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Capítulo 7- Planta, Ressaca e Pensamentos Inconvenientes

Pietro Cavallini

Já passava das nove da manhã quando cheguei na Cavallini Arquitetura.

O elevador me levou direto pra cobertura onde ficava nosso escritório: vidro, madeira, concreto e classe.

Mas a cabeça?

Ficou na varanda.

Mais especificamente... nela.

Fernanda.

A mulher mais contraditória que já conheci.

Uma hora me odeia, outra me manda à merda com poesia.

E ontem... ela tava de moletom, olheira, cabelo bagunçado... e ainda assim, linda. Doente. Real. Cheia de caos.

Merda. Eu tava pensando nisso de novo.

— Pietro! — ouvi uma voz familiar quando entrei na sala de reuniões.

Lucas Ribeiro.

Meu sócio. Amigo de faculdade. O cara responsável por metade dos lucros e 90% das reclamações no W******p.

— E aí, tá vivo? — ele perguntou, já com um copo de café na mão e o notebook aberto.

— Sobrevivendo — murmurei, largando minha pasta na mesa.

Sentei, tentei focar, mas os papéis viraram borrões, os números se embaralharam e as plantas arquitetônicas começaram a parecer linhas sem sentido.

A imagem dela, regando as plantas de ressaca, com o rosto cansado e ainda assim cheia de presença, não saía da minha cabeça.

— A planta da cliente do Morumbi tá dando problema. Ela quer mudar a fachada toda de novo. — Lucas falou. — Tá ouvindo?

— O quê? — pisquei, voltando do transe.

Lucas me encarou.

— Cacete, Pietro... você acabou de aprovar uma fachada com escorregador. Isso aqui é um condomínio ou um parque de diversões?

Olhei pro projeto à minha frente.

Tinha mesmo um escorregador desenhado ali.

Puxei o papel, tossi e tentei fingir dignidade.

— É... acho que escorreguei na concentração.

— Tu tá com a cabeça onde, cara? — ele riu, mas os olhos eram de preocupação.

Suspirei, passando a mão pelos cabelos.

— Sei lá. Em casa. No prédio. Na... varanda.

Lucas ergueu uma sobrancelha.

— Presa nova?

Fiz cara de quem não entendeu.

Ele só riu de novo, sem dizer mais nada.

Continuamos a revisar os projetos, falar de clientes novos, obras em andamento, prazos, fornecedores... mas a cada intervalo de silêncio, lá estava ela de novo.

Fernanda.

A vizinha barraqueira.

A dona dos palavrões mais bonitos que já ouvi.

A maluca que tava invadindo meu sistema.

E o mais perigoso?

Eu tava começando a gostar disso.

(***)

Tentei focar. Juro.

A planta tava ali na minha frente. A curva da escada, o encaixe do jardim vertical, a maldita proporção do teto.

Mas tudo que eu conseguia ver era outra curva.

A da bunda dela naquela maldita calça de moletom.

Aquela visão me assombrava desde a varanda.

E não era só o corpo.

Era o jeito de falar. A acidez. O caos. A verdade crua jogada na cara como se fosse uma pedra.

Eu tava perdido.

— Cara, cê vai ou não vai revisar esse orçamento comigo? — Lucas falou, batendo a caneta na mesa e me encarando com uma expressão de "alô, Terra chamando".

— Hã? O quê?

Ele soltou um suspiro impaciente e cruzou os braços.

— Pietro, na moral... o que tá acontecendo com você, velho? Você tá impaciente, viajando, respondendo tudo no automático. Desde ontem.

Fechei a pasta devagar, apoiei os cotovelos na mesa e passei as mãos pelo rosto.

— É minha vizinha.

Lucas franziu a testa.

— Sua vizinha?

— É. A nova vizinha. Fernanda.

— E o que tem ela?

Olhei pro teto, depois encarei meu amigo.

— Ela é... diferente. Uma doidinha. Fala palavrão como quem respira, tem uma ironia afiada que parece faca.

Suspirei.

— E o pior... é que eu tô gostando das loucuras dela.

Lucas arregalou os olhos e soltou uma gargalhada debochada.

— Você? Gostando de uma mulher de verdade? Com personalidade? Eu achei que seu tipo era só as que respondiam com emoji de fogo e mandavam nude antes do café.

— Vai se ferrar — murmurei, mas nem com raiva. Eu sabia que ele tava certo.

Lucas apoiou os braços na mesa e me encarou como se estivesse vendo um alienígena.

— Você tá me dizendo que tá interessado de verdade? Nela?

— Eu tô dizendo que... — fiz uma pausa — ...não consigo parar de pensar nela. E olha que ela me odeia. É o tipo de mulher que fala "vai à merda" como quem oferece café.

— E você sempre gostou de desafio, né? — ele riu. — Só cuidado pra não se apaixonar de verdade. Aí tu tá fodido.

Fiquei em silêncio.

Porque, no fundo...

Eu tava começando a achar que já tava fodido sim.

E o nome da merda era Fernanda Vasques

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