Mundo de ficçãoIniciar sessãoAntes que ele dissesse 'não', insisti:
— Se não fosse o Carlos, eu poderia continuar inconsciente naquele trilho. Ele ia interromper-me, mas levantei a mão em sinal de stop e continuei: — E quem faria um curativo como este que fez? E também, eu nem teria chegado a casa tão rápido! Por favor, aceite o meu convite para o almoço. É o mínimo que posso fazer no momento. Senti que ele entendeu que eu não aceitaria uma resposta negativa, pois desprendeu o cinto e saiu do carro. Abriu a mala para retirar os meus pertences. Eu já ia insistir uma última vez, mas ele enfim respondeu. — Ok, aceito. Vou só estacionar o carro aqui perto. Peguei as minhas coisas e afirmei: — Espero aqui. — e caminhei para a frente do meu edifício, vendo-o dirigir o carro para o parque mesmo em frente. Aproveitei para pegar as chaves no interior da minha bolsa e percebi a falta do meu perfume: “Oh, não, deve ter caído quando desmaiei…”. Carlos retornou seguindo os meus passos pela escada, fazendo meu coração palpitar de nevosismo. Eu ia fazer isso com ele, o "Carlos estranho" que não me disse o sobrenome. Cada degrau parecia amplificar o eco dos próprios pensamentos. "Eu não acredito que estou aqui com este deus grego… e que o convidei. Meu Divino, dá-me juízo!" Abri a porta com uma naturalidade ensaiada, a minha mão tremia ligeiramente. — O espaço é simples, não repare na confusão… mas é o meu refúgio. Abri a porta e a imagem era de um lar acolhedor. O sol iluminava a sala, onde havia um sofá azul-royal com almofadas amarelo-manteiga. Estantes com livros e algumas plantas intercalavam-se com peças de arte... À direita um balcão em madeira servia de mesa e dividia o espaço com a cozinha. Estava tudo em ordem, suspirei de alívio. Coloquei as chaves numa cesta sob a mesinha ao lado na entrada. Ele estava parado na porta, talvez hesitante... — Pode entrar Carlos, e já agora, poderia colocar o meu saco com os materiais de artes no meu escritório enquanto eu adianto o almoço? É a primeira porta à esquerda no corredor. E esteja à vontade. Em 20 minutos o almoço estará pronto. — falei enquanto tirava as coisas do lanche do saco. Ele deu um passo para dentro do apartamento, pegou no saco e perguntou: — Não precisa de ajuda? Respondi com um riso lateral: — Não, obrigada, isso será rápido e delicioso. Pendurei o casaco, o boné e a bagagem pessoal atrás da porta de entrada. Sacudi o cabelo com leveza e notei a atenção dele a cada movimento. Ele assentiu com um sorriso no olhar e pegando no saco e se dirigindo para o meu ambiente preferido do apartamento. Entrei na cozinha e coloquei água a ferver, tentando ignorar a consciência constante de que Carlos estava no meu apartamento. Organizar os ingredientes na bancada ajudava-me a recuperar o ritmo, como se cada gesto me devolvesse um pouco de calma. Piquei cebola e alho, retirei os cogumelos, os tomates-cereja e o camarão do frio. Do armário peguei o linguine negro, as natas de soja e um punhado de castanhas de caju para a salada. Gostava de cozinhar assim, combinando sabores como quem mistura cores numa paleta. O salgado do mar, o cremoso das natas, o toque fresco do limão. Pequenos equilíbrios que, quando funcionavam, transformavam algo simples em algo memorável. Enquanto o molho apurava lentamente na frigideira, respirei fundo. Talvez cozinhar fosse a minha forma de organizar o mundo e, naquele momento, de esconder o nervosismo de ter um estranho tão… inesperadamente interessante dentro da minha casa. — Parece uma profissional a cozinhar... — dei um pulo do ar com o comentário atrás de mim. — Que susto, Carlos! — olhei para ele com desaprovação, enquanto ele gargalhava devido à minha reação. Lavei as mãos. Peguei dois pratos num armário e dois copos. — Vamos dispor a mesa aqui no balcão? — Sim, chef! — Carlos ainda brincava enquanto lhe entregava a louça. — Nesta gaveta vai encontrar os talheres e, ali, os guardanapos — apontei os locais e comecei a montar o prato principal na ordem: linguine, o preparo da frigideira e, para finalizar, coentros picados grosseiramente com a mão. — Conheces linguine nero? Carlos já estava sentado no topo do balcão. — Linguine al Nero di Seppia, sì signora — respondeu fazendo graça com as mãos semelhante a um legítimo italiano. — Ah, fala italiano? — Ele assentiu que sim. — Eu acho um encanto o idioma e o país, mas só os conheço pelos filmes. — Ainda não foi à Itália? Curioso, pois fez prato, com cara de lá, pelo que posso ver. Ele tinha organizado a mesa para sentarmos no canto do balcão. Estava simples, mas perfeito! Coloquei a salada e o prato principal com os talheres para servir. — E o aroma está incrível! Quais temperos usou? — Segredo — respondi, colocando um dedo nos lábios, com um sorriso maroto. — E para beber? Acho que tenho um vinho branco maduro da Quinta Ferraz, salvo engano — abri a porta do refrigerador e acertei. — Boa escolha! — Carlos aprovou, com confiança e um toque de suspeita. — Como conseguiste fazer isto tudo em poucos minutos? — perguntou-me agora com cara de espanto. — Otimização de processos, simples assim. Ele ergueu uma sobrancelha: — Está a ser uma caixinha de surpresas, Anabela. Gargalhei divertida “e ele nem sabe dos muffins de mirtilos que fiz”. Entreguei-lhe a garrafa com um saca-rolhas, que a abriu em segundos. — Um brinde…— disse entregando-me um cálice. — à sua arte. Sorri e brindamos: — Um brinde a ti por teres-me salvado. Ele sorriu e piscou-me um olho. Almoçamos e a conversa fluiu com uma naturalidade surpreendente. A comida estava deliciosa e o vinho casava perfeitamente. Ele parecia estar a gostar também, sempre repondo o vinho com uma elegância singular. Carlos ancorava segurança e agia com calma, sem ser evasivo, exceto quando os assuntos eram sobre ele. As minhas tentativas de descobrir mais sobre ele não eram promissoras, então desisti por agora. Queria aproveitar este convívio sem alimentar expectativas. Eu já não tinha um momento como este, de intimidade sem forçar, sem segundas intenções, fazia um bom tempo. — Anabela, sempre soube que queria viver da arte? — perguntou ele, pousando o garfo. Eu sorri, afinal era bom falar com o Carlos. — Pensando dessa forma, posso dizer que sim. Desde criança eu adorava desenhar... E se eu te disser que o meu primeiro pedido de namoro foi um desenho? Senti que estava a ficar sob o efeito do vinho, pois comecei a recordar cada história. Carlos riu incluindo a cabeça para trás de forma divertida: — Como assim? Recebeste um cartão desenhado? Ri envergonhada... — Não sei por que é que disse isto agora. — ele escutava, atento, segurando o copo de vinho na mão. — Na realidade, fui eu que desenhei o bilhete e entreguei a um rapaz bonito de que eu gostava na minha turma. Carlos riu tanto que devia estar a imaginar a cena. — E qual foi a resposta dele já agora? — Ele aceitou. Procurou-me no intervalo, com a resposta positiva. Os dois rimos durante alguns minutos, fazendo-nos limpar algumas lágrimas do riso. — Mas a sério, quando começaste a querer viver da arte? Agora, o tom da sua voz era mais pessoal e ele observava-me com aqueles olhos castanhos, neste momento estavam mais escuros. Isso inquietava-me por dentro, por isso falei olhando para o meu prato: — Por desenhar tanto, amigos e familiares começaram a encomendar trabalhos, e durante a universidade surgiu a oportunidade de ser professora. Experimentei dar aulas para crianças e jovens, mas foram os adultos e, principalmente, os idosos que mais me cativaram. Carlos estava concentrado em mim. Eu não conseguia olhar por muito tempo. — Acho que já estamos quase a terminar esta etapa — apontei para os pratos que começavam a ficar vazios. Ele levantou a garrafa de vinho e esvaziou o final entre os cálices: — Aqui também. Sorri e já comecei a retirar os pratos, mas ele pegou na minha mão, arrepiando-me: — Fica sentada, eu trato disto, é o mínimo que posso fazer — e piscou-me o olho com um sorriso de me derreter por dentro, recolhi os braços e assenti com a cabeça. — Tens máquina de lavar loiça? — perguntou-me com os pratos na mão. — Tenho, mas podes colocar na bancada, pois ainda temos a segunda etapa do almoço. Passei a mão por uma mecha de cabelo de forma inocente. — Mais? — a cara dele era de surpresa ou de admiração. Eu ainda não compreendia bem as suas expressões. Assenti e apontei para uma caixa no fundo do balcão, ao lado de uma garrafa de vinho do Porto. Carlos pousou os pratos na bancada da cozinha e levou ambas as mãos aos cabelos. Um simples gesto que mexia comigo internamente. Desde o primeiro momento em que o vi, a minha respiração se altera e um calor ascendente percorre o meu corpo. — Anabela, mas o que é isto? — ele pegou na caixa e abriu-a. O aroma dos muffins contaminou o momento. — São muffins de mirtilos caseiros. — e sem pensar, me estiquei para pegar a garrafa de vinho do Porto, apoiando um joelho no meu assento... mas os copos estavam mais distantes. — Podes passar-me aqueles copos, por favor? Carlos estava rígido. O seu olhar percorria o meu corpo devagar. Parecia estar a despir-me lentamente. “Será que ele se sente afetado também?” Estalei os dedos no ar quase à frente dele. — Alô? Ele abaixou o olhar e a sua voz saiu mais rouca do que o normal: — Sim, claro. — e passou-me os pequenos copos para a mão, voltei a sentar como se nada tivesse acontecido. — Posso servir para os dois? — ele assentiu com a cabeça sentando-se no seu lugar, que era próximo ao meu desde o começo. O contraste entre o amargo e o doce trouxe um silêncio confortável ao momento. Nenhum falou, apenas saboreamos a sobremesa e trocávamos olhares discretos. — Anabela, no teu espaço tens muitos quadros, fazes por prazer... Ou aceitas também encomendas? — Sim, também aceito trabalhos por encomenda. — Compreendo, funciona consoante a técnica, a dimensão e o tempo? — Sim, é mais ou menos isso. Respirei fundo. Com um dedo da mão delineei a borda do pequeno cálice. Era agora ou nunca. — Carlos… posso fazer-te uma pergunta um pouco fora do contexto profissional? Ele observava o meu movimento no cristal, enquanto saboreava a bebida. — Depende da pergunta. Senti o coração bater nos ouvidos. — Alguma vez... pensaste em ser modelo? Para as artes, quero dizer. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele pousou o copo devagar. Um quase sorriso desenhou-se nos lábios dele. Senti o meu rosto esquentar, mas sustentei o olhar com confiança.






