CAPITULO 9

CAIM LEE

— ME SOLTA, PORRA! — grito, a voz abafada pela lama, enquanto ele segura os meus pulsos com uma força que parece querer quebrar os meus ossos.

Ouço então uma segunda voz, vinda de perto, percebendo que esse homem não está sozinho. Tem outro cara ali, parado ao lado, tão grande e tão assustador quanto o primeiro, observando tudo com calma.

— FICA QUIETO, PORRA, SE NÃO QUISER SE MACHUCAR DE VERDADE — rosna o segundo guarda, a voz grave e sem nenhuma piedade.

Sinto o coração disparado, a adrenalina correndo nas minhas veias, uma mistura de medo  e desespero. Tento lutar, me contorcer, usar qualquer movimento para me livrar daquele aperto, mas é inútil. Eles são fortes demais.

— Quem são vocês? O que querem comigo? — pergunto, com dificuldade, entre ofegos.

O homem que está em cima de mim solta uma risada curta e fria, perto do meu ouvido.

— Aqui somos nós que fazemos as perguntas, seu ratinho imundo — responde ele, com desdém.

Num gesto de desespero total, sem saber mais o que fazer, viro o rosto o máximo que consigo e mordo a mão que me segura o queixo, cravando os dentes com toda a força que me resta. O homem solta um grunhido de dor e, por um segundo, afrouxa o aperto.

É a minha única chance, mas  antes que eu consiga sequer rastejar para longe, sinto uma dor  na lateral da cabeça. É como se tivessem partido um pedaço de madeira pesada contra o meu crânio. Levo uma coronhada forte, que me faz ver estrelas e me leva de cara novamente para a lama, dessa vez sem forças para me mover.

— Anda logo, para de enrolar — reclama o segundo guarda, impaciente. — Coloca a coleira nele. Tá chovendo para caramba, eu não quero ficar a noite toda aqui no meio dessa porcaria.

De forma ágil e rápida, como se já tivessem feito isso milhares de vezes, o guarda pega um objeto que estava preso ao seu cinto: uma coleira larga com aparência metálica. Ele a coloca ao redor do meu pescoço e fecha o fecho com um clique seco e definitivo.

Eu nem percebo o momento exato em que ele faz isso, pois a dor na minha cabeça é tão grande que já me tira quase toda a consciência. Além disso, começo a sentir um cheiro forte de sangue que se mistura com o cheiro de terra molhada. Será que é meu sangue? Provavelmente sim.

Eu realmente não estou conseguindo pensar direito. A pancada foi muito forte, e a minha mente começa a ficar confusa, as imagens ao meu redor se embaralhando, as vozes dos homens parecendo vir de muito longe.

Num último gesto de desespero, antes que tudo escureça, tento levar as mãos ao pescoço, para tirar aquela coisa estranha que me prende. Mas no momento em que eu forço a retirada, recebo uma descarga elétrica violenta, que percorre todo o meu corpo da cabeça aos pés. É uma dor que eu nunca senti antes, algo que queima, que corta, que parece querer separar cada músculo e cada nervo do meu corpo.

Tento gritar, mas a voz não sai, presa na garganta. Lágrimas escorrem dos meus olhos, misturando-se com a chuva que não para de cair, e a sensação que tenho, nesse momento, é a de que vou morrer ali mesmo, sozinho e esquecido. A dor é tão intensa que os meus músculos se contraem involuntariamente, e eu entro em convulsão, os olhos revirando, até que tudo fica preto e eu desmaio, completamente apagado.

— Olha só, ele está espumando pela boca — diz Falcão, rindo alto enquanto se agacha ao lado do corpo inerte de Caim, observando a cena como se fosse uma piada. — E os olhos dele, meu Deus, parecem bolinhas de gude, todo revirado. Que figura patética.

— Cala a boca, merda — resmunga o seu companheiro, limpando a mão na roupa, visivelmente enojado. — Quem irá carregar esse corpo todo vomitado e mijado sou eu. Isso é nojento.

— Pronto, já apagou — avisa Falcão, conferindo os sinais vitais. Ele b**e de leve no rosto do repórter, sem resposta. — O ratinho está vivo, só desacordado. Que pena, acabou a diversão.

Ele pega o rádio e aperta o botão de transmissão, a voz voltando a ser profissional e seca.

— QRA — aqui é o Falcão. Já pegamos o intruso, está dominado e contido.

Do outro lado, a voz do vigilante da cabine retorna rapidamente:

— QAP — Na escuta. Ele está consciente? Resistiu muito?

— Negativo. Apagou mas está estável, sem ferimentos graves — responde Falcão, puxando a coleira que está no pescoço de Caim como se ele fosse um animal. — Pode mandar abrir os portões.

— Perfeito. Tragam ele diretamente para dentro, mas com cuidado. A doutora Helga deixou ordens claras: quer ele inteiro e vivo.

— Entendido, indo já. Câmbio.

O companheiro de Falcão se agacha, passa os braços fortes por baixo do corpo de Caim e o levanta do chão com facilidade, como se ele não pesasse nada mais do que um saco de batatas. A cabeça do repórter balança para um lado e para o outro, inerte, enquanto o homem o carrega, caminhando de volta pela trilha enlameada.

— Sério… o que será que esse cara tava pensando? — pergunta o homem que carrega Caim, balançando a cabeça, ainda confuso com a audácia de alguém em invadir um lugar desses sozinho e sem preparo.

— Seja lá o que for, deu muito errado para ele — responde Falcão, andando ao lado, com as mãos nos bolsos, indiferente. — Agora ele tá metido numa confusão que não tem ideia do tamanho. Se fudeu, e muito.

Quando os dois guardas chegam finalmente à guarita de segurança principal do complexo, os sensores detectam a sua aproximação e o enorme portão começa a se abrir lentamente.

— Anda logo, cara, entra de uma vez — grita o guarda que está dentro da guarita, fazendo um sinal com a mão, impaciente.

— Tô entrando, tô entrando, seu estressadinho — resmunga Falcão, passando pelo portão.

— Não é você que tá tendo que carregar esse peso morto debaixo dessa chuva desgraçada — reclama o que leva Caim nos braços, ofegante, apesar da força que demonstra.

— Não reclama, tu é chato para caralho — zomba Falcão, dando um empurrão de leve nas costas do amigo.

Assim que os guardas atravessam a barreira de segurança, adentrando o território proibido e oculto, são levados diretamente para o coração da instalação: o prédio principal do laboratório, onde luzes brancas e frias brilham por trás de janelas escuras.

Lá dentro, no centro de uma sala ampla, cheia de equipamentos tecnológicos,a Doutora Helga  os espera de pé, com as mãos cruzadas atrás do corpo, a postura ereta e os olhos frios brilhando de curiosidade e ansiedade. Ela quer saber quem é esse homem que ousou desafiar tudo e todos para chegar até aqui, e principalmente, o que ele sabe sobre os segredos que ea guarda a sete chaves.

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