Leyla DemirO cheiro do hospital ainda está colado na minha pele, um fantasma de antisséptico, suor e desespero. Minhas mãos, sobre o volante, tremem levemente. É um tremor residual, o eco de uma noite em que a Morte decidiu fazer sua colheita no meu turno.Um senhor de olhos bondosos e um coração cansado partiu silenciosamente às 3h47 da manhã. Eu segurei sua mão enquanto ele fazia a travessia. Foi um ato profissional, um dever, mas a sensação de pele que vai ficando fria, a vida que se esvai como areia entre os dedos, é algo que nenhum curso de enfermagem pode te preparar. A culpa, uma companheira venenosa, sussurra que eu poderia ter feito mais, visto algum sinal, lutado com mais ferocidade.Dirijo-me para casa sob um céu num cinza melancólico. A estrada está quase deserta. É nesse vácuo de som e movimento que vejo: um clarão à frente, um baque metálico que parece ecoar dentro do meu próprio peito. Dois veículos. Um deles, um sedã prata, capota uma vez, duas, e para de cabeça para
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