Na manhã seguinte, a mesa de jantar amanheceu farta. O vapor subia em ondas densas, embaçando a minha visão e me deixando um pouco tonta.
Eu era alérgica a frutos do mar e detestava coentro, algo que minha mãe sabia perfeitamente bem. Ainda assim, ela desfiou a carne de caranguejo com todo o cuidado, colocando-a em uma pequena tigela rosa.
— A Bruna ama caranguejo, e não pode faltar coentro, senão ela acha a comida sem graça. — Comentou ela, justificando-se sem que eu perguntasse nada. — Preciso treinar os pratos favoritos dela para quando voltar, não quero que estranhe o tempero de casa.
Fiquei ali sentada por um longo tempo, segurando os talheres com força. Depois de hesitar, abaixei a cabeça e dei uma garfada rápida no arroz, engolindo em seco o nó de emoções que se formava na minha garganta. O aperto no peito doía, e precisei respirar fundo várias vezes para estabilizar a voz e evitar que o tom de choro transparecesse.
— Mãe, você se lembra de que sou alérgica a frutos do mar? — Perguntei em um sussurro, mantendo os olhos fixos no prato, sem coragem de encarar seu rosto.
A mão dela parou no ar enquanto servia a comida.
— Pelo amor de Deus, Ana, a esta altura do campeonato você ainda vai criar caso por causa disso? Quando a Bruna voltar, todos teremos que fazer adaptações, então que mal faz você pular uma refeição?
Concordei com a cabeça em silêncio, deixei os talheres sobre a mesa e levantei para me trancar no quarto.
Jorge apareceu durante a tarde. Ele notou a palidez extrema dos meus lábios e franziu a testa por uma fração de segundo. Eu apertava a barra da blusa com os dedos, observando o rosto dele por um bom tempo antes de deixar escapar um murmúrio quase inaudível.
— Jorge, você poderia ir à praia comigo pelo menos uma vez? Eu sempre quis ir, e de qualquer forma, meus dias estão contados.
Ele parou, surpreso. Por um instante, tive a ilusão de que o meu pedido seria aceito.
"Afinal, era só ele dizer que sim", pensei.
Mas a realidade veio como um balde de água fria.
— É melhor você não sair de casa nos próximos dias. — Respondeu ele, em tom grave. — Se acontecer algum problema com o processo de substituição, a sua mãe não vai aguentar o baque.
Dei um sorriso amargo, zombando da minha própria ingenuidade.
— Você tem tanto medo assim de que ela não volte?
O rosto de Jorge se contorceu em irritação.
— Não fale desse jeito, Ana. Estou apenas preocupado com você.
Ergui a cabeça, piscando rápido para conter as lágrimas que ameaçavam cair. Forcei um sorriso ainda mais largo, que chegou a rasgar os cantos da minha boca, causando uma dor física aguda.
— Preocupado comigo? Tão preocupado que não hesitou em apertar aquele botão de confirmação e me mandar direto para a morte?
Ele abaixou o olhar, evitando me encarar, e manteve os lábios cerrados sem pronunciar uma única palavra de defesa. Naquele momento, percebi que não havia sentido em continuar discutindo.
Dei as costas para ele, voltei ao meu quarto e, com as mãos trêmulas, abri o tal aplicativo no celular. Tentei usar a senha padrão da minha mãe e, para o meu desespero, o sistema liberou o acesso na primeira tentativa. Lá estavam os meus exames médicos, as minhas horas de sono, os meus relatórios de oscilação de humor.
"Eles já estavam planejando isso há muito tempo", pensei. Meu estômago revirou de forma tão agressiva que precisei me apoiar na mesa enquanto um gosto metálico subia pela garganta.
Bem no final da tela, notei um arquivo de áudio destacado em vermelho. Toquei no ícone com a ponta dos dedos trêmulos e ouvi uma voz feminina, fraca e entrecortada, ecoar pelo ambiente.
— Não escolha a minha irmã... Mãe, eu não quero que ela morra no meu lugar. Ela também é sua filha.
Saí do quarto correndo feito louca, tropeçando nos próprios pés, até enfiar a tela do celular bem diante do rosto da minha mãe.
— Mãe, escuta isso! — Gritei em desespero. — É a voz da minha irmã!
Assim que ouviu a primeira palavra, a colher que a minha mãe segurava escorregou e caiu no chão com um estrondo.
— Bruna... — Sussurrou ela, atônita.
No entanto, à medida que o áudio chegava ao fim, a comoção no rosto dela congelou, dando lugar a uma fúria cega. O tapa veio no segundo seguinte, tão forte que virou o meu rosto de lado, deixando meus ouvidos zumbindo e a bochecha ardendo em brasa.
— Você tem coragem de falsificar a voz da sua própria irmã só para impedir que ela volte, Ana? — Berrou ela, transbordando raiva.
Meu pai arrancou o celular da minha mão e apagou a gravação sem hesitar.
— A sua irmã já morreu uma vez, você quer matar ela de novo? — Esbravejou ele.
Virei o rosto entorpecido na direção de Jorge, buscando qualquer traço de humanidade.
— Você ouviu, não ouviu? A Bruna mesma disse que não queria isso. — Empurrei a tela do celular contra o peito de Jorge, mostrando a opção de cancelamento. — Cancela o processo. Se você cancelar agora, eu ainda tenho uma chance de viver.
O dedo de Jorge pairou sobre a tela por uma eternidade. Antes que ele tomasse qualquer decisão, minha mãe se atirou de joelhos no chão, agarrando a barra da camisa dele aos prantos.
— Eu te imploro, Jorge! A Bruna salvou a sua vida no passado, você tem a obrigação de ajudá-la agora!
Ele fechou os olhos com força, exalou um suspiro cansado e abaixou o celular.
— Me perdoa, Ana.
Naquele mesmo instante, a minha mão começou a desaparecer, perdendo a cor e a substância no ar. Jorge arregalou os olhos e tentou me segurar em um reflexo brusco, mas dei um passo para trás, fugindo do seu toque.
— Não encosta em mim. Foi você quem escolheu isso.