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02 - A Mentira que me Salvou

Leyla Demir

O cheiro do hospital ainda está colado na minha pele, um fantasma de antisséptico, suor e desespero. Minhas mãos, sobre o volante, tremem levemente. É um tremor residual, o eco de uma noite em que a Morte decidiu fazer sua colheita no meu turno.

Um senhor de olhos bondosos e um coração cansado partiu silenciosamente às 3h47 da manhã. Eu segurei sua mão enquanto ele fazia a travessia. Foi um ato profissional, um dever, mas a sensação de pele que vai ficando fria, a vida que se esvai como areia entre os dedos, é algo que nenhum curso de enfermagem pode te preparar. A culpa, uma companheira venenosa, sussurra que eu poderia ter feito mais, visto algum sinal, lutado com mais ferocidade.

Dirijo-me para casa sob um céu num cinza melancólico. A estrada está quase deserta. É nesse vácuo de som e movimento que vejo: um clarão à frente, um baque metálico que parece ecoar dentro do meu próprio peito. Dois veículos. Um deles, um sedã prata, capota uma vez, duas, e para de cabeça para baixo, como um besouro morto. O outro, um hatch preto, hesita por apenas um segundo antes de acelerar, fugindo covardemente da cena que criou.

Meu coração, que há segundos estava pesado de luto, agora dispara em um ritmo de emergência. A enfermeira em mim assume o controle, enterrando a mulher cansada e amargurada. Estaciono o automóvel no acostamento, pego minha bolsa de primeiros socorros, uma extensão do meu eu e corro.

O cheiro é diferente agora. É gasolina, óleo queimado e poeira. Grito para que alguém chame a polícia e uma ambulância, mas minha voz se perde no vasto silêncio da madrugada. Chego ao veículo virado. Há apenas uma pessoa dentro. Um homem, quase inconsciente, pendurado pelo cinto de segurança. O airbag, desinflado, pende como um balão murcho.

Trabalho rápido, com uma eficiência nascida do hábito. Quebro o vidro com o quebra-vidro da bolsa, solto o cinto e, com um esforço que me faz gemer, puxo o corpo inerte para fora, arrastando-o para uma distância segura. É quando as primeiras chamas começam a lamber o capô do automóvel.

Minutos depois, ouço as sirenes. A polícia chega primeiro. Dois oficiais, um mais velho, de rosto calejado, e um mais novo, de olhos alerta. Eles avaliam a cena: um veículo em chamas, um homem desacordado no chão, e eu, uma mulher com a roupa manchada, ajoelhada ao seu lado, com as mãos ensanguentadas. 

O mais velho se aproxima. Seu olhar não é de gratidão, mas de quem suspeita. É um olhar que disseca, que procura por mentiras.

— Moça, você viu o que aconteceu? — Sua voz é áspera, sem calor.

— Um veículo preto bateu no dele e fugiu — expliquei ofegante. — Só consegui anotar parte da placa. Era um hatch, modelo recente.

Ele olha para o homem no chão, depois para mim. Seus olhos estreitam.

— Vocês são alguma coisa, um para o outro?

A pergunta me atinge como um soco no estômago. Eu gelo e sinto o medo, irracional e agudo, sobe pela minha espinha. A noite horrível, a cena traumática… Tudo se amontoa em minha mente. Tenho medo de ser levada com eles e de ser tratada como suspeita, de ter que explicar coisas que nem eu mesma compreendo.

A palavra sai antes que eu possa pensar em realmente falar a verdade, e acabo soltando uma mentira frágil e desesperada.

— Ele… ele é meu namorado. Ele apareceu no meu trabalho e estávamos voltando juntos para casa.

A palavra “namorado” soa estranha e oca na minha boca. O policial me observa por um longo segundo, seu rosto um mistério, antes de anotar algo em sua prancheta. A ambulância chega e o foco se desloca para salvar uma vida.

Dentro da ambulância, o ritmo é familiar. Monitores, soro, oxigênio. Eu fico ao lado dele, observando seu rosto à luz trêmula do interior do veículo.

Pela primeira vez, olhei realmente para o infeliz que estava sendo assistido por colegas de profissão. Ele é… bonito. De traços fortes, cabelo escuro e bagunçado pelo acidente. Mesmo inconsciente, há uma serenidade em seu rosto. De repente, seus olhos se abrem, somente um pouco. Estão turvos, confusos. Ele me olha, não com medo, mas com uma curiosidade profunda.

Seus lábios se movem, sem emitir som. Ele está tentando forçar a memória, pescando algo nas águas turvas de sua mente. Vejo a luta em seus olhos, o esforço doloroso. Então, um sussurro rouco escapa:

— Um anel… dourado. Risadas… numa varanda.

São fragmentos, ecos de uma vida que não me pertence. E, no entanto, sinto um aperto no peito. A quem pertencem essas memórias? Quem é a mulher do sorriso que ele viu? E, principalmente, quem é ele?

No hospital, o Dr. Fernandes, um neurologista competente que conheço bem, me puxa de lado após examiná-lo. Seu rosto é grave.

— Leyla, o trauma craniano foi severo. Houve um edema significativo. Nós o controlamos, mas… — ele hesita, e eu sei o que vem a seguir. — Há uma grande possibilidade de amnésia retrógrada. Ele pode, nunca mais, recuperar as memórias anteriores ao acidente.

A notícia deveria ser apenas um fato clínico. Eu vejo isso todos os dias. Mas desta vez é diferente. Desta vez, está intrinsecamente ligado à minha mentira.

— Ele não tem família? Nenhum documento? — O médico perguntou e ouço em sua voz um fio de esperança.

— O carro incendiou, tudo o que havia dentro se perdeu em meio às chamas. — Digo depois que soube sobre o ocorrido com o seu carro.

Sinto a responsabilidade descer sobre meus ombros como um manto de chumbo. Eu não só menti para a polícia, como vou estar roubando a identidade de um homem que não tem mais nenhuma. Quando me aproximo do leito, ele está acordado. Seus olhos, agora mais claros, um cinza-azulado, fixam-se em mim. Ele não parece assustado. Parece… contemplativo.

— Você — sua voz é fraca, mas surpreendentemente calma. — Você disse à polícia que era minha namorada.

É uma afirmação, não uma pergunta. Sinto o calor subir ao meu rosto. A vergonha e o medo retornam.

— Eu… — engasgo, minhas mãos se torcem. — Foi a única coisa em que consegui pensar. Eles estavam me olhando com tanta desconfiança… eu tinha medo de ser levada. Foi estúpido, eu sei. Eu sinto muito.

Ele não responde imediatamente. Respira fundo, um movimento que parece exigir um esforço enorme. Seus olhos percorrem meu rosto, minhas roupas e meus olhos cansados. E então, algo incrível acontece. Um sorriso leve, quase imperceptível, toca seus lábios. É um sorriso triste, mas genuíno.

— Então — ele diz, pausando entre as palavras. — Acho que sou o seu namorado agora.

O alívio que sinto é tão intenso que minhas pernas quase cedem. Ele não está com raiva. Ele está aceitando. É a insanidade mais pura, mas naquele momento, é a única âncora que temos.

Sorrio, timidamente, um sorriso que é resposta ao dele. É o primeiro sorriso verdadeiro que dou desde o plantão caótico dessa noite.

— E… — eu começo, sentando-me na cadeira ao lado da cama. — Precisamos de um nome para você. Não posso continuar chamando você de “o meu namorado” para as enfermeiras.

Ele franze a testa, fechando os olhos. Vejo sua mente trabalhar, vasculhando o vazio. Ele está procurando no escuro, tentando encontrar um fio de luz. De repente, seus olhos se abrem. Há um lampejo de reconhecimento, mas não de compreensão. É como se ele tivesse encontrado uma palavra em um idioma que ele uma vez soube, mas cujo significado se perdeu.

— Adrian — ele diz, a palavra saindo com uma naturalidade que nos surpreende a ambos. — Me chame de Adrian.

Adrian. O nome soa bem. Sólido. Mas para ele, é apenas uma sílaba resgatada do abismo, uma casca vazia.

— Está bem — digo suavemente, testando o nome na minha língua. — Adrian. Eu sou a Leyla.

— Leyla — ele repete, e o modo como ele diz meu nome soa como uma pergunta e uma resposta ao mesmo tempo.

Fico ali, observando-o adormecer, sedado pelos analgésicos. O sol da manhã finalmente irrompe pela janela, banhando o quarto de hospital em uma luz dourada que parece irônica. Minha noite horrível terminou, mas deu lugar há um dia impossível. 

Eu, Leyla Demir, enfermeira, acabei de ganhar um namorado amnésico cujo nome pode ou não ser Adrian. E, olhando para seu rosto tranquilo, marcado por uma batalha que ele nem sequer lembra de ter lutado, eu não sinto o peso da morte, mas o peso assustador e frágil de uma vida que, por um capricho do destino caiu em minhas mãos.

E eu não tenho a menor ideia do que fazer com ela.

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