Mundo de ficçãoIniciar sessão
Dezoito anos.
A palavra ecoava em minha mente como um sino, doce e solene. Hoje não era só um aniversário; era a linha que separava quem eu era de quem poderia ser. E no centro de todas as minhas esperanças, havia um nome: Fael.O ar na universidade estava carregado de uma eletricidade diferente. Não era apenas a agitação normal dos corredores, era algo inusitado como se estivesse acontecendo algum evento.
Um frêmito que percorria a matilha e fazia até os professores mais sérios cochicharem atrás de portas entreabertas.
Meu lobo interior, normalmente tão submisso, agitava-se sob minha pele, farejando a mudança. Sempre que isso acontecia, o motivo tinha um só nome, a Casa do Alfa, suja qual eu nunca tive qualquer interesse em conhecer ate o momento certo chegar.
Ajustei a alça da mochila no ombro, deslizando entre grupos de alunos com olhos brilhantes. Então, capturei os fragmentos de uma conversa que fez meu passo vacilar.
— … no salão principal, ao meio-dia! O Alfa em pessoa vai apresentar a futura Luna do Fael.
O mundo pareceu reduzir seu ruído a um zumbido surdo. Meio-dia. Mansão do Alfa. Futura Luna.
Meu pulso acelerou, cada batida um martelo contra as têmporas.
Fael. Ele não atendera minhas ligações. Não aparecera. Mas agora… todas as peças se encaixavam com uma precisão dolorosamente linda que fez meu peito gritar.
Meu aniversário. Nossa data. A promessa.
A lembrança de seu sussurro, quente contra meu ouvido numa noite de luar, invadiu-me com a força, mas não só aquela noite como todas as vezes que ele podia me jurar.
“Quando você fizer dezoito anos, Lirah, eu te apresento ao mundo. Não como a filha do Beta. Como minha parceira. Minha única Luna.”
Um sorriso irrefreável nasceu em meus lábios, pequeno e só meu. Ele fizera isso.
Fora tudo um segredo, uma encenação magnífica para nos coroar diante de todos. A ânsia para vê-lo tornou-se um nó de fogo no estômago.
Cheguei em casa voando. Minha mãe, sempre graciosa, dispunha lírios prateados, meus lírios, sobre a mesa. Meu pai, o Beta Aron, observava com a postura firme e o orgulho silencioso que eram sua segunda pele. Seu olhar pesou sobre mim, analítico.
— Animada para o banquete, meu lírio? — perguntou minha mãe, com um sorriso que conhecia todos os meus segredos, menos aquele.
— Muito — respondi, a voz ligeiramente mais aguda que o normal.
Meu pai aproximou-se. Seu cheiro familiar, terra, carvalho e autoridade, envolveu-me.
— Lirah — disse, a voz um baixo grave de advertência. — Mantenha-se discreta. Hoje não é um dia qualquer. É sobre o futuro da matilha, sobre alianças e poder. O foco é o herdeiro.
— está com medo?
— Não! É que todos sabem que o Beta tem uma filha, mas não é o dia deles descobrirem, você chamaria mais atenção, além do fato de que muitos lideres estarão lá.
Seu olhar parecia ver além das minhas camadas de ilusão.
— Não é hora de… distrações.
— Está com medo de que eu encontre meu mate agora que fiz dezoito? — desafiei, tentando soar despreocupada.
— Encontrar um mate não é um conto de fadas, lobinha. É estratégia. É dever. Especialmente para nós.
Seus dedos ergueram um fio do meu cabelo prateado, tão claro quanto o da minha mãe.
— Você herdou a beleza dela. E beleza, nesses círculos, atrai mais olhares do que você imagina. Atrai problemas.
— tudo bem, pai, não se preocupe. — disse me virando e subindo as escadas.
Ate porque essa loba já tem um dono.
Vesti-me com as mãos trêmulas. O vestido azul-claro ajustou-se ao meu corpo como uma segunda pele, e os detalhes prateados cintilaram à luz como escamas de peixe sob a lua.
No espelho, uma estranha me encarava. mulher, não menina. Com uma centelha de determinação nos olhos que eu mesma mal reconhecia. Hoje, pensei, sentindo o lobo dentro de mim erguer a cabeça. Hoje tudo muda.
A mansão do Alfa era um organismo vivo, pulsante com o luxo e o poder da matilha.
O ar cheirava a flores caras, comida rica e ambição disfarçada de perfume.
No centro do grande salão, uma escadaria majestosa descia para um tapete vermelho, levando a dois tronos vazios. O burburinho era uma colmeia de especulações. Todos sabiam o ritual. Todos aguardavam a revelação.
Andei ao redor do salão, vi varias pessoas ilustres, tudo que sei é que o alfa Kaelom é tipo um alfa rei, ele domina sobre todas as matilhas como o líder universal e dentro delas, ele que nomeia cada alfa menor, seu império cresce e fica mais forte a cada guerra, ele toma territórios inimigos, coloca seu nome e dá um novo governo e alfa, ouço meu pai contar como eles vencem as guerras, e as matilhas que ele toma dando uma nova direção, ao que todos dizem, uma direção rumo a gloria e prosperidade, ele parece ser realmente um excelente alfa.
— O futuro alfa de alcateia leste se apresenta! — surgiu o anuncio.
E então, ele apareceu.
Fael e atrás deles aquelas figuras imponente.
Um homem alto e forte de postura autoritária, ao lado de uma mulher esbelta de cabelos negros e longos e atrás deles, o Beta, meu pai... todos os três eram figuras de tirar o folego em questão de poder e autoridade.
Mas meu foco era meu querido Fael.
Parado no topo da escadaria como um príncipe saído de um sonho antigo.
Seu traje cerimonial enfatizava a largura de seus ombros, a postura inata de comando.
Meu coração tentou fugir pela garganta. Nossos olhares se encontraram através da multidão. Contive a respiração, preparando-me para o seu sorriso, para o aceno que confirmaria nossa conspiração de amor.
Ele não sorriu, na verdade parece que não me viu ou fez de conta.
Seu rosto permaneceu uma máscara lisa de pedra. E então, seus olhos desviaram-se de mim, como se varressem a multidão e não encontrassem nada de valor.
Uma fresta de gelo arranhou minha certeza e minhas mãos tremeram me afundando em uma aflição e ansiedade.
Antes que o desespero pudesse tomar forma, um movimento ao seu lado chamou minha atenção.
Uma figura deslizou para o vazio ao seu lado, elegante e segura. A luz incidiu sobre cabelos cacheados e um sorriso que eu conhecia tão bem quanto o meu próprio reflexo.
Jady.
Minha melhor amiga desde a infância. A pessoa a quem confiara cada segredo, cada dúvida sobre Fael.
Ela colocou a mão no braço dele, possessiva, natural. E então, Fael, meu Fael, ergueu a mão pedindo silêncio.
Sua voz, tão familiar, ecoou pelo salão com uma frieza que eu nunca lhe ouvira:
— Hoje é com grande honra que apresento a futura Luna da Matilha do Leste. Minha parceira escolhida.
O tempo esticou-se, elástico e cruel. Vi seus lábios se moverem. Vi o nome se formar no ar entre nós.
— Jady...
Não Lirah, mas... Jady.
A palavra não atingiu meus ouvidos como um som. Atingiu-me como um impacto físico, um soco no plexo solar que roubou todo o ar do mundo.
O rugido de aplausos que explodiu pareceu abafar-se, transformado num zumbido ensurdecedor. Meus pés, que haviam se movido em direção aos degraus por própria vontade, enraizaram-se no mármore frio.
Meu olhar, desesperado, agarrou-se ao dele. Olhe para mim, supliquei em silêncio. Diga que é uma piada. Um erro.
Ele olhou. E, nos seus olhos, onde eu costumava encontrar um segredo compartilhado, não havia amor nem remorso. Havia… constrangimento. A irritação rápida de quem teve um plano imaculado interrompido por um acidente, naquele momento entendi que... eu não soube do jantar, porque não era para eu estar lá, deve ser por isso que meu pai sugeriu que eu me comportasse, talvez ele não tenha dito que não queria me levar... por que sou sua filha, mas... realmente eu nunca participava dessas cerimonias... mas essa era para ser a minha.
Jady, com seu sorriso agora tão afiado, apertou a mão dele. Um gesto íntimo. Seus olhos encontraram os meus por sobre o ombro dele, e neles brilhava não a vergonha, mas a pura, cristalina e triunfante vitória.
E naquele instante, sob a luz gloriosa do meio-dia no dia do meu aniversário de dezoito anos, eu não senti apenas a traição de um homem.
Senti o colapso silencioso de cada verdade com que eu havia construído o meu mundo.







