Mundo ficciónIniciar sesiónAinda estou acordada quando escuto seus passos pelo quarto, o som pesado contrastando com o silêncio da noite. Ele se move com tranquilidade, como se nada tivesse acontecido, recolhendo suas roupas, ajeitando-se sem pressa… até que, por fim, a porta se fecha atrás dele com um clique baixo, definitivo.
E é só então que o choro sobe. Fica preso na minha garganta, queimando, sufocando. A dor física da marca — que nunca deveria estar ali — pulsa em minha pele, viva, cruel… misturada à dor ainda mais profunda de ter sido tocada por alguém que eu não desejo, não almejo… e nunca quis que me tocasse. Levanto-me da cama rapidamente, quase tropeçando na pressa. Minhas mãos tremem enquanto pego minhas roupas e as visto às pressas, sem me importar com a organização ou com a aparência. Só preciso sair dali. Preciso respirar. Abro a porta e corro pelos corredores, os passos ecoando baixos contra o chão frio, guiada apenas pelo impulso… indo direto para o lugar onde sempre encontro Joseph. Onde sempre encontro uma forma de escapar — nem que seja por alguns minutos. Sei que ele está ali. Eu sinto. Mas me recuso a olhá-lo. Não assim. Não nesse estado. Quebrada. Exausta. Destruída por dentro e por fora. Caminho direto para a brecha escondida, aquela que aprendi a usar como minha única rota de fuga. Me preparo para passar por ela, como tantas outras vezes… mas, antes que consiga, sinto sua mão envolvendo meu braço. — Lilian! — ele me chama, sua voz baixa, mas carregada de preocupação. — Joseph, me deixe ir… — sussurro, forçando as palavras a saírem. Sei que, se minha voz subir um pouco mais, eu vou desmoronar ali mesmo. Ele hesita. Posso sentir. Fica dividido entre me proteger… e me soltar. Por um segundo que parece longo demais, ele não faz nada. Mas então… seus dedos afrouxam. E ele me solta. Não olho para trás. Saio do castelo e corro em direção à floresta, meus pés descalços encontrando a terra fria, irregular. O ar gelado da noite corta minha pele enquanto avanço, cada passo carregado de urgência, de desespero. No meio da corrida, começo a me livrar das roupas, deixando-as para trás, como se pudesse abandonar junto com elas tudo o que aconteceu. O vento envolve meu corpo por completo agora, livre… mas não suficiente. Sinto minha loba se agitando dentro de mim, respondendo à dor, ao desespero, à necessidade de escapar. Ela toma conta, dominando cada parte de mim, e, em questão de segundos, a transformação acontece. Minha visão muda. Meu corpo muda. E eu corro. Corro pela floresta como se pudesse deixar tudo para trás — o castelo, Eros… a dor… até mesmo a mim mesma. Os galhos passam rápidos, o cheiro da terra, das árvores, da liberdade invadindo meus sentidos. Meu coração dispara, minhas patas batem contra o chão com força, ritmo, urgência. Só paro quando alcanço o pico da montanha, onde o mundo parece se abrir diante de mim. Ali… eu desabo. O choro finalmente escapa. Mas, agora, não é mais humano. É um uivo. Alto. Cru. Doloroso. Um som que carrega tudo o que não consigo dizer… e que ecoa pela noite, se perdendo na imensidão da floresta. ... Pego minhas roupas no meio da floresta, meus dedos ainda trêmulos enquanto tento me recompor. Visto-me rapidamente, puxando o tecido contra o corpo ainda sensível, como se aquilo pudesse me proteger de algo… ou de alguém. O silêncio ao meu redor parece estranho demais. Então, o som de um galho se partindo corta o ar. Meu corpo inteiro reage no mesmo instante. Olho para todos os lados, os sentidos aguçados, o coração acelerando violentamente no peito. Prendo a respiração, forçando minha audição de loba a se concentrar, tentando captar qualquer movimento além do meu próprio medo. — Quem tá aí? — questiono, a voz saindo mais firme do que me sinto. Por um segundo, nada acontece. Então… ele surge. Um homem sai das sombras entre as árvores, seus olhos fixos em mim, analisando cada detalhe do meu corpo, como se eu fosse algo exposto… vulnerável. O olhar dele me faz dar um passo instintivo para trás. — Olha, rapazes… parece que encontrei o brinquedinho do príncipe! — ele diz, com um sorriso torto, carregado de malícia. Meu estômago se revira. Outro homem aparece logo em seguida, saindo por trás de uma árvore. Ele me encara de forma ainda mais descarada, um sorriso largo se formando em seu rosto. — Que tal darmos uma lição no príncipe por aumentar os impostos? — ele sugere, o tom leve demais para o peso daquelas palavras. Meu coração dispara ainda mais. Dou mais um passo para trás, meus olhos se movendo rapidamente ao redor, procurando qualquer rota de fuga, qualquer abertura entre as árvores. Então, um terceiro homem surge, fechando ainda mais o espaço ao meu redor. — Podemos deixar apenas um recado pra ele! — ele diz, com um riso baixo. Meu peito sobe e desce rapidamente. Estou cercada. Quando eles começam a se aproximar, seus passos lentos, confiantes… eu não penso. Apenas ajo. Viro-me e corro o mais rápido que consigo na direção do castelo, segurando as bordas do vestido para não tropeçar, ignorando os galhos que arranham minha pele, o chão irregular sob meus pés. Joseph. Ele sempre me espera. Ele vai me proteger. Meu coração pulsa forte, desesperado, cada passo sendo uma tentativa de sobrevivência. Mas não é o suficiente. Antes que eu consiga sequer ver os muros do castelo, sinto algo me atingir com força pelas costas. O impacto me faz perder o equilíbrio e cair no chão, o ar sendo arrancado dos meus pulmões. — Não tão fácil, princesa! — uma voz diz atrás de mim, carregada de diversão cruel. Minha visão gira por um instante enquanto tento me recompor, apoiando as mãos no chão, sentindo a terra úmida sob meus dedos. Levanto o olhar. Vejo os três se aproximando, seus rostos agora mais claros sob a luz fraca da noite, seus sorrisos cheios de intenções que fazem meu corpo inteiro gelar. Tento me arrastar para trás. Mas, antes que consigam me alcançar… Algo os atinge. Rápido. Violento. Um vulto surge das sombras, movendo-se com uma velocidade impossível, colidindo contra um deles e jogando-o contra as árvores com força suficiente para quebrar galhos. O som do impacto ecoa pela floresta. Os outros dois mal têm tempo de reagir antes que a criatura — ou seja lá o que for — avance novamente. Eu fico imóvel, o coração disparado, observando… sem saber se aquilo que acabou de surgir é a minha salvação… Ou um perigo ainda maior. Os gritos de dor dos meus agressores desaparecem tão rápido quanto surgiram, sendo engolidos pela escuridão da floresta. O silêncio que vem depois é quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo canto distante dos grilos e pelos sons sutis das criaturas da noite, como se nada tivesse acontecido. Permaneço imóvel no chão por um instante, o corpo ainda tenso, o coração batendo forte demais no peito. Então… eu o vejo. A silhueta do meu salvador se move entre os corpos caídos, seus passos lentos agora, mas ainda carregados de força. Ele parece ofegante, o peito subindo e descendo com intensidade, enquanto leva a mão até os cabelos, passando os dedos por eles em um gesto brusco, tentando recuperar o controle. A pouca luz da lua mal ilumina seu rosto, deixando seus traços escondidos nas sombras… mas, ainda assim, algo nele prende completamente a minha atenção. Seu cheiro. Ele me atinge antes mesmo que eu perceba. É como se o ar ao meu redor mudasse. Um aroma envolvente, impossível de ignorar… uma mistura que desperta algo profundo dentro de mim. Sinto o cheiro da grama recém-cortada, fresca e viva… o cheiro da chuva tocando a terra quente… o perfume suave da lavanda sendo levado pelo vento… e, estranhamente, o conforto doce de um chocolate quente em um dia frio. É… reconfortante. Viciante. Perigoso. Meu corpo reage sem que eu permita. Minha respiração desacelera por um segundo, como se, pela primeira vez naquela noite, eu pudesse realmente respirar. Seus passos param. E então ele vira o rosto na minha direção. Por um instante, tudo parece congelar. Seus olhos encontram os meus… e brilham. Um dourado intenso, profundo, quase hipnotizante, revelando que seu lobo está à beira da superfície, pronto para tomar controle a qualquer segundo. Sinto um arrepio percorrer minha coluna. Mas não é medo. É algo diferente. Algo que eu nunca senti antes. — Minha! — ele diz. A palavra ecoa entre nós. Baixa. Rouca. Carregada de uma certeza absoluta. E, pela primeira vez desde que fui marcada… minha marca não arde.






