Otávio Bosemberk

O prédio das Empresas Bosemberk, no coração do centro financeiro de São Paulo, não era apenas um endereço.

Era uma declaração.

Quarenta e dois andares de vidro e aço que se erguiam acima da paisagem urbana com aquela confiança silenciosa das coisas construídas para durar. Quem passava pela calçada em frente e erguia os olhos até o topo sentia algo — não exatamente intimidação, mas algo próximo disso. O reconhecimento involuntário de que havia ali uma solidez diferente da maioria, uma permanência que não dependia do humor do mercado ou da sorte de uma única temporada.

Era o monumento vivo ao que Otavio Bosemberk havia construído.

Não apenas com dinheiro — com decisões. Com recusas estratégicas nos momentos certos. Com a paciência de quem entende que legados não se constroem em trimestres.

Na sala de reuniões principal, no último andar, os executivos mais importantes da companhia aguardavam em silêncio ao redor da longa mesa de madeira escura. A luz da manhã entrava pelas janelas panorâmicas em ângulos oblíquos, desenhando retângulos luminosos sobre os documentos, os rostos, as mãos que tamborilavam levemente sobre a mesa enquanto aguardavam.

Ninguém falava. Não era por protocolo. Era porque quando Otavio Bosemberk estava prestes a entrar, havia algo no ar que tornava a conversa irrelevante. A porta se abriu. E ele entrou.

Alto, postura firme — não a rigidez artificial de quem aprendeu a se portar, mas a naturalidade de quem nunca precisou aprender porque sempre soube. Os cabelos grisalhos bem cuidados. O terno escuro com aquele corte que não chamava atenção mas que qualquer pessoa entendida notava. O olhar — aquele olhar que parecia atravessar não apenas as pessoas, mas as intenções por trás delas. Otavio caminhou até a cabeceira da mesa. Apoiou as mãos sobre a madeira. E o silêncio, que já era denso, tornou-se absoluto.

Ao seu lado, Verônica Bosemberk acompanhava o passo do pai com aquela presença que havia levado anos para ser compreendida pelos que trabalhavam com ela. Elegante no vestido de corte impecável — cinza-chumbo, sem excessos, o tipo que diz eu sei exatamente quem sou sem precisar anunciar. O tablet nas mãos, onde ela registrava com uma atenção que não era performática — era genuína, porque Verônica tinha a rara capacidade de estar completamente presente em qualquer ambiente que escolhia ocupar.

Havia executivos naquela mesa que, nos primeiros meses de trabalho com ela, haviam cometido o erro de subestimá-la. Não cometiam mais. Verônica era a CEO da sede brasileira das Empresas Bosemberk. E cada número daquela empresa passava, em algum momento, pelas mãos dela.

— Senhores — começou Otavio, com aquela voz que não precisava de volume para ocupar o espaço inteiro — este será um ano decisivo para as Empresas Bosemberk.

A tela atrás dele acendeu e a reunião iniciou, perdurou e correu muito bem com os anúncios realizados por Otavio sobre a empresa internacional e o crescimento do império da Bosemberk.

Em Nova York, Ricardo havia feito algo que poucos acreditavam possível no prazo em que aconteceu: transformou uma filial promissora em uma potência financeira que os concorrentes haviam parado de ignorar e começado a monitorar com atenção. Frio. Calculista. Com uma precisão nas negociações que desarmava até os mais experientes.

— Enquanto Ricardo consolida nossa posição nos Estados Unidos — continuou Otavio — Verônica continuará liderando as operações brasileiras com a excelência que já demonstrou ser sua marca.

Verônica ergueu o olhar brevemente.

Não buscava aprovação — há muito havia parado de precisar disso. Mas havia algo nas palavras do pai que ainda chegava até ela de um jeito diferente das palavras de qualquer outra pessoa. Não era elogio. Era reconhecimento. E esses eram animais completamente distintos. Ela baixou os olhos novamente para o tablet. E continuou trabalhando. A reunião durou mais de uma hora.

Quando os executivos começaram a sair — conversas animadas sobre projeções, sobre os próximos trimestres, sobre o que o retorno de Ricardo significava para a estratégia global — Verônica recolheu seus documentos com aquela eficiência silenciosa que era tão natural nela quanto respirar.

Caminhou pelos corredores até seu escritório. A sala tinha uma vista que ela havia aprendido a amar — São Paulo se espalhando em todas as direções, caótica e insistente e estranhamente bela a essa altura do dia, quando a luz ainda não tinha o peso branco do meio-dia. Ela fechou a porta. Tirou os sapatos de salto.

Ficou de pé no carpete por alguns segundos, sentindo o chão sob os pés, aquele pequeno ritual privado que ela nunca descrevia para ninguém mas que havia se tornado necessário entre uma coisa e outra. Respirou fundo. O trabalho sempre a ajudava.

Era a coisa mais honesta que ela sabia sobre si mesma — que havia aprendido, depois de Marcelo, a usar a empresa como âncora. Não como fuga, ela se dizia às vezes. Mas havia dias em que a linha entre as duas coisas era mais fina do que ela queria admitir. Marcelo...

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