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Capítulo 90 — Agendas Incompatíveis

POV: MARI

​Na terça-feira à noite, eu cheguei no andar dele sentindo que um caminhão tinha passado por cima da minha coluna.

​Gabriel estava no sofá. A camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, o notebook no colo e o fone sem fio em uma orelha. Ele falava baixo, num inglês impecável e arrastado de cansaço, resolvendo algum incêndio do outro lado do oceano. Quando escutou a porta abrir, ele ergueu dois dedos na minha direção, sem desviar os olhos da tela.

​Fui direto pra cozinha. Larguei minha bolsa na bancada e fiquei ali, parada de frente pra geladeira de inox, esperando o meu cérebro voltar pro meu corpo.

​Não voltei pra sala. Puxei o meu próprio computador da bolsa, abri na ilha de mármore e comecei a responder a enxurrada de e-mails da agência que eu tinha ignorado durante a tarde.

​Quando Gabriel finalmente fechou a tampa do Mac e tirou o fone, o relógio do micro-ondas já marcava quase meia-noite.

​Ele arrastou os pés até a cozinha, esfregando o rosto com as duas mãos. Parou do outro lado da bancada e me olhou de verdade pela primeira vez na noite.

​— Desculpa.

​— Não precisa.

​Fomos pro sofá. A cidade zumbia lá embaixo, indiferente, mas dentro do apartamento o ar parecia denso, difícil de puxar. Ficamos ali, os dois com os notebooks descansando no colo, assistindo ao noticiário no mudo sem absorver uma única palavra.

​Olhei pra ele de relance.

​Gabriel estava com aquela expressão cravada de quem saiu da reunião, mas a reunião não saiu dele. A linha do maxilar rígida, o olhar fixo no nada. E eu percebi, com um gosto amargo na boca, que estava exausta demais pra tentar arrancar ele daquele estado.

​O problema não era o cansaço físico. Eu aguentava virar noites trabalhando. O que me deu um soco no estômago foi perceber que eu estava cansada demais até pra sentir falta dele direito.

​Arquivei essa constatação na gaveta mental das coisas que eu não sabia resolver.

​Na quinta-feira, eu decidi que ia arrancar a nossa noite de volta na marra.

​Passei na adega voltando do escritório e comprei um vinho tinto que custava mais do que eu deveria pagar. Subi pro apartamento dele com a garrafa na mão e a energia cega de quem quer forçar as coisas a voltarem ao normal.

​Entrei com a minha cópia da chave.

​Gabriel estava de costas, em pé na sacada, com o celular colado na orelha e a mão livre gesticulando no ar. O tom de voz dele era duro, corporativo.

​Ele ouviu o barulho da chave. Não virou. Apenas ergueu a mão esquerda pra trás.

​Os mesmos dois dedos.

​Dez minutos.

​Deixei a garrafa de vinho em cima da bancada. Puxei a banqueta alta e sentei.

​Dez minutos viraram vinte.

​Vinte viraram meia hora.

​Fiquei encarando o rótulo da garrafa até a frustração começar a queimar no meu peito. Respirei fundo, abri a mochila e puxei o notebook. O clique da tela acendendo pareceu alto demais na cozinha silenciosa. Revisei planilhas, ajustei o cronograma da Beatriz Moran, alterei fontes que não precisavam ser alteradas, fingindo pra mim mesma que aquilo era foco profissional e não falta de opção.

​Quando ele finalmente encerrou a chamada e entrou na cozinha, a tela do meu computador iluminava o balcão.

​A garrafa de vinho continuava exatamente no mesmo lugar. Fechada. Intocada.

​Ele olhou pro rótulo escuro. Depois olhou pra mim. Os ombros dele caíram, derrotados por um cansaço que pesava uma tonelada.

​— Desculpa.

​Continuei digitando, sem tirar os olhos da tela.

​— Não precisa.

​Ninguém foi na gaveta procurar o saca-rolhas. Ninguém fez uma piada pra quebrar o clima. A garrafa ficou ali entre nós dois, como um monumento ridículo a uma noite que tinha sido planejada com intenção e morrido por falta de espaço.

​Na sexta-feira de manhã, a conta do sono atrasado chegou.

​Eu estava na copa da agência, encarando a máquina de café expresso, quando Tati parou do meu lado. Ela não disse "bom dia". Ela apenas encostou o quadril na pia e me avaliou com aquela precisão de raio-x que me tirava do sério.

​— Você tá com uma cara péssima.

​— Valeu. É o excesso de trabalho.

​— Não é trabalho.

​Tomei um gole do café puro, queimando a língua, e fingi que ela não tinha acertado o alvo.

​Tati cruzou os braços, firme. Ela não ia recuar.

​— Sabe quando você constrói uma rotina milimétrica com alguém... — comecei, rodando a caneca entre as mãos, os olhos fixos no líquido escuro. — E de repente, sem ninguém fazer nada de errado, a rotina começa a sumir?

​Ela não respondeu de imediato. O barulho dos teclados na sala ao lado preenchia o fundo.

​— A rotina de vocês não sumiu, Mari. — A voz da Tati saiu mais suave do que o normal. — Ela só ficou mais pesada. É diferente.

​Ergui o rosto.

​— Você acha?

​— Tenho certeza. Vocês passaram meses construindo a base. A base tá aí. Só que agora o nível de dificuldade subiu.

​Fiquei mastigando aquilo. Tentando decidir se a resposta me acalmava ou me deixava mais apavorada.

​— Isso é pra ser um consolo de amiga? — provoquei, sem humor.

​— Não. É um diagnóstico de quem tá vendo de fora.

​Ela deu dois tapinhas no meu ombro e saiu da copa, me deixando sozinha com o resto do café amargo e uma verdade difícil de engolir.

​O golpe de misericórdia veio no sábado de manhã.

​Eu estava de calça de moletom, sentada no sofá do meu apartamento com os joelhos encolhidos, quando Gabriel saiu do banho. Ele parou no meio da sala, secando o cabelo com a toalha.

​— Meu voo pra Lisboa tá confirmado.

​Parei com a caneca no meio do caminho até a boca.

​— Que semana?

​— Na próxima. Vou na segunda, volto na sexta à noite. Alinhamento de fundação com os parceiros europeus.

​Meu cérebro fez o cálculo antes mesmo de eu querer pensar no assunto.

​Eu abri o aplicativo de calendário no celular por puro reflexo, embora eu soubesse de cor o que estava lá. A minha tela acendeu. Um bloco enorme e vermelho na quinta-feira.

​A reunião de fechamento do primeiro polo de expansão com a Beatriz. O dia mais importante da minha carreira até ali.

​— Tudo bem — murmurei, bloqueando a tela do celular e jogando o aparelho na almofada.

​Gabriel parou de secar o cabelo. Ele abaixou a toalha, os olhos escuros travados no meu rosto. Ele sabia.

​— Você tem a quinta-feira.

​Apertei os dedos na cerâmica da caneca.

​— Eu sei.

​— E eu sei que você sabe.

​A frase ficou pendurada no meio da sala. Não tinha acusação no tom dele. Não tinha raiva, nem cobrança, nem drama. Tinha apenas o peso esmagador de uma constatação mútua. Nós dois tínhamos visto o abismo se abrir no chão da sala ao mesmo tempo, e nenhum dos dois sabia como pular por cima dele.

​Virei o rosto de volta pra televisão desligada. Ele jogou a toalha no encosto da cadeira.

​E foi ali, escutando os passos dele se afastando pro quarto, que a realidade bateu com força.

​Antes, a nossa rotina era o lugar seguro onde a gente se encontrava sem esforço. Agora, o nosso relacionamento tinha virado um quebra-cabeça que exigia planejamento, sacrifício e encaixe.

​E tentar encaixar o tempo todo, descobri tarde demais, esgota pra cacete.

​Ou, se quiser algo ainda mais seco e com mais impacto no silêncio:

​E tentar encaixar o tempo todo, descobri tarde demais, também cansa.

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