Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdrian Harper
A dor de cabeça é uma batida constante, um tambor abafado dentro do meu crânio que lembra a pancada que apagou tudo. Mas é o barulho dentro de mim que realmente me atormenta. Uma cacofonia de perguntas sem resposta.
A convicção teimosa que se alojou no meu coração é que sou um homem honesto e bom. A sensação, mesmo sendo vaga, como o contorno de uma sombra familiar, ainda assim é forte. Mas me pergunto por que carrego uma fortuna em dinheiro vivo nos bolsos? Notas altas e algumas delas estão amassadas. Isso não combina com a sensação de “homem honesto”.
Combina como se eu estivesse em fuga. Ou que seja um homem de negócios obscuros e perigoso.
Lembro do momento exato antes do impacto, não é uma imagem, mas uma sensação. O volante sob minhas mãos suadas, a velocidade exagerada, o asfalto escorrendo como um rio negro. Não era um descontrole. Era uma decisão, era o que eu queria que acontecesse.
A pergunta que me envenena é: por que eu estava tentando acabar com tudo?
A lembrança seguinte é de Leyla. Aqueles olhos que veem a vida mesmo na escuridão, tenho certeza de que, se não fosse por ela, eu estaria morto agora. A gratidão que sinto por ela é um oceano, no fundo dele, há o medo de que eu sou o causador do meu próprio acidente e que talvez ela me salvou de mim mesmo.
Continuando as minhas reflexões, eu sou um estrangeiro, em todos os sentidos.
Minha pele, meu rosto, a estrutura dos meus ossos, tudo grita que não pertenço a esta terra de paisagens esculpidas pelo vento e tradições profundas como raízes. Os olhares que recebi na padaria pequena foram como pequenos choques.
Não eram hostis, mas curiosos e avaliadores.
“De onde você veio?” parecia estar escrito em cada olhar que recebia. Essa é uma resposta que eu gostaria de saber.
Comprei pães frescos, queijos, azeitonas, mel e tudo que parecia fazer parte de um café da manhã digno. Uma forma de agradecer, de preencher a geladeira quase vazia dela, de me fazer útil naquele pequeno mundo que agora habitava.
Quando percebi que ela estava dormindo, devido à exaustão pós-plantão, algo dentro de mim se acalmou de uma forma estranha. Não queria assustá-la e nem queria ser um intruso indecente em sua casa.
Estava me sentindo sujo, dormi no sofá da sua sala com a mesma roupa que estava ontem no acidente, queria tomar um banho e trocar de camisa. Caminhei pela sua casa e vi que ela tinha uma máquina de lavar e secar.
Foi um ritual bobo, uma tentativa de normalidade no caos que estava vivendo. Estava arrumando a mesa para o nosso café da manhã quando então senti uma presença atrás de mim. Ao virar, encontro o olhar dela em mim.
Não é o tipo de olhar surpreso por ver um desconhecido em sua cozinha. Era algo diferente e, por mais estranho que possa dizer, o olhar que ela me lançava não é algo que já tenha recebido algum dia. Se é que algum dia alguém já tivesse me olhado como ela estava fazendo nesse momento.
Havia um calor no seu olhar, uma faísca que atravessou o ar e aqueceu meu peito vazio. Foi um sentimento estranho e bom, um ponto de luz no meu deserto vazio e escuro. Um ponto de luz chamado Leyla.
Depois do café, decidi que era necessário ir até uma loja para comprar o básico de roupas para mim. Caminhamos até lá com ela falando do hospital, vi a sua paixão e a exaustão brigando em seus olhos cor de mel. Como descrevia salvar vidas era poético, assim como a forma como descrevia perdê-las era devastadora.
— Às vezes… — ela confessou, passando os dedos por uma camisa de algodão simples. — Acho que toda a luz que tento dar aos outros está me consumindo por dentro. Sinto-me como uma vela que está derretendo rápido demais.
Queria dizer algo. Falar que entendia o vazio, mesmo que de outra forma. Quis prometer que ajudaria a reacendê-la se fosse o caso. Mas as palavras não vieram.
Como um homem sem passado pode oferecer futuro a alguém?
Então aquele homem, Cemal, apareceu. Seu cheiro de arrogância e posse chegou antes dele. E vi o desconforto instantâneo na postura de Leyla, o modo como seus ombros se contraíram levemente. Uma fúria fria e sem sentido brotou em mim.
Não era ciúme, pois não tenho direito a isso. Era proteção à garota que escolheu mentir para se proteger dos olhos acusatórios dos policiais que a viram como uma possível responsável pelo meu acidente, se é que foi um acidente.
Mas assim como ela, eu menti para protegê-la daquele homem que tinha um olhar que reconheço muito bem. Ele a desejava.
— Sou o namorado dela!
Coloquei meu braço em seus ombros, sentindo a curva familiar de seu corpo sob minha mão. Foi um gesto instintivo, e a sensação foi certa. Era como se meu corpo, mesmo sem memória, soubesse como se encaixar ao seu lado. Quando o arrogante se foi, senti a necessidade de me desculpar pela ousadia, pelo toque. Mas ela não se afastou. Seus olhos agradeceram. E aquela faísca no meu peito tornou-se uma pequena chama.
No restaurante do shopping, um lugar barulhento e cheio de vida que contrastava com o turbilhão silencioso dentro de mim, ela lançou a pergunta que pairou no ar o dia todo.
— Então, Adrian, o que realmente faremos?
Ela mordiscava uma batata frita, seus olhos sérios fixos nos meus. Não era uma pergunta sobre o almoço. Era sobre o amanhã e sobre o que diremos às pessoas.
Coloco meu copo de suco no lugar, ganhando tempo. O barulho ao redor parece diminuir.
— Precisamos de um plano… — começo, a voz mais firme do que eu esperava. — Um que seja convincente a todos enquanto decido o que fazer.
— Tem certeza de que não quer mesmo descobrir quem você é? — ela sonda mais uma vez. — Sua falta de memória pode ser passageira ou pode ser duradoura…
Confirmo com a cabeça e vejo em seu olhar que ela está ansiosa para descobrir quem sou. Mas, com o fato de ter tanto dinheiro em meus bolsos, podemos acabar descobrindo que não sou uma pessoa boa, mesmo que tudo dentro de mim diga que sou.
Ela sorri, um sorriso triste e lindo.
— Então, algo poético e prático? — Ela me lança um sorriso diferente.
Parece que ela está se divertindo com algo. Mas, pelo visto, é algo que ela não está disposta a compartilhar comigo agora.
— Prático — digo, respirando fundo. — Primeiro, finanças. Esse dinheiro que tenho… não é normal. Precisamos usá-lo com sabedoria, mas sem chamar a atenção de todos ao redor. Acredito que você more de aluguel…
Ela confirma com a cabeça e seu olhar perde um pouco o seu brilho.
— Então vou pagar o seu aluguel, cobrir nossas despesas e investir em algo pequeno… — Olho para um ponto atrás dela, como se a minha mente procurasse algo que identificasse. — Eu… tenho a sensação de que sei lidar com números. É uma das poucas coisas que sinto como uma habilidade, não é uma memória.
— Acredito em você — ela diz e essas três palavras têm um peso diferente para mim.
— Segundo — continuo, encorajado. — Eu preciso de uma identidade. Adrian precisa se tornar real. Documentos, um histórico. Não sei como se faz isso aqui, mas tenho certeza de que existe um mercado para isso. E, considerando a quantia que tenho e o fato de que ninguém me procura… talvez eu já fizesse parte desse mercado.
A possibilidade é amarga, mas precisa ser dita. Leyla não se esquiva. Ela acena com a cabeça, séria.
— Terceiro… — minha voz baixa um tom. — Você não pode deixar sua vida de lado por minha causa. Você voltará ao hospital porque ama o que faz, mesmo que doa. E eu… preciso encontrar algo para fazer. Um trabalho. Algo honesto, que use minhas mãos ou minha cabeça. Algo que faça de Adrian alguém real, não apenas um fantasma em sua casa.
— E se… — ela hesita, brincando com o anel simples em seu dedo. — E se, durante esse processo, algo do seu passado vier à tona? Algo… perigoso?
Seguro seu olhar. É a pergunta que deve ter torturado a noite toda.
— Se vier, lidarei com isso. Prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que você não se machuque. — Estico a minha mão e toco a dela. — Tenho uma escolha. Posso ser refém do homem que eu era, ou posso tentar construir o homem que quero ser. E eu escolho construir. Escolho tentar ser digno desta segunda chance. Digno da sua coragem, Leyla.
As palavras saem carregadas de uma emoção crua que me toma de surpresa. Vejo seus olhos marejarem. Ela retira a sua mão debaixo da minha e envolve a minha com a dela. Seu toque é quente, firme, como se fosse um ponto de ancoragem no meio da confusão que é o vácuo da minha vida.
— Está bem — ela sussurra. — Construiremos. Um dia de cada vez. E Adrian? — Ela faz uma pausa, uma leve cor corando as maçãs do seu rosto. — Obrigada por colocar um pouco de ação em minha vida.
Nesse momento, no meio do barulho do restaurante, com o cheiro de comida frita no ar, sinto algo brotando no lugar do vazio dentro de mim. Não é uma memória, é algo mais forte. Algo como um propósito. Um rumo ao qual devo seguir. É a mão dela na minha, e a promessa silenciosa de que, mesmo sem saber quem fui, posso decidir quem serei a partir de agora. E, por enquanto, quem quero ser é o homem ao lado de Leyla essa mulher de olhos doces e uma fé linda em um desconhecido.
De mais, o resto, construiremos.







