Mundo de ficçãoIniciar sessãoCarlos entrou na suíte sem dizer uma palavra.
A porta bateu atrás dele e, antes mesmo que Marcos pudesse dizer qualquer coisa, as chaves do carro, o celular e a carteira foram parar sobre a mesa de centro com força suficiente para fazer o vidro estremecer. — Que porra foi aquela? — Marcos perguntou. — Não sei do que você está falando — Carlos respondeu afrouxando a gravata enquanto atravessava a sala. — Ah, sabe sim. — Marcos soltou uma risada sem humor. — Você quebrou uma taça na própria mão — Comentou ainda incrédulo. Carlos ignorou o comentário e entrou no banheiro. Ele abriu a torneira e colocou a mão sob a água corrente. Os cortes arderam imediatamente, mas aquilo não era nada comparado à raiva que sentia. — Ela mentiu. — Murmurava para si mesmo. Marcos encostou no batente da porta. — E você esperava outra versão que não fosse essa? — Não foi a história que me irritou. — Disse Carlos erguendo os olhos para o espelho. A imagem de Ana surgiu novamente em sua mente. A forma como ela sustentou o olhar, a tranquilidade absurda, como se realmente tivesse falando a verdade. — Foi a cara de pau. — Ele continuou. — Carlos... — Ela não hesitou nem por um segundo. — Sua voz endureceu. — Nem um maldito segundo. Marcos permaneceu calado. — Pessoas arrependidas demonstram alguma coisa. Medo. Culpa. Qualquer merda. Mas ela não… — Ele fechou a torneira com força. — Ela me olhou nos olhos e mentiu como se tivesse ensaiado aquilo a vida inteira. — Ou talvez esteja falando a verdade. — Marcos disse sem pensar. O olhar que Carlos lançou para ele foi suficiente para encerrar o assunto. — Nem você acredita nisso. Marcos soltou um suspiro cansado. Na verdade, não sabia mais no que acreditar. Mas conhecia Carlos o suficiente para saber que aquele não era o momento para discutir. Carlos pegou as chaves sobre a bancada. — Para onde você vai? — Perguntou Marcos. — Resolver algumas coisas. — Me diz como você vai seduzir essa mulher se não consegue nem ficar perto dela? Sem responder, passou por Marcos e saiu da suíte. A chuva já havia diminuído quando Carlos estacionou em frente a uma pequena floricultura. Por alguns segundos permaneceu sentado dentro do carro, observando a vitrine iluminada. O primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi que Sara iria adorar aquele lugar. Ela sempre falava sobre flores e em como era seu sonho um dia abrir a própria floricultura. Na época ele costumava rir e dizer que aquilo era um péssimo negócio. Ela sempre respondia que não precisava ficar rica. Só queria passar os dias cercada por flores. Carlos fechou os olhos por um instante, mesmo depois de dez anos ainda era capaz de se lembrar do som das suas risadas. Ele saiu do carro antes que as lembranças o levassem longe demais. O sino preso à porta anunciou sua entrada. Uma senhora que organizava alguns vasos atrás do balcão ergueu a cabeça e sorriu. — Bom dia. Carlos retribuiu com um aceno discreto. Seu olhar percorreu o ambiente até encontrar o que procurava. Jasmim… — Vou levar aquele buquê, por favor. A senhora acompanhou seu olhar e pegou as flores. — Belo gosto. Carlos observou as pequenas flores brancas sendo acomodadas no papel decorado. — O jasmim costuma simbolizar amor verdadeiro. Disse a senhora lhe entregando o buquê. Um sorriso amargo surgiu em seus lábios. — Eu sei... Minutos depois, ele estava parado em frente a entrada do cemitério. O local estava vazio e os portões mais enferrujados do que da última vez em que esteve lá. Seus passos já conheciam o caminho de cor. Não precisava pensar, só ir. Anos repetindo o mesmo trajeto, sempre com a mesma esperança silenciosa de que, de algum jeito, aquilo não fosse verdade. Mas era. Ele sempre parava diante da lápide. O nome de Sara estava ali, gravado na pedra e a foto completava o que ele ainda tentava negar. Carlos permaneceu imóvel por alguns segundos e logo depois colocou as flores com cuidado sobre a pedra. — Oi, amor — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. Passou os dedos pela fotografia presa à lápide e soltou um pequeno suspiro. — Finalmente encontrei ela. O maxilar endureceu imediatamente. A imagem de Ana surgiu em sua mente. — Demorei mais tempo do que prometi — Continuou. Seus olhos permaneceram fixos na fotografia. — Eu vou fazer ela pagar… todos eles vão pagar Aquela promessa o acompanhava havia anos. Era a única coisa que ainda o mantinha de pé em alguns dias. — Vou tirar tudo dela. Sua voz saiu mais dura. — Da mesma forma que tiraram você de mim. Permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois ajeitou uma das flores que havia se soltado do arranjo. — Não importa quanto tempo leve. Seu olhar escureceu e o ódio já o dominava outra vez. — Eu vou acabar com a vida dela. Um nó se formou em sua garganta e antes que pudesse derramar algumas lágrimas virou as costas para a lápide e começou a caminhar em direção à saída. Carlos já estava próximo aos portões quando alguém esbarrou em seu ombro. O impacto foi leve, mas suficiente para fazer algumas flores caírem no chão. — Me desculpe. — Ressoou uma voz familiar. Ele ergueu seus olhos já sabendo exatamente quem era, pois a reconheceria mesmo em meio a uma multidão. Ana. Por um instante ela pareceu tão surpresa quanto ele. — Senhor Hernandes... Os dois se abaixaram quase ao mesmo tempo para recolher as flores. Uma das rosas brancas do buquê dela rolou para perto dos pés de Carlos. Ana a pegou rapidamente e se levantou. — Desculpa… estava distraída. Carlos apenas a observou. Ela segurava um buquê de rosas brancas contra o peito. O mesmo tipo de flores que costumavam ser levadas para velórios. Aquilo fez seu sangue ferver. — Tudo bem — respondeu. Ana fez um pequeno aceno e seguiu em direção ao interior do cemitério. Carlos continuou parado, observando. Ela caminhou por alguns metros, diminuiu os passos e parou. Permaneceu imóvel por alguns segundos, virou as costas e retornou pelo mesmo caminho. A expressão que estava em seu rosto parecia de alguém que estava distante, perdida em seus próprios pensamentos. Como alguém que tinha reunido coragem para fazer alguma coisa e fracassado. Carlos ficou parado, encostado no carro, olhando de longe. Quando viu a cena, o sorriso veio meio torto, sem pressa, como quem reconhece uma brecha que não aparece duas vezes. Era isso. A chance que ele precisava para começar a transformar a vida de Ana em um inferno na terra. — Senhorita Miller.






