Mundo de ficçãoIniciar sessãoLeyla Demir
Deito na minha cama e a realidade do que fiz desce sobre mim como um cobertor pesado e úmido. A escuridão do quarto amplífica cada som, cada rachadura no teto que meu olhar busca. Como eu trouxe um homem desconhecido para dentro da minha casa.
Um homem sem nome, sem passado, sem memórias. A Leyla enfermeira, pragmática e controlada, deu lugar a uma mulher que age por impulso, guiada por um desespero que nem ela mesma compreende totalmente. Soou como uma louca? Sem dúvida. Sinto-me como uma nesse momento.
Os conselhos da minha mãe, enterrados no subsolo da minha alma, vêm à tona como um bálsamo envenenado. A voz dela, suave e cheia da sabedoria simples de quem veio de um vilarejo no interior, ecoa na escuridão:
“Ajude aquele que o seu coração clamar. Talvez não veja agora, mas com o tempo verá se o seu coração estava errado ou não, e quase sempre ele nunca está.”
Meu coração clamou por ele? Naquela estrada, sim. Clamou para salvar uma vida. Mas agora? Agora ele está na minha sala, um quebra-cabeça de carne e osso sentado no meu sofá, e o clamor se transformou num sussurro ansioso. E se o meu coração estiver errado desta vez? E se por trás daqueles olhos azulados houver uma escuridão que nem a amnésia conseguiu apagar?
Preciso encontrar uma forma de explicar isso para os outros. Para as colegas do hospital, para os poucos amigos, para a senhora Ayda, minha vizinha fofoqueira. Quem é aquele homem branco, lindo e silencioso que agora partilha o meu espaço?
A mentira inicial, dita num pânico momentâneo, tornou-se uma estrutura complexa que preciso sustentar. E pior: preciso descobrir se devo gastar o pouco dinheiro suado que venho juntando em tantos plantões, para contratar um detetive e desvendar o mistério sobre quem é Adrian. A ideia é aterradora.
E se descobrirmos algo que eu não quero saber? E se ele tiver uma família, uma esposa, filhos? A simples ideia provoca uma pontada aguda de um sentimento desconhecido, que parece me apavorar.
Não, é algo mais profundo, é o medo de perder a conexão frágil que começou a se formar.
O cansaço finalmente vence a ansiedade, e mergulho num sono pesado e sem sonhos. Quando abro os olhos, a luz do amanhecer já filtra pelas persianas. É então que percebo: o cheiro. Café fresco. Meu coração dá um salto dentro do peito, um misto de susto e confusão. Quem está na minha cozinha?
Levanto-me silenciosamente, envolta no meu roupão, e espreito pela fresta da porta. E lá está ele. De costas para mim, junto ao fogão. Está sem camisa. E a visão me rouba o fôlego.
Não é apenas uma musculatura masculina. É uma obra de arte viva, um monumento de músculos definidos e harmoniosos, como aqueles das esculturas gregas que via nos livros de história da arte. Ele tem uma tatuagem. Ela é grande e intrincada.
Começa na base da sua cervical, uma série de símbolos geométricos e runas que serpenteiam por toda a extensão da sua coluna, como uma serpente ancestral ou a espinha dorsal de um dragão mitológico, desaparecendo sob a cintura da sua bermuda. A tatuagem é de um preto profundo, contrastando com a pele branca. Com certeza, conta uma história que nem ele mesmo consegue ler.
— Bom dia… — sussurro, e minha voz soa rouca e constrangida no silêncio da manhã.
Ele se vira, surpreso, e eu vejo o monumento de frente. Seu peito é largo, o abdômen definido em gomos perfeitos, os braços fortes. Ele é, inegavelmente, o famoso “rato de academia” de que tanto falam, mas há uma naturalidade na sua estrutura, como se a força fosse uma parte do seu ser, não uma conquista vã.
Seus olhos encontram os meus e ele parece ligeiramente envergonhado, passando uma mão pela nuca.
— Desculpa. Coloquei minha camisa na sua máquina de lavar. Estava começando a feder — ele explica, um rubor subindo levemente pelo seu pescoço.
— Não tem problema… — digo, e percebo que meu olhar continua preso ao seu abdômen definido.
Desvio os olhos rapidamente, sentindo um calor subir das minhas bochechas até as pontas das minhas orelhas.
— Aproveitei e fui até a padaria, comprei o nosso café com o dinheiro que tinha no bolso da minha bermuda — ele continua, sua voz ficando mais baixa, pensativa. Ele pega uma pequena pilha de notas, ainda empoeiradas, em cima do balcão. — Há… há muito dinheiro comigo. Acho que é suficiente para passar mais de três meses sem me preocupar.
A informação me atinge como um balde de água fria, tirando-me dos meus devaneios corporais. Olho para a mesa e vejo que realmente há muito dinheiro, em espécie. Ninguém carrega tanto dinheiro em espécie sem um motivo. Isso não é normal. Isso soa como se ele estivesse em fuga, ou a um segredo, de algo que não quer deixar rastro digital. O medo retorna, latejante.
— Acho que pode usar para comprar algumas roupas — sugiro, tentando manter a voz estável.
— Farei isso. E mais uma vez, desculpa — ele diz, genuinamente sem graça.
Sorrio, um sorriso tenso, ainda sentindo meu corpo inteiro aquecido pela cena que testemunhei. Sento à mesa sentindo um pouco de desconfiança, tomamos um café tranquilo, mas uma tensão nova paira entre nós. A descoberta do dinheiro mudou algo. Tornou a sua presença aqui mais real, mas também mais perigosa.
Enquanto lavamos a louça, ele quebra o silêncio.
— Pensei no que você disse. Sobre procurar quem eu era… — ele começa, secando uma xícara com cuidado. — E eu… eu não quero.
Olho para ele, surpresa.
— Não quer?
— Não. Pelo menos, não agora. A ideia me dá… um mau pressentimento. Um frio na barriga. Se eu tinha essa vida, com tanto dinheiro no bolso e uma tatuagem nas costas que parece um mapa para um lugar sombrio, talvez eu não queira voltar para ela. Quero… quero tentar ser o Adrian. O Adrian que você inventou para a polícia.
Há uma vulnerabilidade tão crua na sua voz que meu coração se aperta. Ele não está somente tentando se esconder; ele está escolhendo. Escolhendo uma nova possibilidade. Escolhendo esta possibilidade.
— Está bem — digo suavemente. — Seremos então Leyla e Adrian, o casal que se conheceu pela internet. É a nossa história e vamos mantê-la.
Ele sorri, um sorriso de alívio que ilumina seu rosto todo. E nesse momento, a decisão parece certa, mesmo que seja louca e imprudente, mesmo assim algo dentro de mim diz que é o certo a se fazer por hora.
Mais tarde, mesmo que ele ainda esteja sentindo dores, insiste que precisa ir até alguma loja para comprar algumas roupas. Levo-o até uma loja simples, uma daquelas de rua com roupas básicas. Estávamos à procura de algumas camisetas quando ouvi uma voz conhecida.
— Leyla? É você? Que surpresa!
Viro-me e vejo o Cemal, um médico-cirurgião do hospital com quem já saí algumas vezes. Ele é bonito, bem-sucedido e incrivelmente convencido.
— Cemal, olá! Tudo bem? — cumprimento, tentando ser educada, mas distante.
— Mais que bem. E você está tão sumida? — Seus olhos percorrem meu corpo de forma possessiva antes de pousarem em Adrian, que estava um pouco afastado, examinando uma camisa. — E quem é o seu… amigo?
O desconforto brota instantaneamente em mim. Cemal sempre teve a habilidade de me fazer sentir como uma propriedade que ele um dia pretendia reivindicar.
— Este é o Adrian — digo, simplesmente.
— Adrian? Nunca ouvi falar. É de fora? — pergunta Cemal, seu sorriso sendo claramente uma provocação.
Adrian deve ter sentido a mudança no ar, porque se aproxima, posicionando-se levemente à minha frente, não de forma agressiva, mas protetora. Sua presença é avassaladora e isso ativa alguma coisa em mim.
— Algum problema? — pergunta Adrian, sua voz é calma, mas com uma autoridade inata que faz Cemal recuar um centímetro.
— Nenhum problema. Somente cumprimentando a Leyla. Não sabia que ela estava acompanhada.
— Pois é — Adrian diz, e seu braço encontra meu ombro num gesto natural e íntimo.
O calor da sua mão é um choque elétrico através da minha blusa.
— Sou o namorado dela. Vim passar um tempo com ela aqui. Finalmente nos conhecemos pessoalmente.
A mentira flui dele com uma naturalidade assustadora. Ele não está somente repetindo uma história; ele está vivendo o personagem. E, Deus me perdoe, naquele momento, pareceu incrivelmente real.
Cemal fica visivelmente desconcertado.
— Ah, namorado? Da internet? — Ele ri, um som forçado. — Bem, espero que seja tudo o que você esperava, Leyla. Até mais.
E ele se vai, com um último olhar desdenhoso.
Assim que ele some, o braço de Adrian se solta.
— Desculpa — ele sussurra, seus olhos procurando os meus. — Eu só… vi que você estava desconfortável.
— Não, não peça desculpa… — digo, e minha voz treme ligeiramente. — Foi… perfeito. Obrigada.
Olho para ele, para o homem que não sabe quem é, mas que, instintivamente, soube como me proteger. A mentira que começou como um fardo agora se transforma em algo diferente. É um escudo, sim, mas também é um fio que nos une, uma história que estamos escrevendo juntos.
— Então — digo, pegando sua mão. — É oficial. Para o mundo, somos Leyla e Adrian. Nos conhecemos em um site online e você estava aqui para me conhecer. Teve o acidente e eu não sei nada sobre a sua família.
Ele aperta minha mão suavemente, e nos seus olhos azulados não vejo o vazio do esquecimento, mas o reflexo do meu próprio rosto. E, pela primeira vez desde que o acidente aconteceu, a loucura da minha situação não me assusta.
Sinto uma esperança nascendo.







