Chegando em casa

O nome atravessou sua cabeça como sempre atravessava — sem aviso, como uma sombra que passa rápido mas deixa o ar levemente mais frio. Ela o havia amado de verdade. Com aquela entrega que ela raramente permitia, aquela abertura que custara anos para construir e que ela havia colocado nas mãos dele com uma confiança que, olhando para trás, a envergonhava pela ingenuidade, ela entregou o coração dela nas mãos erradas. E ele havia traído.

Não apenas com outra pessoa — isso teria sido apenas dor. Havia traído com indiferença. Com a desatenção de quem nunca precisou de verdade da coisa que possuía. E quando ela descobriu, o que mais feriu não foi a traição em si, mas a percepção de que ele nunca havia estado realmente ali — que durante anos ela havia amado uma versão que ele apresentava quando era conveniente. Ela estava tendo um outro relacionamento e com uma mulher de baixo escalão, não era financeiro mas de caracter ou a falta do caracter. O término havia sido inevitável. Marcelo não aceitara bem.

Havia tentado argumentar, negociar, culpá-la de maneiras que revelaram um caráter que ela havia se recusado a enxergar por tempo demais, ele apontava como se ela fosse a culpada por empurrar ele para os braços da Mel, como se a empresa da família dela fosse a culpada pela falta de conduta dele. Verônica havia terminado de vez e fechado aquela porta. E depois havia feito o que sabia fazer: trabalhou. Seu coração mergulhou em um profundo buraco de solidão, um muro de trabalho e se fechou emocionalmente.

Trabalhou tanto e tão bem que a empresa cresceu, os resultados apareceram, e ela acordava toda manhã com uma agenda que não deixava espaço para a solidão se instalar completamente. Funcionava. Na maior parte do tempo. Ela calçou os sapatos novamente e abriu o laptop. Havia trabalho esperando. Sempre havia.

Do outro lado do Atlântico — ou melhor, algumas horas antes de chegar no Brasil, porque o tempo funciona diferente quando você está em queda livre rumo a casa — Ricardo Bosemberk olhava pela janela do avião para o escuro lá fora. Nova York havia ficado para trás. Cinco anos, ele não sabia o que iria esperar ele em casa, mas sabia que havia feito o seu melhor como CEO na empresa nos Estados Unidos, ele sentia falta de Otavio, de Vera e da pequena Verônica.

Cinco anos naquela cidade que não pede desculpas pela sua intensidade, que te consome e te desafia e te molda de maneiras que você só percebe quando para de estar dentro dela. Ele havia chegado jovem e ambicioso. Curtiu momentos de muito prazer e de juízo dentro de Nova York. Voltava como outra coisa para a casa. Não necessariamente melhor — mais afiado. Como uma faca que passou por pedra suficiente vezes para saber exatamente o que pode cortar.

No mundo dos negócios, sua reputação era real e merecida — ele sabia disso sem arrogância, com a objetividade de quem avalia resultados. Suas decisões haviam sido, quase invariavelmente, corretas. E as poucas que não foram, ele havia corrigido antes que o dano se tornasse permanente. Nos círculos sociais, era outra conversa. Ricardo não se iludia sobre o que era nesse território.

As mulheres vinham — atraídas pelo nome, pelo dinheiro, pelo jeito que ele ocupava um ambiente. Ele não fingia que era mais do que era com nenhuma delas. Não prometia o que não tinha intenção de dar. E quando o interesse passava — e passava, invariavelmente, porque havia algo nele que não conseguia ficar por tempo suficiente para que qualquer coisa se aprofundasse — ele seguia em frente sem drama, ele buscava prazer e dava prazer a cada uma delas, e depois voltava a sua vida solteiro, calculista e frio. Era uma vida funcional. Satisfatória em superfície.

Mas havia algo — uma coisa pequena, que ele não examinava com frequência porque sabia que examinar certas coisas as torna maiores — que às vezes acordava às três da manhã no apartamento de Manhattan, olhava para o teto e sentia algo que não era solidão exatamente, mas que tinha a temperatura da solidão.

O avião começou a descida.

As luzes de São Paulo apareceram pela janela — aquele tapete luminoso e infinito que era, apesar de tudo e para sua surpresa, familiar de uma maneira que Nova York nunca havia sido. Ricardo encostou a cabeça no assento. Estou voltando para casa.

Ele conseguia reviver momentos de sua adolescência que sentia falta, ele queria ver sua família de criação e ver ela... no cemitério havia um caixão cujo nome é Camila Bastos, mãe biológica de Ricardo, ele lembrava-se dela, por mais que nunca tenha conversado com Otavio sobre ela, nem com Vera ou com Verônica.

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