Mundo de ficçãoIniciar sessãoKayla Garcia
Quatro anos mudam muita coisa na vida de alguém. Para mim, esse tempo não foi nada fácil. Foi uma tempestade que me obrigou a crescer na marra e a ficar forte de verdade. Agora, estou sentada na minha mesa, na sede da Alfhavision, ajeitando os óculos enquanto olho os relatórios no computador. Tenho vinte e seis anos e sou a Diretora Adjunta de Relações Públicas. Todo mundo aqui me respeita, sou muito boa no que faço e me sinto segura. É um cenário totalmente diferente de quatro anos atrás, quando meus próprios pais me chutaram de casa. Lembrar do dia em que fui expulsa ainda me dá um nó no estômago. Eu descobri a verdade sobre o Carlos: o noivo perfeito era gay e estava me traindo com o Lucas, o melhor amigo dele. Mas, quando fui contar para a minha família, o mundo desabou na minha cabeça. O Carlos, muito esperto e morrendo de medo de ser alvo do preconceito dos meus pais, virou o jogo contra mim. Ele usou a gravidez que eu tinha acabado de revelar para eles e a usou como arma. Disse para todo mundo que eu inventei aquela história absurda de traição só para esconder que tinha bebido demais e ido para a cama com um desconhecido, engravidando dele. Meus pais, que só ligavam para as aparências e para o que os outros iam falar, acreditaram nele e me viraram as costas. O barulho do meu celular logo me fez deixar esses pensamentos do passado e voltar para o presente. Olhei para a tela e senti um arrepio ruim quando vi o nome: Carlos. Respiro fundo, atendo e falo com a voz mais fria que consigo: — Já falei para não me ligar no horário de trabalho, Carlos. Aliás, não me liga nunca mais. — Kayla, por favor, não desliga! — a voz dele do outro lado vem cheia de desespero, com barulho de trânsito ao fundo. — Você precisa voltar para mim. A gente tem que reatar o noivado agora, ou eu vou acabar perdendo tudo o que lutei para conquistar. Dou uma risada curta, cheia de deboche. — Você está maluco? Depois de tudo que descobri sobre você, sem falar que, por causa das suas mentiras, meus pais me expulsaram grávida de casa. Se não fosse a Júlia, eu nem sei o que seria de mim e do meu filho. — Você não está entendendo! Meu pai descobriu tudo... Quer dizer, descobriu que eu ainda me encontro com o Lucas — ele confessa, e dá para notar que ele está tremendo. — Ele está no meio da campanha para se reeleger ao Senado. Se a imprensa descobre uma coisa dessas, a carreira dele já era. Ele me deu um ultimato: ou eu volto com você para fingir que sou um homem de família e limpar minha barra, ou ele me expulsa de casa e me tira da diretoria da empresa. Kayla, eu estou sem saída, e você é a única que pode me salvar. — O que acontece com você não é problema meu, Carlos. Procura outra para usar como noiva de fachada, porque você não tem coragem de enfrentar seu pai e muito menos de se assumir. Não me procure nunca mais e espero que, desta vez, tenha entendido que eu não vou voltar para você nem hoje, nem nunca. Desligo na cara dele sem dar tempo para resposta, jogo o celular na gaveta e tranco com a chave. Se o Carlos acha que eu ainda sou aquela menina boba e indefesa do passado, ele está muito enganado. A maior bênção da minha vida nasceu daquela noite confusa no resort: Leo, meu filho de quase quatro anos. Ele tem os cabelos bem escuros e uns olhos expressivos, tão azuis quanto os do estranho daquela noite.






