Mundo ficciónIniciar sesiónQuando o relógio batia às sete da noite, o som grave ecoando pelos corredores do castelo, minhas damas de honra entram no quarto em perfeita sincronia, como se ensaiassem aquele momento todos os dias. Cada uma já sabe exatamente o que fazer, sem precisar trocar uma única palavra.
Uma prepara a água para o meu banho, despejando óleos perfumados que logo tomam o ambiente com um aroma suave e adocicado. Outra organiza cuidadosamente o vestido que usarei no jantar, alisando cada dobra do tecido como se aquilo fosse de extrema importância. Há também a que separa as joias, analisando cada peça com atenção para garantir que tudo esteja em perfeita harmonia. E, por fim, a última se posiciona atrás de mim, já com o pente em mãos, pronta para cuidar dos meus cabelos. Tudo milimetricamente planejado. Tudo para que eu esteja impecável… e vá jantar com Eros. Olho para o espelho à minha frente, encarando meu próprio reflexo por alguns segundos… até que meus olhos descem lentamente para o meu pescoço. Lá está ela. A marca que ele fez em mim. No mundo dos lobos, quando encontramos nossos companheiros destinados, eles marcam suas companheiras como um símbolo de pertencimento — uma ligação sagrada, algo que nenhum outro lobo ousaria desafiar. É uma das regras mais antigas e respeitadas entre eles, quase intocável. Mas há um detalhe cruel em tudo isso… Eu não sou a companheira de Eros. Ele apenas estava, em um dia qualquer, caminhando pelo vilarejo de seu reino. Eu me lembro perfeitamente… eu estava cuidando de algumas crianças que viviam nas ruas, tentando oferecer o pouco de conforto que podia. E, naquele momento, sem aviso, sem escolha… ele me viu. E decidiu. Decidiu que eu era bonita o suficiente para fazer parte de sua coleção. Então ele me tomou à força. Me marcou à força. E, desde então, estou presa… nas garras dele. A marca arde em minha pele, uma dor constante, pulsante, como se meu próprio corpo rejeitasse aquilo que foi imposto. É como se cada célula minha gritasse em silêncio, recusando-se a aceitar um vínculo que não é verdadeiro. E quando Eros me toca… a ardência só se intensifica, se tornando quase insuportável. Antes… houve vezes em que eu simplesmente desmaiava, incapaz de suportar a dor que me consumia por dentro. Mas Eros… Ele nunca se importou. Solto um suspiro baixo, tentando manter a expressão neutra enquanto minhas mãos repousam sobre o colo. — Senhora, irei fazer um coque hoje! — uma das damas diz atrás de mim, sua voz suave contrastando com a firmeza com que começa a deslizar o pente pelos meus cabelos, desfazendo os nós com cuidado. Permaneço em silêncio, observando meu reflexo mais uma vez… tentando reconhecer quem eu era antes de tudo isso. Quando estou pronta, perfeitamente arrumada e moldada para o papel que esperam de mim, as damas se retiram em silêncio, uma a uma, deixando para trás apenas o leve perfume que paira no ar. Assim que a porta se fecha, Joseph entra, como sempre faz — pontual, discreto… presente. Ele sempre me acompanha até a sala de jantar. — Está muito bonita, Lilian! — Ele diz, com um sorriso sincero no rosto, os olhos passando rapidamente pelo meu vestido e pelos detalhes cuidadosamente escolhidos. Reviro os olhos, cruzando levemente os braços, embora um pequeno alívio surja por não estar sozinha naquele momento. — Depois, irei precisar de uma caminhada na floresta! — digo a ele, em um tom baixo, mas firme o suficiente para que entenda que não é apenas um pedido. O sorriso desaparece de seu rosto quase que instantaneamente, como se eu tivesse dito algo perigoso demais. — Você já saiu hoje. Sabe que é arriscado sair duas vezes assim! — ele explica, a voz mais séria agora, carregada de preocupação. — Ele sempre acha que estou no jardim! — retruco, tentando parecer despreocupada, embora meu peito aperte só de pensar no que pode acontecer se formos descobertos. — Joseph, tenho certeza que hoje ele vai querer me tocar… — continuo, sentindo a tensão subir pelo meu corpo só de dizer aquilo em voz alta. — Eu preciso respirar um pouco de ar depois disso. Você sabe como dói a marca! — explico, quase em um sussurro. Vejo a mudança acontecer diante dos meus olhos — como sempre acontece. O olhar dele se transforma. Seus olhos ganham um brilho dourado intenso, quase sobrenatural, refletindo algo muito além do homem à minha frente. Seu maxilar se tensiona, o corpo enrijece… e, por um instante, não é mais Joseph. É o lobo dele. — Eu o mato… se ele lhe causa dor! — Sua voz sai mais grave, mais áspera, carregada de um instinto protetor quase incontrolável. O lobo está à superfície, pronto para reagir. Dou um passo à frente imediatamente, antes que aquilo escale. Levo minha mão até seu braço, apertando com firmeza, tentando trazê-lo de volta. — Está tudo bem… — digo, com calma, embora minha própria respiração esteja instável. — Desde que eu faça o que ele quer, está tudo sob controle. Eu só preciso caminhar um pouco depois… só isso! — reforço, mantendo o olhar fixo no dele. Seus olhos dourados ainda me analisam por alguns segundos, como se avaliassem cada palavra, cada respiração… até que, lentamente, o brilho começa a desaparecer. A tensão em seu corpo diminui, e Joseph retoma o controle. Ele pisca algumas vezes, respirando fundo. — Tudo bem. Vamos… ele está esperando! — Joseph diz, agora novamente no controle, estendendo o braço em minha direção, retomando a postura de sempre. Faço um leve aceno em agradecimento, segurando seu braço. O contato traz um mínimo de segurança, ainda que momentânea. E então, juntos, deixamos o quarto. ... Eros está de pé, perto da mesa, avaliando-me de cima a baixo, como se analisasse cada detalhe meu, cada escolha, cada respiração, enquanto me aproximo dele ao lado de Joseph. Seu olhar percorre meu corpo com posse, com aquele brilho que nunca me traz conforto — apenas um aviso silencioso do que ele acredita que me tornei. — Vossa alteza! — Joseph diz, fazendo uma breve reverência, sua postura impecável. Eros mal se digna a olhá-lo… e isso me irrita mais do que deveria. — Pode sair. Aliás, todos saem. Quero estar a sós com minha companheira! — ele diz, sem desviar os olhos de mim. A palavra “companheira” soa como uma mentira amarga. Logo, todos os guardas — incluindo Joseph — deixam a sala. Sinto o vazio se instalar no ambiente assim que a porta se fecha, como se o ar ficasse mais pesado na mesma hora. Eros se aproxima de mim, seus passos lentos, calculados. Sua mão sobe até meu rosto, tocando levemente minha bochecha, o gesto suave demais para alguém como ele. — Você está deslumbrante! — ele diz, com aquela falsa calmaria que aprendi a temer. Forço um sorriso, sustentando a máscara. — Posso dizer o mesmo de você! — minto, sem hesitar. Ele se inclina, aproximando seu rosto do meu. No mesmo instante, a marca em meu pescoço começa a arder, como se reagisse à sua proximidade. Seus lábios tocam os meus em um selinho leve… que rapidamente se aprofunda, se tornando um beijo mais intenso, mais exigente. Passo meus braços ao redor de seus ombros, como ele espera. Só faz o que ele quer. Só faça o que ele quer. Finjo corresponder, finjo me perder naquele momento, mesmo que, no fundo, tudo em mim rejeite aquilo. Nunca houve êxtase… apenas atuação. — Vamos deixar isso para terminarmos mais tarde. — Ele se afasta, a voz baixa. — Sente-se, minha lobinha! — completa, caminhando até a mesa e puxando a cadeira para mim, em um gesto que poderia parecer cavalheiresco… se não fosse carregado de controle. Os chefs do castelo entram em silêncio absoluto, quase como sombras. Depositam o banquete sobre a mesa com movimentos precisos, evitando qualquer contato visual direto. — Obrigada! — sussurro ao chef quando ele passa por mim. Sei que, com a audição de lobo, ele ouviu. Vejo um pequeno sorriso surgir discretamente em seu rosto antes que ele se afaste. Eles não estão acostumados com gentileza vinda de alguém próximo a Eros… e, talvez por isso, me olhem de forma diferente. — Hoje o dia foi bem irritante. — Eros começa, cortando um pedaço da comida com tranquilidade. — Tive umas reuniões chatas sobre o reino… estou pensando em aumentar os impostos! A frase cai como uma lâmina. Paro com a taça de vinho a poucos centímetros dos lábios, congelando por um segundo. Então, lentamente, abaixo a mão e olho para ele, sem conseguir engolir aquilo. — De novo? — minha voz sai antes que eu possa conter. — Você já fez isso mês passado… o povo sofreu muito com isso! Ele apenas balança a cabeça, indiferente, como se eu tivesse dito algo insignificante. — O povo fica feliz de contribuir para o seu rei! — responde, frio. — Você ainda não é rei! — solto, sem pensar. O silêncio que se segue é sufocante. Meu coração parece parar no mesmo instante. Droga, Lilian. Eros levanta o olhar para mim, lentamente. Ele não diz nada de imediato… apenas me observa. Aquela expressão calma… perigosa. — Você deveria ser mais gentil. — ele diz por fim, levantando-se da cadeira. — Graças ao meu amor por você, vive uma vida que muitas queriam estar vivendo! Ele se aproxima, cada passo pesado, dominador. — Graças a esses lindos cabelos ruivos… — sua mão desliza por uma mecha do meu cabelo — seus olhos verdes… e esse corpo… a personificação da beleza… você está aqui, vivendo tudo isso! Seus dedos sobem até meu queixo, forçando-me a encará-lo. — Seja mais boazinha, lobinha. — sua voz abaixa, carregada de aviso. — Eu não tenho muita paciência! Ele pressiona um selinho em meus lábios — rápido, duro, quase agressivo — e então se afasta, voltando ao seu lugar como se nada tivesse acontecido, retomando a refeição com tranquilidade. Permaneço imóvel por um instante, tentando controlar a respiração, sentindo o gosto amargo daquele momento ainda nos meus lábios. O jantar continua. Em silêncio. Carregado.






