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Quatro Pais, Nenhum Lar

Quatro Pais, Nenhum LarPT

Cuento corto · Cuentos Cortos
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Resumen
Índice

Minha mãe nunca pertenceu a este mundo. Ela chegou aqui com um Sistema e uma missão: conquistar quatro homens. Quando concluiu a tarefa, partiu e me deixou aos cuidados deles. Dante Pinto comandava um império financeiro. Rogério Mendes era um astro conhecido em todo o país. Zé Pereira, um gênio da medicina. E Nuno Silva tinha poder para fazer qualquer porta se abrir. Durante dezesseis anos, fui a filha mais amada do mundo. Papai Dante, papai Rogério, papai Zé e papai Nuno me deram tudo. Se eu pedisse uma estrela, eles teriam arrancado uma do céu. Então Eva voltou. Ela era filha da mulher que os quatro jamais haviam esquecido. E dezesseis anos de amor não resistiram a uma única palavra dela. Eva disse que eu a havia chamado de imunda. Eles me fizeram comer ração e dormir no canil. Disse que eu a perseguia na escola. Cancelaram minha matrícula e trouxeram três delinquentes para me espancar durante meses. Quando afirmou que eu a havia empurrado, ninguém quis ouvir minha versão. Apenas abriram uma jaula, me trancaram lá dentro e me deixaram sem comida por três dias e três noites, para que eu aprendesse a obedecer. Aos poucos, a fome levou minhas forças, minha voz e até a esperança de que algum deles viesse me buscar. Mas os quatro homens que juraram nunca me abandonar não apareceram. Quem voltou foi a única pessoa que já havia partido. — Isa, você quer voltar para a mamãe?

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Capítulo 1

Capítulo 1

Despertei de vez.

A voz não era da minha mãe. Era do Sistema.

Antes de partir, mamãe deixou uma escolha para mim: se eu quisesse, poderia abandonar aquele mundo e ir para o dela.

É claro que eu queria.

A resposta chegou à ponta da língua, mas eu a engoli.

— Minha vida ao lado dela seria mesmo melhor do que esta? Se ela me amava, por que não me levou junto?

O Sistema me contou, então, a verdade.

Mamãe aceitou aquela missão porque minha avó estava gravemente doente. Ela precisava salvá-la. Foi por isso que veio parar naquele mundo.

Na realidade dela, Alisa era apenas uma estudante no segundo ano da faculdade. O tratamento consumiu todas as economias da família e ainda deixou uma pilha de dívidas.

Na época, meus quatro pais fizeram uma promessa. Não importava qual deles fosse meu pai biológico: todos me criariam como filha de sangue.

Quem ama um filho não pensa apenas no agora.

Mamãe sabia que, ao lado dela, eu enfrentaria uma vida difícil. Não queria me arrastar para aquela pobreza. Por isso, me deixou ali.

— Isa. — A voz do Sistema me envolveu com a delicadeza de um carinho. — Sua mãe esperou por você todos esses anos. Não namorou, não se casou. Comprou uma casinha e continuou esperando. Você quer ir até ela?

Assenti.

O alívio atravessou a voz do Sistema. Ele me explicou que bastava este corpo morrer para que eu encontrasse mamãe.

Tirei a roupa do corpo e amarrei o tecido nas grades da jaula.

Vi na TV que era simples, bastava passar a cabeça pelo laço e deixar o peso do corpo cair.

Ainda bem que a jaula era grande. E eu, baixa o bastante.

Assim que enfiei a cabeça, o tecido apertou meu pescoço. O ar sumiu depressa. Minha consciência começou a se apagar.

Mesmo assim, sorri.

Eu ia ver mamãe.

Finalmente.

Só que a felicidade não durou nem alguns segundos.

Alguém gritou meu nome.

A porta da jaula se abriu. E me tiraram de lá.

Quando o ar voltou aos meus pulmões, ergui os olhos e encontrei um par de olhos tomado pelo pânico.

— Papai Dante.

O chamado escapou por puro instinto.

E me arrependi no mesmo instante.

Ao me ouvir, Dante Pinto perdeu o susto no olhar. No lugar dele, surgiu uma repulsa gelada.

— Não me chame assim. Você não merece! — Cortou ele, com desprezo.

Dante era o magnata entre meus quatro pais.

E, de todos eles, sempre foi quem mais me mimou.

Muita gente acreditava que ele era meu pai biológico, porque nossos olhos se pareciam demais.

Durante anos, morei na mansão dele. Bastava eu desejar alguma coisa, e papai Dante fazia questão de colocá-la nas minhas mãos.

Ele mesmo prometeu que, se eu quisesse uma estrela, encontraria um jeito de arrancá-la do céu para mim.

Mas todo aquele amor acabou três anos atrás.

Foi quando papai Dante trouxe Eva do exterior.

Só então descobri que, antes da minha mãe, os quatro amaram outra mulher. Uma mulher que nenhum deles conseguiu esquecer.

No passado, ela os traiu em troca de uma fortuna e fugiu do país.

Mamãe surgiu depois daquela traição e os salvou, ajudando os quatro a se reerguer, pouco a pouco.

Anos mais tarde, já à beira da morte no exterior, aquela mulher ligou para papai Dante. Pediu perdão e implorou para que ele acolhesse Eva.

Meus quatro pais disseram que ela era um pouco mais nova do que eu e exigiram que convivêssemos em paz.

No começo, foi exatamente o que fiz. Eu a tratei como uma irmã.

Mas, desde o começo, Eva deixou claro que queria todo o amor deles só para si.

Feridas surgiam pelo corpo dela sem explicação, e ela jurava que eu a agredi.

Às vezes, rolava escada abaixo e apontava para mim.

Quanto mais acusações inventava, mais meus pais se decepcionavam comigo.

Até o dia em que mais de dez delinquentes cercaram Eva num beco e a "violentaram".

Quando os homens foram capturados, todos afirmaram que agiram a mando meu.

Não importava o que eu dissesse. Ninguém acreditava.

Naquele dia, virei a criminosa da família.

Meus quatro pais me proibiram de chamá-los de pai. Saí do quarto digno de uma princesa e fui parar numa jaula de cachorro.

Os empregados me chamavam de assassina.

Apanhar, ouvir insultos e passar fome virou rotina.

A lembrança me fez baixar a cabeça às pressas.

— Me desculpe, pa... Sr. Dante.

Nem assim Dante me poupou.

— O que você pensa que está fazendo, Isadora? Vai fingir que quer se matar só para chamar nossa atenção? — Atacou ele, sem esconder o desprezo. — Além de tudo, você é burra. Escolheu logo este lugar para encenar seu teatrinho. Aqui fede tanto que, mesmo se seu corpo apodrecer, ninguém vai perceber.

Então era isso. Para ele, eu só estava fingindo.

Não tentei me defender. Apenas o encarei, confusa.

— Sr. Dante, por que veio até aqui? Você não odeia sujeira?

Dante franziu a testa.

— Esta casa é minha. Vou aonde eu bem entender. Só vim avisar uma coisa. Hoje é aniversário da Eva. Não arrume confusão. E, acima de tudo, não morra aqui.

Assenti, obediente.

Então foi por isso que me salvou. Não queria que minha morte, dentro da mansão, estragasse o aniversário de Eva.

Tudo bem.

Eu morreria em outro lugar.

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