Capítulo 4
Depois de clicar em "Não" no aplicativo, uma calmaria inesperada tomou conta do meu corpo. Fiquei ali, escorada na porta do quarto em total silêncio, apenas escutando a movimentação da casa.

Do outro lado, na sala de estar, ouvi a voz abafada da minha mãe.

— Mas por que ainda falta um dia inteiro? — Indagou ela, impaciente.

— Já está indo bem rápido, querida. — Ponderou meu pai, tentando acalmá-la.

Ouvi um suspiro pesado escapar dos lábios dela antes de murmurar:

— Para mim, parece uma eternidade. Só de pensar que a Bruna precisa esperar mais um minuto naquele lugar, meu coração já se aperta de tanta dor.

Ouvindo aquelas palavras, percebi algo inusitado.

"É estranho, mas eu não sinto mais nem um pingo de tristeza. É como se aquela pedra pesada que sempre esmagou o meu peito tivesse finalmente se desfeito." pensei comigo mesma.

Sem derramar uma única lágrima, comecei a fazer uma contagem regressiva na minha cabeça, guiada por uma frieza que eu nem sabia que possuía.

Pouco tempo depois, minha mãe veio até mim segurando um catálogo de bolos de confeitaria.

— Filha, me ajuda a escolher um bolo para a sua irmã? — Pediu ela, estendendo as páginas na minha direção.

Sem hesitar, apontei para um modelo delicado, todo enfeitado com bordas de glacê branco. Satisfeita, ela me entregou uma caixinha cheia de velas coloridas, sugerindo que eu também fizesse essa escolha. Com as mãos firmes, tirei as velas da embalagem, contei exatamente oito unidades e as enfileirei com perfeição sobre a mesa.

Minha mãe paralisou no mesmo instante, afinal, a minha irmã mais velha havia falecido aos oito anos de idade. Vi seus olhos marejarem enquanto ela me lançava um olhar carregado de um incômodo indecifrável.

— Isso é para a minha despedida ou para dar as boas-vindas a ela? — Questionei, com a voz desprovida de qualquer emoção.

Ela desviou o rosto o mais rápido que pôde, mas não conseguiu disfarçar o leve tremor em seus dedos.

— Não diga uma bobagem dessas, Ana. — Repreendeu ela, com a voz embargada.

Quando a tarde caiu, meu pai deu início à limpeza do meu quarto. Meus diários, meus cards de coleção e até os diplomas que conquistei na escola foram jogados sem piedade dentro de sacos de lixo pretos. Enquanto isso, minha mãe trocava os meus lençóis por roupas de cama num tom rosa claro, justificando que aquela era a cor favorita da Bruna. Minha escrivaninha foi arrastada para o corredor e, em seu lugar, instalaram o antigo cavalete de pintura que pertencia à minha irmã.

A poeira que subiu no ar invadiu minhas narinas, provocando uma crise de tosse que fez meu peito doer de verdade. Minha mãe virou o rosto para me olhar.

— Sai de perto para não inalar essa sujeira. — Avisou ela, fazendo uma breve pausa antes de acrescentar o que de fato importava. — Não vá ficar doente agora e estragar tudo.

Tentei resgatar um dos meus diários de dentro do lixo, mas ela segurou a minha mão antes que eu pudesse puxá-lo.

— É melhor não guardar nada disso, Ana. Se a sua irmã voltar e vir essas coisas por aqui, ela pode se sentir mal.

Soltei o caderno sem protestar, ouvindo apenas o som rasgado do adesivo da capa se prendendo na borda de plástico do saco.

Ao anoitecer, Jorge apareceu na minha casa segurando um bloco de notas.

— Ana, você se importa de escrever algumas coisas sobre mim aqui? — Pediu ele, com a voz rouca, evitando me encarar de frente. — Tipo... que eu tenho problema de estômago e não posso tomar nada muito gelado. Ou que eu detesto quando mexem nas minhas coisas e no meu computador.

Senti minha garganta secar de forma insuportável.

— Você quer que ela aprenda a lidar com você lendo um manual? Quer que ela assuma o meu lugar e te ame por mim? — Retruquei, sentindo o gosto amargo daquela conversa.

Os olhos de Jorge ficaram vermelhos, denunciando a sua própria confusão interna.

— Eu só não quero que ela se sinta deslocada, Ana. É só isso.

Peguei a caneta das mãos dele e escrevi cada detalhe que ele ditou, palavra por palavra. No fundo, encarei a situação com total apatia.

"Por incrível que pareça, o meu coração já não abriga a menor faísca de ressentimento por ele, apenas um vazio absoluto." concluí em silêncio.

Pouco tempo depois, foi a vez do meu pai vir me cobrar os cartões do banco.

— Quanto você ainda tem guardado aí na sua conta? — Indagou ele, direto ao ponto.

Minha mãe se aproximou, sussurrando como se quisesse suavizar o golpe:

— É que quando a Bruna voltar, vamos ter que comprar roupas novas, pagar documentação... As despesas vão ser bem altas e a gente precisa se preparar.

Todo o dinheiro que eu tinha vinha do meu próprio suor: os bicos que fiz, a bolsa de estudos da faculdade e as economias do meu custo de vida. Mesmo assim, não pensei duas vezes. Fiz uma transferência de todo o valor direto para a conta dela e fechei a tela do banco assim que o comprovante surgiu. Ao ver a notificação de depósito no próprio celular, o olhar duro da minha mãe amoleceu por um breve segundo.

— Você cresceu mesmo, Ana. Se tornou uma garota muito madura. — Elogiou ela, num tom quase afetuoso.

Quando restavam apenas duas horas para o fim do prazo, meus pais me forçaram a gravar um vídeo. Meu pai me entregou um papel com o texto pronto para leitura. O recado exigia que eu dissesse: "Meu nome é Ana. Aceito a substituição por livre e espontânea vontade, sem sofrer qualquer tipo de coerção. Peço que não culpem a minha família por nada. Bruna, seja bem-vinda de volta ao lar."

Minha mãe ergueu o celular para focar no meu rosto, dando as instruções finais.

— Dá um sorriso, filha. Ninguém pode achar que tem alguma coisa errada acontecendo aqui.

Jorge observava tudo a poucos passos de distância. Vi seu pomo de adão subir e descer enquanto ele tentava, em vão, intervir.

— Dona Helena, será que a gente não podia...

Mas minha mãe o cortou sem dó, com as lágrimas já escorrendo pelo rosto.

— E se as pessoas começarem a perguntar para onde a Ana foi? O que a gente vai falar para os vizinhos? Você quer que a Bruna seja crucificada por todo mundo assim que colocar os pés dentro de casa?

Diante daquele apelo egoísta, Jorge baixou a cabeça e se calou de novo.

Fixei o olhar na lente do celular e forcei um sorriso tão falso que os músculos do meu rosto chegaram a formigar de dor.

— Meu nome é Ana. Aceito a substituição por livre e espontânea vontade. Peço que não culpem a minha família. — Fiz uma pausa proposital antes de concluir com as minhas próprias palavras. — Bruna, seja muito bem-vinda de volta. Mas, quanto a mim, eu não quero mais fazer parte desta família.

O rosto da minha mãe perdeu a cor na hora.

— Apaga isso agora! Vamos gravar tudo de novo! — Gritou ela, indignada.

Porém, antes que alguém pudesse fazer algo, o aplicativo no celular brilhou sozinho, exibindo uma mensagem inesperada vinda do outro lado.

[Não... não obriguem ela a gravar isso. Mãe, eu não quero voltar para casa desse jeito.]

Um silêncio mortal tomou conta da sala de estar. Segundos depois, uma segunda frase surgiu devagar na tela iluminada.

[Vocês ainda se lembram de quem eu sou de verdade?]

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