CAPITULO 8

CAIM LEE

Porra… já tô caminhando um tempão, não sei ao certo quanto tempo se passou — talvez uns dez minutos, ou quem sabe mais — só sei que essa chuva não dá sinal de parar tão cedo, e eu já estou encharcado . A roupa agora pesa como chumbo, grudando na pele e fazendo cada movimento um esforço dobrado. Os tênis, que eu escolhi com tanto cuidado por serem resistentes, afundam na lama a cada passo.

Paro de repente, me encostando no tronco de uma árvore. Ergo o celular com a mão trêmula, tentando enxergar a tela fraca por entre os dedos molhados, e o que vejo me faz sentir um nó no estômago: ainda falta bastante, quilômetros ainda por percorrer dentro dessa floresta. A bateria já está pela metade.

Me agacho ali mesmo, na beira da trilha, e fico olhando para o nada, Merda. A vontade de dar meia-volta e correr de volta para o meu carro é quase irresistível. Fecho os olhos por um instante e me vejo na minha cama, o colchão macio, o cobertor quente, o silêncio seguro do meu apartamento apertado mas meu.

É onde eu deveria estar agora, descansando, esquecendo o mundo e suas confusões. Mas aqui estou eu: no meio do nada, dentro de uma floresta que parece não ter fim, debaixo dessa chuva . Se ao menos houvesse uma caverna, qualquer abrigo onde eu pudesse esperar a tempestade passar… mas não, tudo o que existe aqui é mato, barro e escuridão.

Além disso, depois de tudo o que eu já caminhei, de toda a determinação que eu reuni antes de sair de casa, não dá para simplesmente voltar atrás. Se eu desistir agora, é como se toda a minha investigação não tivessem valido de nada.

— Forças, Caim — sussurro para mim mesmo— Pense que no final tudo isso vai valer a pena. Pense na verdade que você vai descobrir, na história que ninguém mais teve coragem de contar.

Com o ânimo renovado por essa conversa comigo mesmo, levanto-me devagar, ajustando a mochila nos ombros, preparado para continuar a caminhada. Mas mal dou o primeiro passo e paro , o coração disparando no peito. Ouço um som nítido: o estalo seco de um galho quebrando-se sob um peso.

Aponto a lanterna em todas as direções, girando o corpo rapidamente, o feixe de luz  cortando a escuridão .

— Tem alguém aí? — grito, tentando fazer minha voz soar firme, mas o medo deixa um tremor evidente nas palavras.

A resposta é um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo vento que sopra entre os troncos e pelo bater incessante da chuva. Fico imóvel, ouvindo, esperando qualquer movimento. Nada. Então, olho para baixo e vejo, bem ao lado do meu pé, um galho partido que eu mesmo acabei de pisar.

Solto o ar, e passo a mão pelo rosto molhado, limpando a água que escorre pelos olhos.

— Porra, eu to muito nervoso… preciso me acalmar — murmuro, sentindo uma mistura de alívio e vergonha. A minha imaginação, somada ao cansaço e à tensão, já está me pregando peças.

Respiro fundo, e começo a andar mais rápido. Quer saber? Eu só vou chegar lá, confirmar o que está acontecendo, tirar umas fotos que provem a existência desse lugar e dessa pesquisa proibida, e depois vou embora. Ninguém precisa saber que eu estive aqui, ninguém vai me ver.

Enquanto Caim segue em frente, completamente alheio ao que se passa ao seu redor, a poucos metros, escondidos entre a vegetação densa e protegidos pela escuridão e pela chuva, dois homens observam cada um dos seus movimentos com atenção absoluta.

São os guardas designados para a ronda externa, homens treinados, e que conhecem cada palmo dessa floresta como a palma das suas mãos. Eles foram avisados pela central de segurança sobre a aproximação de um intruso, e agora, esperam apenas o momento certo para agir.

— Tô vendo ele ali — diz um deles, o homem conhecido como Falcão, falando em voz baixa perto do rádio de comunicação que leva preso ao peito. Ele ajusta o binóculo de visão noturna, observando a figura solitária que caminha lá embaixo. — É um homem pequeno, não passa de um metro e sessenta, magro, parece fraco. Não representa perigo nenhum.

— Ele está sozinho? — pergunta o seu companheiro, uma figura enorme, de ombros largos e expressão fechada, que se mantém encolhido atrás de uma grande árvore.

— Sim, está. Não tem ninguém mais com ele, nenhum equipamento além dessa lanterna tosca e uma mochila velha — responde Falcão, deixando escapar um sorriso de desprezo.

— Então é fácil. Vamos fechar o cerco devagar, sem fazer barulho, sem assustar a presa antes da hora. Que comece a caçada.

Ele diz isso com um ar divertido, como se o que estivessem prestes a fazer fosse apenas um jogo, uma brincadeira para passar o tempo. Para eles, Caim não é nada mais do que um intruso, um inseto que invadiu o território proibido e que agora vai ser apanhado e levado para a doutora Helga, que com certeza saberá o que fazer com ele.

Enquanto isso, eu continuo andando, mas desde o momento em que ouvi o tal galho quebrado, uma sensação ruim não sai de mim. É um mal pressentimento, uma certeza estranha de que não estou sozinho, de que estou sendo observado por olhos invisíveis . O coração b**e mais forte, acelerado, e cada som diferente me faz parar e olhar ao redor, alerta.

De repente, paro no meio da trilha,e aponto a lanterna em todas as direções novamente, o feixe de luz tremendo junto com a minha mão. Com toda a pouca coragem que ainda me resta, resolvo enfrentar o que quer que esteja me observando.

— EU SEI QUE TEM ALGUÉM AÍ, APARECE! — grito, com toda a força, tentando fazer a minha voz soar mais alta e mais forte do que o barulho da chuva que cai sem parar.

Falcão faz um sinal rápido com a mão para o seu companheiro, um gesto seco e curto que significa: agora. Num movimento quase imperceptível, os dois saem da cobertura da mata, avançando silenciosamente, como sombras na escuridão.

Antes que eu possa sequer pensar em me mover, sinto um impacto forte nas costas, e o meu corpo é lançado violentamente para frente, caindo de cara na lama . Tudo acontece tão rápido que eu nem entendo direito o que se passa.

Só então percebo que há um homem enorme em cima de mim, pesado como uma montanha, todo o seu peso pressionando o meu corpo contra o chão úmido. Ele é grande, muito maior do que eu, e tem uma força descomunal, que eu não tenho a menor chance de vencer. Ele me segura com as mãos grossas e ásperas, apertando o meu rosto contra a terra, fazendo com que eu engasgue com a água e a sujeira que entram pela boca e nariz.

Mesmo imobilizado, com o peito sendo esmagado, eu me debato com todas as forças que ainda tenho, tentando me soltar, tentando me virar para ver quem é que está me atacando.

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