Marcas do passado
Marcas do passado
Por: Choryah
Carlos Hernandes

Voltar para aquele país foi a última coisa que eu quis fazer.

Mesmo assim, ali estava eu, sentada no banco traseiro de um carro enquanto observava as luzes da cidade através da janela molhada pela chuva. Fazia dez anos desde a última vez que coloquei os pés naquele lugar e, ainda assim, tudo parecia assustadoramente familiar.

As ruas.

Os prédios.

O céu escuro antes da tempestade.

Meu peito apertou de repente. Fechei os olhos por um instante, tentando ignorar a sensação estranha que me acompanhava desde que o avião pousou. Talvez fosse apenas nervosismo. Ou talvez porque algumas feridas nunca desaparecem completamente.

Meu celular vibrou sobre meu colo.

“Você precisa ir ao evento esta noite.”

Revirei os olhos ao ler a mensagem do meu pai. Nem doente ele conseguia esquecer os negócios.

“Pai, eu acabei de chegar.”

A resposta veio segundos depois.

“Carlos Hernandes estará lá.”

Soltei um pequeno suspiro cansado. Nos últimos meses aquele nome parecia me perseguir.

Carlos Hernandes.

O empresário milionário que transformou uma pequena rede de hotéis em um império internacional em menos de dez anos. O homem que todos queriam como parceiro. Inclusive meu pai.

Desde que os hotéis Miller começaram a enfrentar problemas financeiros, ele parecia obcecado pela ideia de conseguir um investimento daquele homem.

“Você precisa chamar a atenção dele.”

Franzi a testa imediatamente.

Como se fosse simples chamar atenção de alguém como Carlos Hernandes.

Guardei o celular na bolsa e voltei a olhar para fora. A chuva aumentava lá fora, deslizando lentamente pelo vidro do carro. Foi então que a dor veio.

Uma pontada forte atravessou minha cabeça tão rápido que precisei fechar os olhos novamente.

E então o clarão surgiu em minha mente.

Faróis fortes.

Chuva.

Vidro quebrando.

Uma voz feminina fraca atravessou tudo como um sussurro:

“Ana… me desculpa.”

Minha respiração falhou.

Abri os olhos imediatamente e levei a mão até a testa enquanto tentava recuperar o ar.

Droga.

Outra vez.

— Senhorita, chegamos.

A voz do motorista me trouxe de volta à realidade.

Respirei fundo antes de sair do carro.

O Imperial Palace parecia ainda maior pessoalmente. Luxuoso, imponente e frio. O tipo de lugar frequentado por pessoas importantes. O tipo de lugar onde eu claramente não queria estar.

Assim que entrei no saguão, senti dezenas de olhares discretos se voltarem para mim. Empresários circulavam pelo hotel enquanto jornalistas organizavam câmeras perto da entrada principal. O evento daquela noite claramente seria maior do que imaginei.

Peguei a chave do quarto na recepção e subi imediatamente.

Tudo que eu queria naquele momento era um banho quente e algumas horas de descanso antes daquela maldita festa.

Mas descansar se tornou impossível.

Assim que fechei os olhos, as imagens voltaram com força.

O som da chuva.

Pneus deslizando no asfalto molhado.

Sangue.

Meu coração disparou antes mesmo que eu despertasse completamente. Sentei na cama ofegante enquanto tentava recuperar o ar.

A mesma sensação sufocante de sempre.

Os mesmos sonhos fragmentados.

Desde a morte da minha irmã, aqueles pesadelos nunca desapareceram completamente. Mas voltar para aquele país parecia ter despertado coisas que deveriam continuar enterradas.

Passei as mãos pelo rosto molhado de suor antes de me levantar.

Um banho.

Eu precisava urgentemente de um banho.

Uma hora depois, eu encarava meu reflexo no espelho tentando reunir coragem para descer.

O vestido preto moldava perfeitamente meu corpo, mas nem isso era suficiente para diminuir meu desconforto. Eu odiava eventos empresariais. Pessoas falsas. Sorrisos falsos. Conversas falsas.

Respirei fundo antes de pegar minha bolsa.

Só precisava sobreviver aquela noite.

O salão do Imperial Palace estava lotado. Garçons circulavam entre empresários importantes carregando bandejas de champanhe enquanto flashes de câmeras iluminavam o ambiente luxuoso.

Meu desconforto aumentou imediatamente.

Talvez voltar tivesse sido um erro.

Peguei uma taça apenas para ocupar minhas mãos nervosas e comecei a procurar meu pai entre as pessoas.

Foi então que ouvi alguém comentar atrás de mim:

— Carlos Hernandes acabou de chegar.

Meu corpo ficou tenso sem motivo aparente.

Olhei automaticamente em direção à entrada principal.

E o vi.

Alto e elegante, ele atravessava o salão cercado por empresários importantes como se fosse dono de tudo ao redor. Havia algo absurdamente frio na forma como se movia. Controlado. Intenso. O tipo de homem que fazia as pessoas abrirem caminho sem que ele precisasse pedir.

Meu estômago se apertou estranhamente quando seus olhos encontraram os meus do outro lado do salão.

E ele não desviou.

Pelo contrário.

Continuou olhando diretamente para mim.

Meu coração acelerou sem explicação.

Eu nunca tinha visto aquele homem antes.

Então por que parecia que alguma coisa dentro de mim o reconhecia?

Tentei ignorar a sensação e desviei os olhos rapidamente.

Ridículo.

Era apenas nervosismo.

Mas quando voltei a olhar…

Ele estava vindo na minha direção.

Passo por passo.

Calmo.

Seguro.

Meu coração começou a bater ainda mais forte. Talvez pela forma intensa como ele me observava. Ou talvez porque, pela primeira vez naquela noite, eu tive medo.

Ele parou diante de mim.

Perto o suficiente para que eu sentisse o perfume amadeirado que usava. Perto o suficiente para que meu corpo inteiro ficasse tenso.

Os olhos escuros percorreram lentamente meu rosto antes de finalmente encontrarem os meus olhos outra vez.

Então ele sorriu.

Mas não havia nada de gentil naquele sorriso.

— Senhorita Miller — sua voz grave atravessou meu peito como um aviso. — Estava ansioso para conhecê-la.

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