05

Cinco anos depois...

A tranquilidade que sentira minutos antes esfumou-se no exato instante em que Audrey Sullivan pôs o pé na cidade que jurou nunca mais pisar. O nó que se formou em seu estômago não era pelo enjoo da viagem, mas pelo peso do sobrenome que ainda carregava em segredo. Passara esse tempo escondida nas névoas de Inverness, Escócia, criando seus filhos longe do alcance de Di' Giovanni, conseguindo ascender profissionalmente até tornar-se o braço direito de uma prestigiosa firma de arquitetura paisagista.

— Preciso que você vá, Audrey. Você é a única que entende a logística deste contrato — suplicara sua chefe, apelando para sua lealdade e oferecendo-lhe um bônus que asseguraria o futuro universitário de seus pequenos. — Alessandro Di' Giovanni estará em Dubai a semana toda; então você se reunirá com Marcus Thorne.

Essa garantia foi o único motivo pelo qual ela aceitou. A reunião era com o chefe de desenvolvimento urbano e braço direito de Alessandro. Audrey convenceu-se de que entraria e sairia da torre principal como um fantasma, cumprindo a auditoria dos jardins corporativos antes que o dono do império retornasse.

Ao entrar no imponente saguão de cristal e aço da corporação, o ar-condicionado pareceu-lhe gélido. Audrey ajustou a gola de seu terno, sentindo que as câmeras de segurança a observavam como olhos inquisidores. Caminhou em direção ao elevador privativo com o coração martelando contra as costelas; cada canto daquele edifício gritava o nome do homem que quase lhe arrebatou a alma.

— A senhora Sullivan está aqui para a reunião com o senhor Thorne — anunciou a secretária no quadragésimo andar.

Obrigou-se a manter a cabeça erguida enquanto esperava na sala de reuniões, revisando as plantas sobre a mesa para acalmar o tremor das mãos. Estava a apenas minutos de terminar o trabalho e fugir de volta para a Escócia.

Ao entrar no escritório principal do quadragésimo andar, Audrey foi recebida por um homem de pele bronzeada e cabelos loiros, ligeiramente despenteados, cujos cachos dourados caíam com rebeldia sobre a testa. Embora estivesse na mesma idade de Alessandro, Marcus irradiava uma juventude magnética. Era alto, forte e possuía um sorriso tão genuinamente bonito que ela se sentiu desarmada por um segundo.

— Senhora Sullivan, é um prazer absoluto. O senhor Di' Giovanni não me avisou que a firma enviaria alguém tão... — fez uma pausa, percorrendo-a com um olhar que não era profissional, mas de puro apreço — encantadora.

— Vim em representação da senhora Sterling, senhor Thorne — esclareceu ela, forçando uma cordialidade profissional enquanto se sentava diante dele.

Durante a reunião, Audrey não pôde ignorar os olhares que Marcus lhe lançava. Eram sutis, mas carregados de um interesse que ela decidiu ignorar; sabia que, se sua chefe soubesse, tentaria juntá-los imediatamente, obcecada como estava em conseguir-lhe um marido. A interação foi fluida graças à amabilidade de Thorne, que se mostrava risonho e relaxado, fazendo com que Audrey quase esquecesse onde estava.

Ao finalizar a revisão das plantas, ela se levantou para recolher seus pertences.

— Obrigada por sua disposição, senhor Thorne. Enviarei o relatório final amanhã mesmo — disse ela, dirigindo-se à porta com uma urgência que tentava camuflar.

— Espere, Audrey — deteve-a Marcus com suavidade. — Na próxima semana é o aniversário da corporação. Haverá uma festa luxuosa e eu adoraria que você estivesse presente. Considere-se cordialmente convidada.

— É muito amável, mas temo que minha agenda na Escócia esteja bastante apertada — respondeu ela com um sorriso tenso. O último que desejava era comparecer a um evento onde Alessandro Di' Giovanni fosse o centro das atenções.

Após despedir-se, Audrey caminhou para o elevador. Assim que as portas se fecharam e o elevador começou sua descida, o elevador contíguo abriu-se no quadragésimo andar. Dele emergiu Alessandro, envolto em uma aura de autoridade gélida e mau humor. Não era suposto ele estar ali, mas havia esquecido documentos vitais para sua viagem a Dubai.

Entrou no escritório com passos firmes, mas parou ao ver Marcus erguendo uma pasta com uma expressão de deboche no rosto.

— Veio por isto, rabugento? — perguntou o loiro, balançando os documentos.

Eram polos opostos. Enquanto Marcus era o brincalhão que levava tudo com uma tranquilidade irritante, Alessandro era a retidão personificada, um homem de regras rígidas e uma seriedade que beirava o ríspido.

— Não tenho tempo para seus jogos, Thorne. Me dê isso — rosnou, arrancando-lhe a pasta. — Tenho um avião esperando.

— Sempre tão amargo — riu seu amigo, recostando-se na cadeira. — Você deveria ficar para a festa da próxima semana. Poderia aprender a aproveitar a vida, ou pelo menos tentar não assustar os convidados. Aliás, acabei de conhecer a mulher mais bonita que já passou por este escritório. Uma verdadeira joia da firma Sterling.

Alessandro, que já estava a meio caminho da porta, parou por um segundo, mas não mostrou interesse. Marcus era um garanhão incurável e suas joias costumavam ser simples distrações.

— Não me importa quem você seduziu hoje — replicou Di' Giovanni com frieza.

— Não a seduzi, embora eu vá tentar — corrigiu o loiro com um lampejo de determinação. — Inclusive a convidei para a festa. Chama-se Audrey Sullivan, e eu te juro, Alessandro, que ela tem algo que...

O nome impactou no quarto como uma explosão silenciosa. Alessandro tensionou-se de tal maneira que seus músculos pareceram tornar-se de pedra. Virou-se para Marcus com uma rapidez tão violenta que seu amigo deu um sobressalto, deixando cair a caneta que segurava.

— Como você disse que ela se chama? — a voz do moreno baixou para um sussurro tão letal que seu amigo sentiu um calafrio.

— Audrey... Audrey Sullivan — gaguejou Marcus, confuso pela súbita transformação do amigo. — Você a conhece?

Alessandro não respondeu. Sua mente inundou-se com a imagem da mulher que o obcecara durante cinco anos. A mulher que zombou dele e escapou com seu sangue nas veias. Sem dizer mais uma palavra, saiu do escritório como um vendaval, suas passadas ressoando no mármore enquanto se dirigia desesperadamente aos elevadores. Seu coração batia com uma fúria possessiva que ameaçava transbordar.

O caçador acabara de ouvir o nome de sua presa, e desta vez, não pensava em deixar que cruzasse a porta do edifício.

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