Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ethan Caldwell
O sol da Capadócia não aquece; ele pinta. É o que penso enquanto dirijo, um espectro ao volante de um carro alugado, por estradas de terra que serpenteiam como cicatrizes nos vales. O céu é um espetáculo de tons dourados e rosados, uma fúria de cores que me parece um insulto. A beleza, desde que Amélia partiu, perdeu a relevância. Tornou-se um pano de fundo mudo para a dor constante que carrego, um peso oco sob as costelas que nem o ano sabático conseguiu erradicar.
O vento frio entra pela janela aberta, levando a poeira para o leste junto com as memórias. Lembro-me do riso dela, um som claro que costumava preencher cada canto da nossa casa em Londres. Agora, a casa é só um armazém de silêncios. O motor do carro ronca, uma companhia monótona e mecânica para um homem que um dia teve tudo…
O amor que dava propósito ao sucesso, o sucesso que sustentava o amor e que agora é pouco mais que uma sombra, um invólucro de carne e saudade.
Estou a caminho de Göreme. Decidi que a Turquia, com suas paisagens dramáticas e seu povo caloroso, já cumpriu seu papel.
Não me curou. Nada cura.
Apenas aprendi a carregar a ausência com um pouco mais de dignidade, ou talvez apenas com um cansaço mais profundo. É hora de seguir para outro lugar, outro cenário para a mesma peça trágica.
Mas o destino, esse dramaturgo irônico, sempre tem um ato final inesperado.
É numa curva fechada, com o crepúsculo baixando rapidamente, que ele se apresenta. Um jipe surge na contramão, uma mancha escura e abrupta contra o pôr-do-sol. Meu coração dá um salto seco no peito. Giro o volante com uma força brusca, instintiva.
Os pneus perdem a pouca aderência na areia solta, e o mundo vira um redemoinho de cor dourada e terror mudo. O som do metal se contorcendo contra a rocha é um grito animal, um ruído que parece rasgar o próprio tecido do ar. Um impacto surdo, depois o silêncio, quebrado apenas pelo tique-taque de algum fluido vazando e pelo zumbido agudo nos meus ouvidos.
Fico ali, preso. O volante pressiona meu tronco e sinto um calor úmido escorrendo da minha testa. O cheiro doce e nauseante da gasolina invade minhas narinas. É assim que termina? Soterrado sob os destroços num vale anônimo, longe de tudo o que um dia importou? Uma parte de mim, a parte mais cansada, quase sossega com a perspectiva.
E então, uma voz.
— Meu Deus… há alguém aí?!
É uma voz feminina, jovem, carregada de um pânico que soa genuíno. Rompe a minha letargia como um farol no nevoeiro. Tento responder, mas só me sai um gemido rouco.
Vejo uma silhueta se aproximando pela janela estilhaçada. Cabelos escuros, olhos enormes e escuros também, cheios de uma urgência que há muito não via no mundo. O rosto dela é pálido, manchado de preocupação.
— Por favor, me escute! — ela grita, as mãos agarrando a moldura da porta amassada. — Tenho que tirar você daí. O carro pode pegar fogo.
Ela se debate com o cinto de segurança, que está travado. Sinto suas mãos tremendo levemente contra o meu peito enquanto puxa e insiste. Há uma determinação feroz naquele desespero. Ela não é uma espectadora; é uma participante ativa contra a morte.
— Quase… consegui — ela murmurou, mais para si mesma do que para mim.
Com um último e decisivo puxão, o cinto cede. Ela me envolve pelos ombros e começa a puxar. A dor é uma lança branca e quente a perfurar-me o corpo, mas é ofuscada pelo instinto primordial de sobrevivência que ela desperta em mim. Arrasto-me para fora, cambaleante, metade do meu peso sustentado por ela. O cheiro de gasolina é agora uma ameaça tangível.
Demos apenas alguns passos quando a explosão chega. Não é um estrondo de cinema, mas um bum abafado, seguido por uma onda de calor que nos atinge nas costas. O impacto nos derrubou e desabamos juntos na areia fofa. Sinto o corpo dela, franzino e quente, contra o meu por um instante, antes que ela se afaste rapidamente.
Fico de costas no chão, olhando para o céu que agora está tingido não só pelo pôr-do-sol, mas pelo laranja sinistro das chamas. A respiração não vem. O mundo gira.
— Ei, senhor… você me escuta? — A voz dela está mais perto agora, cheia de um terror contido. Suas mãos tocam meu rosto, virando minha cabeça para o lado. Os dedos são suaves, mas firmes. — Por favor, abra os olhos.
Eu os abro. A visão é turva, embaçada pela poeira, pelo sangue e por uma confusão profunda. O rosto dela é um borrão de traços angustiados contra o céu crepuscular.
— Onde… estou? — A pergunta sai fraca, um sussurro rouco. É a única coisa que minha mente fragmentada consegue formular.
— Você sofreu um acidente. Um acidente muito grave. — Ela limpa o sangue da minha testa com a manga do seu casaco, um gesto estranhamente íntimo. — Qual é o seu nome?
Nome. Nome. A pergunta ecoa no vazio da minha cabeça. Deveria ser a coisa mais simples do mundo. Um rótulo, uma identidade. Mas as palavras não se formam. Há apenas um nevoeiro branco e denso onde as memórias deveriam estar. Sinto um frio gelado percorrer minha espinha, um pânico diferente do acidente. É o pânico de se perder a si mesmo.
Pisco, tentando focar no rosto acima de mim. Nos olhos dela, que examinam os meus em busca de um sinal de reconhecimento.
— Eu… — a voz falha. Engulo seco. — Eu não sei.
O choque nos olhos dela é visível, mas é rapidamente suplantado por uma compaixão prática e resoluta.
— Tudo bem — ela diz, e a mão dela encontra a minha, apertando-a. Seus dedos são frios, mas o aperto é quente, ancorando-me à realidade. — Tudo bem. Você está em choque. Vamos levar você ao hospital. Você está seguro agora.
Seguro. A palavra ressoa de forma estranha em mim. Não me sinto seguro. Sinto-me despedaçado, por fora e por dentro. Mas a pressão da mão dela é real. A areia sob as minhas costas é real. O rosto dela, iluminado pelas chamas do meu carro, é a única coisa que parece fazer sentido neste novo mundo de névoa e dor.
— O meu nome é Leyla — ela diz, suavemente. — Você se lembra de alguma coisa? De onde vinha? Alguém que esteja esperando por você?
Tento forçar a mente, mergulhar naquele branco. Imagens surgem, desconexas. O cheiro de jasmim. O som de uma risada que era como música. O contorno de um rosto contra um travesseiro, borrado, inatingível. Uma dor aguda, não física, mas emocional, corta através da confusão, tão intensa que eu gemo e viro o rosto para o lado.
— Dói — sussurro, e não estou falando apenas da cabeça.
Leyla não solta a minha mão. Seu olhar se aprofunda, como se estivesse vendo além dos ferimentos, até a fratura na minha alma.
— Não force — ela murmura. — As coisas vão voltar. Agora, o importante é que você está vivo.
Vivo. É um conceito relativo. E agora, nem sequer me lembro de quem essa existência pertence. A dor fantasma que sinto, essa angústia que parece ser o meu cerne, é o único traço legível da minha antiga vida.
Ouço sirenes ao longe, aproximando-se. Leyla olha para cima, um suspiro de alívio escapando de seus lábios.
— Estão chegando — ela diz, voltando-se para mim. — Vai ficar tudo bem.
Seus olhos encontraram os meus, e neles vejo não apenas a preocupação de uma estranha, mas o reflexo de uma profunda humanidade. Ela arriscou a própria vida para me puxar de uma armadilha de metal em chamas. Por quê? Quem é essa mulher que, num crepúsculo do dia, se tornou o fio condutor entre a minha vida e a minha morte?
O nevoeiro na minha mente ainda é espesso, impenetrável. Mas uma coisa é clara como o céu noturno que começa a surgir: a jornada que eu acreditava estar terminando, a fuga da minha própria dor, acaba por tomar um rumo radical. E o rosto de Leyla, marcado pela fuligem e pela compaixão, é o primeiro ponto de luz verdadeira que vejo depois de um longo, longo ano de escuridão. E, de alguma forma, mesmo sem saber o meu próprio nome, sei que nada será como antes.







