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A buquê de rosas brancas

— Já nos conhecemos? — perguntou, tentando lembrar se já o tinha visto antes.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Desculpe. — O canto da boca se moveu de leve. — Mas não é difícil reconhecer um Miller. Seu pai era muito conhecido no ramo da hotelaria. Eu costumava assistir às entrevistas que ele dava.

Ana piscou, surpresa.

Por um instante, a tensão nos ombros diminuiu.

— Meu pai vai gostar de ouvir isso. — respondeu com um sorriso pequeno.

O celular vibrou dentro da bolsa.

Ela baixou o olhar e levou a mão até o fecho, mas parou quando ouviu a voz dele.

— Licença.

Carlos se inclinou para pegar uma taça da bandeja do garçom logo atrás dela.

O ombro dele tocou o dela de leve.

Ana acompanhou o movimento sem perceber.

Sentiu o corpo prender por um segundo quando ele passou perto demais.

De perto, ele parecia ainda mais alto. A linha marcada da mandíbula, o perfume amadeirado, o movimento lento da garganta quando levou a bebida aos lábios.

Ela demorou um instante para perceber que ainda estava olhando.

Então Carlos se afastou outra vez.

Ana ajeitou a bolsa no ombro, tentando recuperar o foco.

Não tinha ido até ali para ficar nervosa por causa de um homem.

— Senhor Hernandes, eu queria conversar sobre uma possível parceria entre...

— Também me lembro do acidente.

A frase cortou o restante das palavras.

Ela ficou imóvel.

Carlos tomou um gole tranquilo do champanhe.

— Vi a reportagem na época. Foi um milagre você sobreviver. — Ele fez uma breve pausa. — Imagino que não tenha sido fácil perder sua irmã... e saber que a motorista do outro carro também morreu.

Os dedos de Ana apertaram a alça da bolsa automaticamente.

Havia passado dez anos e ninguém falava sobre aquilo.

Nem mesmo dentro da própria família.

— Ainda mais quando era você quem estava dirigindo. — completou.

Ana sentiu o peito travar.

Desviou o olhar primeiro.

A música do salão parecia distante agora.

Por um segundo, voltou a sentir o cheiro de gasolina e ouvir metal sendo esmagado.

Ela engoliu em seco antes de responder.

— Realmente foi um milagre. — A voz saiu mais baixa do que pretendia. — Mas o senhor está enganado em uma coisa.

Ela ergueu os olhos de volta para ele.

Dessa vez, sustentou o olhar.

— Não era eu quem estava dirigindo naquela noite. Era minha irmã.

O silêncio veio tão rápido que pareceu estranho.

A mudança no rosto dele foi pequena, mas ela viu.

O maxilar endureceu.

Os olhos permaneceram nela, imóveis demais.

Ana franziu levemente a testa.

Como se aquela reação não combinasse com a conversa.

Então o som seco do vidro quebrando a fez se assustar.

Ela deu um passo para trás antes mesmo de perceber.

A taça havia se partido dentro da mão dele.

O champanhe escorria entre os dedos misturado ao sangue, mas Carlos parecia nem perceber.

Continuava olhando para ela como se tentasse entender o que acabara de ouvir.

Ana sentiu um arrepio subir pelos braços.

Aquilo não era uma reação normal.

— Carlos. — Marcos chamou.

Nenhuma reação.

Ana alternou o olhar entre os dois, confusa.

— Carlos.

Dessa vez Marcos se aproximou rapidamente, entrando discretamente entre eles enquanto pegava um lenço com um dos garçons.

Só então Carlos piscou.

Como se tivesse voltado tarde demais para a própria expressão.

Pegou o lenço da mão de Marcos e pressionou contra a palma ferida.

— Me desculpe. — A voz estava controlada outra vez. — Acho que a taça estava com defeito.

Ana quase perguntou se ele estava bem.

Mas a pergunta morreu antes de sair.

— Carlos, o presidente do grupo Will quer falar com você. — Marcos mentiu sem alterar o tom.

Carlos fechou a mão ferida com força antes de olhar para ele.

— Tem algum cartão? Acho que deixei os meus no quarto.

Marcos tirou um cartão do bolso e entregou.

Carlos segurou o cartão por alguns segundos antes de estendê-lo para Ana.

— Me ligue. Tenho interesse em conversar sobre negócios com seu pai.

Ana pegou o cartão devagar.

Os dedos dele ainda estavam manchados de sangue.

Mesmo assim, ela não desviou os olhos dele.

Carlos se afastou.

Com o cartão ainda nas mãos, Ana decidiu que deveria ir embora.

O salão continuava cheio e barulhento, mas ela já não conseguia prestar atenção em mais nada.

A reação dele ainda martelava na sua cabeça.

Minutos depois, já dentro do carro, pegou o celular e ligou para o pai.

A chamada foi atendida rapidamente.

— Pai, eu consegui o cartão de contato dele... ele disse para ligar depois.

Do outro lado da linha, o pai soltou um suspiro aliviado.

— Fico feliz, minha filha... tenho medo de partir e deixar os negócios cheios de problemas.

Ana fechou os olhos por um instante.

— Pai, não fala assim... — respondeu baixo antes de hesitar por alguns segundos. — E minha mãe? Quando poderei vê-la?

Houve uma pequena pausa.

— Quando ela estiver melhor. — respondeu.

Ana desviou o olhar para a janela do carro.

As luzes da cidade passavam borradas do lado de fora.

— Pai... já faz dez anos. Às vezes tenho a sensação de que não perdi só a minha irmã naquele acidente... perdi a minha mãe também.

O silêncio do outro lado pareceu ainda mais cansado.

— Você sabe que a mente da sua mãe não ficou boa desde então... só tenha um pouco mais de paciência.

Ana abaixou os olhos lentamente.

Os dedos apertaram o cartão de Carlos dentro da bolsa.

Sem perceber, a imagem dele voltou à sua cabeça outra vez.

O olhar parado.

A taça quebrando na própria mão.

— Que expressão era aquela? — se perguntou em voz baixa.

Na manhã seguinte, Ana acordou se sentindo péssima.

O corpo inteiro doía, como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Ela soltou um resmungo ao se sentar na cama e levou a mão até o pescoço dolorido.

Provavelmente tensão.

Ou nervosismo demais para uma única noite.

Depois de um banho rápido, abriu a mala em cima da cama para procurar uma roupa limpa.

Ainda não sabia quanto tempo ficaria naquele apartamento.

Mas havia uma coisa da qual tinha certeza:

Não voltaria para casa tão cedo.

Enquanto afastava algumas peças de roupa, uma fotografia caiu no chão.

Ela se abaixou para pegá-la, mas ficou parada por alguns segundos.

Era uma foto antiga dela com Isabel.

As duas sorriam abraçadas para a câmera, sem imaginar como tudo terminaria.

Os olhos de Ana arderam imediatamente.

Durante anos evitou qualquer coisa que a fizesse lembrar da irmã. Fotos, vídeos e até o nome.

Mas aquela fotografia continuou com ela.

Foi a única coisa que levou quando deixou o país.

— Onde você está? — perguntou em voz baixa. — Será que está bem?

As lágrimas caíram antes que ela percebesse.

Ana fechou os olhos por um instante.

— Talvez eu devesse te visitar.

Mais tarde, Ana passou em uma floricultura e comprou um buquê com dez rosas brancas, as preferidas da irmã. Uma para cada ano que passou longe.

O táxi parou em frente ao cemitério.

Ela desceu devagar, segurando as flores contra o peito enquanto encarava os portões de ferro.

Durante dez anos evitou aquele lugar.

Nem mesmo no velório teve coragem de aparecer.

Ana respirou fundo e começou a caminhar, como se o corpo estivesse indo, mas a mente não.

Foi quando alguém saiu pelo portão.

Ela não conseguiu desviar.

O impacto foi leve, mas suficiente para as flores caírem no chão.

— Desculpa… — disse, se abaixando para pegar o buquê.

Uma flor de jasmim também havia caído.

Ela a pegou e se levantou para entregar, mas o corpo não obedeceu.

— Senhor Hernandes…

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