Capítulo 4 - Entre Raízes e Silêncios

Na perspectiva do Carlos

Não pensei duas vezes. Entrei no trilho atrás dela. Sabia que aquele caminho era irregular, cheio de raízes traiçoeiras, e temi que algo acontecesse.

— Ai! Oh, não… isto tinha… que acontecer… comigo… — ouvi-a reclamar mais à frente.

Mas havia algo errado. A voz soava distante. Fraca.

Acelerei o passo.

Quando a encontrei, o meu estômago embrulhou-se.

Estava caída, as pernas ainda no trilho, mas o corpo estava para fora. Os seus pertences espalhados ao redor. O caderno aberto, o lápis ainda preso entre os dedos. Uma das raízes grossas emergia da terra perto demais das costas dela.

Aproximei-me de imediato.

Tinha um corte na canela, e reparei que uma pedra áspera estava manchada de sangue. Mas não era só isso. O rosto estava pálido demais. Demasiado imóvel.

— Menina? — usei um tom mais calmo do que pretendia.

Agachei-me ao lado dela e toquei-lhe no ombro. Não reagiu. A pele estava quente.

Uma pontada inesperada atravessou-me o peito. Isto não devia importar-me tanto. Mas importava.

— Consegue ouvir-me?

Nada. Estava a começar a ficar preocupado.

Ergui-lhe ligeiramente a cabeça para retirar o boné e verificar se teria batido com ela no chão.  Não encontrei nenhum ferimento. Apenas arranhões leves nos braços e nas mãos.  Parece-me que ela tropeçou para a frente, ferindo o corte na canela, mas algo a fez ficar inconsciente, por isso, estava caída para o lado de fora do trilho. 

Afastei uma madeixa do cabelo da frente do rosto dela. As pestanas longas projetavam sombras delicadas sobre a pele clara, mas ela estava demasiado branca.

Tenho de a despertar… talvez ela tenha algo que ajude. Com a outra mão livre, abri o saco que trazia consigo. Pincéis, lápis, frascos, uma garrafa térmica, chacoalhei, vazia. Depois, a mala pessoal:

— Espero que não leve a mal… — vi uma carteira, batom e um pequeno frasco de vidro.

A tampa do frasco abria facilmente, e um aroma libertou-se de imediato.

"Lavanda… não. Havia ali... gerânio e um toque fresco de eucalipto." Era peculiar e intenso. Aproximei o frasco aberto do nariz dela com cuidado.

— Menina, por favor, acorde…

Foi suficiente, guardei o frasco automaticamente nas calças. Vi um leve movimento dos olhos sob as pálpebras.

— Está tudo bem… — disse, num tom calmo transmitindo segurança.

As pálpebras abriram-se lentamente.

E foi aí que tudo mudou.

Os olhos.

Azuis.

Um azul profundo, no mesmo tom do vestido, mas mais vivo agora à luz do meio-dia. Durante um segundo, pareceu perdida.

— Ahh… o que aconteceu? — murmurou, focando-se em mim.

A sua expressão mudou para confusão. Depois constrangimento.

— Eu… — a voz saiu frágil. — Oh não… sangue…

Desviou imediatamente o olhar.

— Se eu o vejo a escorrer… isto acontece.

Corou, visivelmente embaraçada.

Tudo fez sentido agora.

— Já percebi. Está tudo bem. Vamos sair daqui com calma.

Estendi-lhe a mão. Ela assentiu e apoiou-se em mim para se levantar. O corpo era leve, mas firme. Ficámos em silêncio.

Agachei-me para recolher os pertences.

— Eu posso ajudar…

Interrompi-a com um gesto discreto.

— Eu trato disso.

Arrumei tudo rapidamente e ofereci-lhe o braço ao qual ela se agarrou. Segurei seu corpo perto do meu, pois o trilho era um pouco estreito demais. "Ela encaixa aqui perfeitamente…"

Seguimos devagar até ao meu Jeep SUV cinza, estacionado mais acima. Como de costume, tinha um kit de primeiros socorros na mala. Abri-a, coloquei os pertences dela no interior e fiz-lhe sinal para se sentar.

Desinfetei as mãos com água e álcool.

— Com sua licença.

Ela assentiu, atenta a tudo que eu fazia. Comecei por limpar o ferimento com soro fisiológico, removendo sujeira. Depois pressionei com uma gaze para garantir que já não sangrava. O ferimento era superficial. Apliquei mesmo assim um antisséptico. Ela estremeceu, mas manteve-se firme.

— Quase terminado — comuniquei.

Coloquei o curativo, cobrindo completamente o corte. Assim ela não via a ferida. E não havia risco de um novo desmaio. Quanto aos demais arranhões, perguntei:

— Tem alguns ferimentos espalhados pelo corpo?

Ela olhou as mãos e os pulsos e me mostrou. Eram leves, limpei-os com foro e perguntei:

—  Quer que envolva com algumas gazes?

—  Acho que não é necessário, obrigada. Fiz um grande estrago, imagino... — ela sorriu timidamente, o que apreciei muito mais do que ela imagina. 

Comecei a arrumar o kit e brinquei com a situação: — Estava a fugir do quê?

Ela corou ligeiramente oferecendo cor ao seu tom de pele claro.

— Eu estava só… — reparei que ela corou ligeiramente. —  A tentar voltar.

— Entre videiras e raízes traiçoeiras?

Um brilho quase ofendido surgiu nos olhos dela.

— Era o único caminho que conhecia.

Tive que conter um sorriso ousado.

— Se sente melhor agora?

Ela anuiu, ainda com as bochechas coradas.

— Desculpe o incómodo.

— Não foi incómodo. — a frase saiu antes que pudesse moderá-la. — Quero dizer… qualquer pessoa faria o mesmo.

Ela observou-me por um instante mais longo do que o confortável.

— Trabalha aqui?

Mantive o olhar neutro.

— Às vezes.

Não era mentira. Também não era verdade.

— E por que a pressa? — perguntei, desviando a conversa.

Ela hesitou.

— Preciso ir para o Porto… perdi-me no tempo e quem me trouxe já foi embora.

Olhei para o relógio. Era hora de almoçar… Eu não necessitava sair da Quinta, mas, por vezes, ser espontâneo pode tornar a vida mais interessante, e neste caso...

— Então entre. Eu levo-a.

— Não precisa, eu posso chamar...

— Precisa, sim — e contornei o carro para abrir-lhe a porta e ofereci-lhe a mão. Ela avaliou-me por um segundo, depois assentiu. 

Fechei a porta com suavidade e contornei o carro, verificando se havia testemunhas, e fiquei aliviado por ser hora de almoço.

Tomei o meu lugar de condutor e pude sentir o perfume dela no carro. Lavanda predominante. Sereno e pessoal. Já começava a se tornar familiar para mim.

— Foi desenhar as vinhas? — perguntei e ela mexeu-se no banco, talvez por nervosismo.

— Sim, e as cerejeiras em flor. Gosto de buscar inspiração na natureza.

Curioso.

— Trabalha com o quê?

— Tenho um atelier de artes, sou professora e artista independente.

Inclinei ligeiramente a cabeça:

— Paixão?

Ela sorriu de lado.

— Sim e não, prefiro considerar o meu trabalho uma missão.

Apreciei a resposta.

— Vai ter de explicar melhor isso, mas agora… — abri o GPS no visor do tablier. — Diga-me, onde tenho que levá-la.

— Rua de Passos Manuel, 225. Porto, por favor.

Trajeto definido.

Durante a viagem, pude notar que  ela mexia nos anéis, talvez um sinal de ansiedade ou desconforto.

— Então é professora de quê?

— Sou professora de artes em geral: desenho a grafite, carvão, pastel seco ou oleoso, lápis de cor e aquarela. E ofereço workshops de arte em papel 3D, entre outros. Ah, e tinha uma parceria de pintura em acrílico. Ops, é muito para acompanhar, não é?

Eu fiquei tão espantado pela agilidade das suas palavras, tanto quanto devido a todas as técnicas de artes. Que fiquei intrigado. Eu queria saber mais!

— Um pouco, mas qual é o público-alvo?

— Reformados. O propósito é oferecer um espaço para a expressão artística, estímulo à criatividade e convívio social.

— Deve ser admirável o seu trabalho… — e admirei-me, eu não tinha perguntado o nome dela, uma falha grosseira! — Desculpe, ainda não perguntei o seu nome.

Ela virou-se para mim com um sorriso, irradiando um calor pelo meu corpo, que eu ainda não conseguia identificar.

— Anabela Queirós, e o seu? Qual é?

Engoli em seco, não queria assustá-la com o meu nome, por isso disse:

— Carlos.

— Só Carlos?

— Só Carlos.

O resto do caminho fez-se num silêncio, enquanto eu ficava a rever tudo o que aconteceu naquela manhã.

Quando chegámos ao edifício no Porto, estacionei junto à entrada. Ela soltou o cinto devagar.

— Obrigada… outra vez. Gostava de retribuir o gesto...

— Não foi nada.

Anabela saiu do carro, mas antes de fechar a porta, inclinou-se ligeiramente para dentro. Os seus olhos azuis estavam fixos nos meus. Havia ali algo diferente agora. Determinação.

— Já sei onde vai almoçar!

Fiquei imóvel por um segundo, surpreendido. Pela primeira vez naquele dia, fiquei sem resposta imediata.

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