CAPÍTULO 3

POV: Chiara

Como filha de uma família de classe média, eu aprendi cedo que o valor de uma pessoa não está no que ela ostenta, mas na força do seu trabalho. Meus pais foram aquele tipo de casal de cinema: apaixonaram-se jovens, intensos e cheios de planos. Minha mãe engravidou de mim ainda adolescente, um susto que eles transformaram em esperança. Mas a vida pode ser cruel em sua brevidade. Ela teve complicações graves no parto e partiu logo depois que eu dei meu primeiro suspiro.

Cresci vendo meu pai, Marco, dobrar turnos e sacrificar noites de sono para garantir que nunca faltasse comida na mesa ou amor dentro de casa. Ele superou o luto e as dificuldades financeiras, dando-me uma vida digna. Hoje, aos 26 anos, o jogo virou. É a minha vez de ser o pilar. Meu pai está muito doente, e a necessidade de pagar o tratamento e manter nossa casa me trouxe ao meu emprego atual: secretária administrativa em uma das maiores empresas de tecnologia de Milão. Sou dedicada, focada e chego a ser metódica. Eu preciso desse emprego tanto quanto preciso de ar.

O cheiro de café fresco preenchia a pequena cafeteria, misturado ao som suave de risadas matinais e o tilintar de porcelana. Era um ambiente simples, aconchegante e, acima de tudo, seguro. Eu gostava do que era normal. O luxo exagerado sempre me pareceu um palco para pessoas vazias.

— Você vai se atrasar de novo — Giulia disse, apoiando o queixo na mão enquanto me observava morder um pedaço do meu croissant.

— Eu só me atrasei uma vez na vida, Giulia. Eu sou a definição de pontualidade — respondi com um sorriso leve, tentando disfarçar as olheiras que a maquiagem não conseguia esconder totalmente. — Faz parte da minha personalidade ser organizada.

Giulia revirou os olhos, soltando uma risadinha debochada.

— Isso não é personalidade, Chiara. Isso é um milagre de desorganização que você tenta esconder.

— Ei! Eu só me atrasei aquela vez. Ainda bem que você não é meu chefe, senão eu estaria frita.

Ri. Foi um riso verdadeiro, livre, um dos poucos momentos de leveza que eu me permitia ter ultimamente. Mas o peso no meu peito voltou logo em seguida.

— Só estou cansada, sabe? Passei a noite no hospital com meu pai. Dormi muito pouco naquelas poltronas desconfortáveis, por isso quase perdi o horário hoje — falei, dando um gole longo na xícara de café, esperando que a cafeína fizesse algum milagre nas minhas sinapses.

— Eu imagino, amiga. Já tem previsão de alta? — O tom dela suavizou, cheio de preocupação real.

— O médico disse que, se os exames continuarem estáveis, em uma semana ele pode voltar para casa. Estou pedindo a Deus que isso aconteça logo. A rotina de trabalho e hospital é difícil. Estou exausta.

— Você deveria sair mais — Giulia continuou, mudando de assunto para tentar me animar. — Conhecer alguém, viver um pouco além dessas paredes de hospital e escritório...

— Eu vivo, Giulia — rebati, divertida, guardando o restante do croissant.

— Não, você existe — ela provocou, com um olhar sério. — Tem uma diferença enorme entre as duas coisas.

Antes que eu pudesse elaborar uma defesa, meu celular vibrou sobre a mesa, iluminando a tela. Olhei a hora e meu coração deu um salto. Se eu não corresse agora, minha "personalidade pontual" seria destruída novamente.

— Eu preciso ir! — disse, já me levantando e pegando minha bolsa às pressas.

Minutos depois, eu caminhava rápido pela calçada. O vento frio de Milão bagunçava meus cabelos e batia contra meu rosto, mas eu mal sentia. Cada passo parecia mais urgente, o coração batendo no ritmo da minha pressa. Eu não podia dar motivos para ser notada negativamente.

Horas mais tarde, eu já estava mergulhada em planilhas e e-mails. O sol da tarde bateu em algo lá fora, lançando um reflexo brilhante que atravessou a janela do escritório. Desviei o foco do computador por um segundo e vi um Mercedes preto, impecavelmente polido, estacionar em frente ao prédio.

Eu não entendia muito de carros, mas era óbvio que aquele veículo não era um dos modelos "normais" que se via circulando pela Itália. Ele tinha uma presença intimidadora, quase predatória.

E eu não precisei ver o motorista para saber quem estava ao volante. Meus batimentos cardíacos aceleraram instantaneamente. Eu já tinha visto aquele carro antes... Alguns meses atrás. Naquele dia, percebi que, involuntariamente, eu compararia todos os homens do mundo a ele, e todos pareceriam sombras pálidas em comparação.

Massimo.

Eu nunca tinha chegado a falar com ele diretamente quando ele veio ao escritório meses atrás. Eu era apenas a secretária ao fundo da sala. Mas eu ouvi sua voz. Uma voz tão profunda e rica que, mesmo agora, ela ecoava na minha cabeça como uma carícia proibida. Naquele dia, o som da voz dele pareceu perfurar o barulho ambiente e causar um aperto estranho no meu estômago.

A única coisa que eu sabia sobre ele, além do seu primeiro nome, era que ele era dono de uma parte significativa da empresa e que vinha ocasionalmente para analisar números e tendências.

Fiquei estática. Minhas mãos pairaram sobre o teclado, congeladas no meio de uma frase. Meus olhos pareciam imensos enquanto eu observava, através do vidro, a porta do motorista se abrir.

Ele saiu do carro. Todos os seus membros eram longos, fortes e estavam cobertos por um terno escuro que parecia ter sido costurado sobre seu corpo. Ele era absurdamente alto, muito além de um metro e noventa. O sol batia em seu cabelo, fazendo-o brilhar enquanto ele fechava a porta com um movimento firme. Ele usava óculos escuros, escondendo os olhos, mas não conseguia esconder a aura de autoridade absoluta que o cercava. Ele não andava; ele dominava o espaço.

De onde eu estava, vi quando ele entrou no saguão e encontrou Orion, o supervisor da unidade. Orion, que geralmente era um homem arrogante com todos nós, parecia subitamente ansioso, quase pequeno ao lado de Massimo. Eles trocaram poucas palavras e Orion o conduziu imediatamente para a sala de conferência, desaparecendo pelo corredor.

Soltei o ar que nem percebi que estava segurando. Minhas mãos tremiam levemente. Eu tentei voltar ao trabalho, mas a tela do computador parecia borrada. Massimo estava de volta. E, por algum motivo que eu não conseguia explicar, eu sentia que o ar no escritório tinha acabado de se tornar muito mais pesado.

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