04

Audrey fugiu para a escuridão da noite, levando consigo um segredo duplo que nem mesmo o implacável Alessandro Di' Giovanni conseguira arrancar dela. O relatório médico que ela amassava no punho antes de escapar da clínica não mentia: seu desmaio não fora apenas por estresse, mas porque seu corpo estava fazendo o dobro do esforço para gestar dois bebês. Eram gêmeos. Aquela revelação deu-lhe a força necessária para burlar a segurança e escapar da cidade.

Enquanto o táxi se afastava da mansão, Audrey observava pela janela como as grades de ferro se tornavam linhas borradas. O nó em sua garganta se desfez, permitindo que as lágrimas corressem livres. Sentia-se sozinha, mas uma certeza a consolava: havia salvado seus filhos de se tornarem simples cláusulas de um contrato de renúncia. Seus pais a odiariam por perder o bilhete premiado, e Alessandro... seu pulso acelerou de terror ao imaginá-lo. O homem que acreditava tê-la encurralado ficaria louco ao descobrir que sua presa lhe escapara por entre os dedos.

Não são uma transação; são meus, jurou Audrey, desligando o celular após receber uma mensagem desesperada de sua mãe. Não permitiria que Alessandro lhe roubasse os filhos em troca de milhões.

Ao chegar à estação de trem, o burburinho a envolveu. Entregou seu bilhete com o coração martelando, temendo que uma mão pesada pousasse em seu ombro. Somente quando o trem se pôs em marcha com um gemido metálico, ela se permitiu respirar. Ia em direção a uma aldeia costeira, uma tela em branco onde ninguém conhecia o peso do sobrenome Di’ Giovanni.

Enquanto isso, na mansão Sullivan, o ar tornara-se irrespirável. Alessandro permanecia no centro do saguão com uma expressão que vaticinava uma tempestade. Seus olhos escuros viajavam de Eliot a Olivia, que balbuciavam desculpas incoerentes sobre o paradeiro da filha.

— Estão me dizendo que sua própria filha desapareceu sem que percebessem? — perguntou o moreno. Sua voz era um sussurro perigoso que cortava mais que um grito.

Não confiava neles; suspeitava que fosse uma estratégia para renegociar. Voltou ao seu escritório onde seu chefe de segurança já o esperava com as gravações. Na tela, via-se a imagem granulada de Audrey na estação de trem, olhando por cima do ombro com olhos cheios de pânico.

— Fugiu como uma criança — murmurou, cerrando a mandíbula. — Ela se arrependerá de ter me feito perder tempo com este jogo.

Aproximou-se do monitor e parou a imagem. Não era apenas o contrato que estava em jogo, mas o fato de ela ser a primeira pessoa na vida a atrever-se a desafiá-lo.

Alessandro observou o relatório médico em sua mão, mas sua mente viajou aos corredores frios de sua infância. Lembrou-se de seu avô, um homem que morreu na ruína e na vergonha por culpa da traição dos Sullivan. Ele não nascera para ser um monstro; fora forjado para ser uma arma de restituição.

Justiça, não vingança, repetia para si mesmo como um mantra. Mas ao ver a cama vazia do hospital, sentiu uma pontada de algo que não era ódio. Era uma vulnerabilidade que o aterrorizava. Pela primeira vez na vida, o controle — a única coisa que o mantinha a salvo de seus próprios demônios familiares — escapava-lhe das mãos. Não a buscava apenas pelo contrato ou pelo herdeiro; buscava-a porque ela fora a única que, em uma única noite, conseguira fazer com que o silêncio de sua alma deixasse de ser tão pesado.

— Senhor, rastreamos o bilhete — informou o guarda. — Ela se dirige à costa. Mas há algo mais... o médico da clínica particular deixou este envelope para o senhor. Diz que é a atualização dos exames de sangue de sua esposa que não pôde entregar antes que ela escapasse.

O moreno pegou o envelope com uma lentidão ameaçadora. Abriu-o e, à medida que seus olhos percorriam os resultados, a fúria em seu rosto foi substituída por uma palidez letal. O papel tremeu entre seus dedos enluvados.

— Preparem o helicóptero — ordenou Alessandro, com uma voz que fez os guardas recuarem por instinto. — Ela pensa que está fugindo com meu filho... mas não tem ideia de que agora que sei a verdade, vou caçá-la nem que tenha que queimar o mundo inteiro para encontrá-la.

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