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03 - O Estrangeiro em Mim

Adrian Harper

O vazio é a primeira coisa que percebo. Não é escuro, nem assustador. É apenas… vazio. Um grande lençol branco e silencioso estendido onde costumava haver uma vida. Não lembro quem sou. Não lembro por que estava naquele carro. Nem lembro de um rosto que me seja familiar, um nome que ecoe com verdade, um lugar que eu chamasse de lar.

A pergunta “se eu tenho uma família” paira no ar, um fantasma sem forma. Talvez, sim, talvez não. A indiferença com que contemplo essa possibilidade é a parte mais aterrorizante. Quem é o homem que não sente falta do que não conhece?

Minha primeira memória, ou seria o primeiro sonho? É de uma pressão em meu peito, o cheiro forte de gasolina e queimado, e um par de olhos. Olhos cor de âmbar, profundos como mel, cheios de um desespero que cortava como uma faca.

Ela me puxava para fora do metal retorcido, suas mãos firmes, sua voz um sussurro urgente e calmante. “Você vai ficar bem. Fique comigo.”

Depois, os policiais. E a mentira dela. Eu ouvi, mesmo através do nevoeiro.

“Ele é meu namorado.”

O pânico na voz dela era palpável, um cheiro agridoce de adrenalina e medo. Naquele momento, confuso e despedaçado, uma certeza se fixou em mim: aqueles olhos não eram de uma pessoa que queria me machucar. Eram olhos de quem salvava. A mentira, eu entendi instintivamente, era um escudo, não uma arma.

Agora, estou neste quarto de hospital, um corpo dolorido ancorado a um estranho. Uma enfermeira ruiva, jovem e falante, troca meu soro.

— Tem muita sorte de ter a Leyla como namorada! — ela diz, com uma risada leve. — Nenhum de nós sabia que ela estava namorando. Ela é muito reservada. Você deve ser especial.

Forço um sorriso e confirmo com a cabeça. O movimento é mecânico. Leyla é linda, é inegável. Seus cabelos escuros como a noite, os olhos que parecem carregar histórias antigas, a força silenciosa que emana dela. Mas algo dentro de mim se contrai.

É um desconforto sutil, uma discordância de que algo está errado. Não com ela, mas com a farsa. Ergo a mão esquerda, uma ação que se tornou um ritual desde que acordei. Lá está: uma fina faixa de pele mais clara, uma marca fantasma no quarto dedo. A evidência silenciosa de um vínculo que meu cérebro apagou.

Uma aliança. Um compromisso.

De quem?

Com quem?

Essa marca branca é um eco de uma vida passada, um lembrete mudo de que eu já pertenci a alguém. E essa pessoa, essa mulher do anel, está por aí, em algum lugar, sem saber que eu estou vivo? Ou pior, sem se importar? A possibilidade é um peso frio no meu estômago.

Começo a ignorar as investidas amigáveis das outras enfermeiras. Minhas respostas são monossilábicas, meu sorriso, quando existe, é curto. Decido, com uma clareza que surge do desespero, que preciso confirmar esse “namoro”. Preciso me manter próximo de Leyla. Ela é minha única tábua de salvação neste oceano de esquecimento.

Ela me conhece? Não.

Mas ela me viu. Ela me resgatou. Na ausência de um passado, ela é meu presente mais tangível.

O médico entra assim que Leyla sai do quarto. É um homem de meia-idade, com um rosto sério e cansado.

— Senhor Adrian — ele começa, consultando o prontuário. — Os exames confirmam o que suspeitávamos. A amnésia retrógrada parece ser… extensa e pode ser permanente.

A palavra “permanente” ecoa na sala branca, dura e final como uma lápide.

— Seria um bom começo — ele continua, sem perceber o terremoto que suas palavras causaram — Entrar com um pedido de localização. Um detetive particular poderia ajudar a…

— Não.

A palavra sai da minha boca antes que eu possa processá-la. É um som rouco, carregado de uma urgência que nem eu mesmo compreendo.

O médico olha para mim, surpreso.

— Senhor Adrian, entender sua identidade é crucial para…

— Eu disse não — repito, e desta vez há uma firmeza que vem das profundezas do meu ser. — Ainda não.

Aquela sugestão fez as ideias se agitarem dentro de mim, não com esperança, mas com um pavor visceral. É como se houvesse um instinto primitivo, um aviso gutural, gritando para não revirar a terra do meu passado.

O que temo encontrar? Uma traição? Uma decepção? Uma dor tão grande que meu cérebro preferiu apagar tudo? A possibilidade de descobrir que a pessoa que eu era é alguém de quem eu não gostaria é mais aterrorizante do que o próprio vazio.

Quando Leyla volta, seu sorriso é mais contido, mas seus olhos estão mais suaves. Ela parece ter tomado uma decisão.

— O médico liberou você — ela diz, suas mãos se entrelaçando num gesto nervoso. — E eu… bem, eu estou pronta para te levar para casa. Minha casa, quero dizer.

O alívio que sinto é tão intenso que quase me deixa tonto. A ideia de ser lançado a um mundo que não reconheço, sozinho, era um pesadelo. Agora, tenho um porto seguro. Um porto chamado Leyla.

— Obrigado — digo, e a palavra soa insignificante para o que sinto. — Eu… não sei o que faria sem você.

A casa dela em Ürgüp é pequena, aconchegante, cheia de livros, plantas e o cheiro calmante de lavanda e pão fresco. As paredes são de pedra clara, e a varanda dá para um vale tranquilo. É um refúgio.

Sou educado, grato, mas uma melancolia profunda me consome por dentro. Sou um fantasma habitando a vida de outra pessoa, um intruso educado. Observo Leyla cozinhar, ler, regar as plantas. Ela se move com uma graça tranquila, mas vejo a sombra da preocupação em seus olhos quando pensa que não estou olhando.

É perceptível que ela tem uma rotina silenciosa e doce, sinto que estou atrapalhando um pouco tudo o que ela já conquistou para si. Depois de algumas horas sentado no mesmo lugar no pequeno sofá, sinto o cheiro de café e pão fresco que ela deve ter comprado.

— Vem tomar café… — ela diz enquanto despeja o líquido preto em uma xícara e me serve. — Precisamos descobrir como fazer dar certo, temos que descobrir quem é você.

— Eu não quero descobrir quem eu sou… — suspiro e decido dizer sobre o que sinto. — É como se algo dentro de mim estivesse tentando me proteger de algo.

Seus olhos ficam mais focados quando a vejo servir o seu café e senta-se de frente para mim.

— Preciso me preocupar com você? Trancar a porta do meu quarto e dormir com uma arma sobre o meu travesseiro?

Soltei uma gargalhada tão leve que minha cabeça processou isso como uma vitória. Talvez fizesse um bom tempo que não ria assim. Seco as lágrimas pela gargalhada e bebo um gole da minha bebida quente.

— Tenho certeza de que não, Leyla, mas acredito que quando a minha memória retornar, eu não sei se vou gostar do que haverá em minhas lembranças.

— Às vezes, a memória está no corpo, não no cérebro — ela disse, olhando para alguns porta-retratos. — Um cheiro, uma paisagem… pode ser a chave.

— Bom, até agora não lembrei de nada, nem mesmo do meu nome… — bebi mais um gole do café. — Mas acho que o café era um dos meus melhores amigos, gostei muito do sabor.

Ela riu e a vi levantar, seu olhar estava cansado e imagino que ela esteja exausta.

— Minha casa não é grande, mas tenho dois quartos, vou arrumar o outro para você e vou descansar, estou precisando!

Confirmo com a cabeça e bebo o resto da minha bebida.

Antes de ela ir até o seu quarto, caminho até a varanda a seguindo.

— Se você estiver disposto, podemos ir até lá, nunca consegui ir! — Ela diz ao ver os diversos balões sobrevoando não muito distante dali.

Viro o rosto em sua direção e olho para o seu rosto e vejo os desejos de uma garota e talvez até mesmo alguns sonhos.

— Acho que eu, como seu namorado, posso te levar até esse lugar.

Sorrimos e voltamos a ver o céu salpicado com os balões da Capadócia.

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