai parou no ar. Fiquei encarando o pulso dele sendo agarrado, enquanto um gosto amargo e enferrujado de sangue subia à minha boca.
"Pelo visto, nem mesmo esse rosto me pertence mais", pensei.
Continuei me debatendo com todas as forças enquanto os dois me empurravam para dentro do quarto. Meu pai arrancou meus dedos do batente e a minha mãe bloqueou a passagem com o próprio corpo, batendo a porta na minha cara logo em seguida. Atirei-me contra a maçaneta, forçando o trinco de um lado para o outro, mas estava trancado.
O celular vibrou de novo no meio da madrugada com uma nova mensagem no grupo. Outro morador enviou uma foto. O gatinho estava estirado no asfalto molhado, com uma poça de água tingida de vermelho se espalhando ao redor do corpo.
[Acabou de ser atropelado por um carro, já estava sem vida quando encontramos. Ele não parava de olhar para o portão do prédio, a gente tentava espantar, mas ele não ia embora de jeito nenhum. Parecia estar esperando alguém.]
Fixei o olhar naquela imagem trágica, tentando berrar o nome dele a plenos pulmões. No entanto, parecia que alguém havia aberto um buraco no meu peito, sugando toda a minha capacidade de emitir sons. Abri a boca em um grito mudo enquanto as lágrimas desabavam pelo meu rosto. O único barulho que consegui fazer foi um soluço fraco e estrangulado.
Fechei as mãos com tanta violência que as unhas rasgaram a pele, mas a dor física era quase imperceptível. Só percebi que as bordas de metal do sino haviam cortado a palma da minha mão quando o sangue quente escorreu por entre os meus dedos e pingou no chão. Encolhi-me no piso gelado, chorando até perder o ar, o corpo tremendo em uma agonia absoluta.
Sete anos. Ele ficou do meu lado durante sete longos anos. Quando o mundo inteiro me virou as costas para correr atrás da minha irmã, era apenas ele quem ficava sentado perto da porta, esperando eu voltar para casa. E agora... até ele foi descartado como se fosse lixo. E ele morreu me esperando.
O guizo da coleira emitiu um som quase imperceptível dentro da minha mão ensanguentada. De repente, a tela do celular acendeu na escuridão do quarto, projetando uma luz pálida no meu rosto.
[Deseja utilizar sua última chance de arrependimento e cancelar o processo de substituição?]
Fiquei olhando para a foto dos pelos encharcados do meu único amigo por um longo tempo. Por fim, apertei a opção negativa.
[Processo de substituição em andamento.]