Mundo de ficçãoIniciar sessãoA dor veio antes da consciência.
Não era uma dor aguda, nem localizada. Era profunda. Estranha. Como se cada parte do corpo de Liora estivesse reaprendendo a existir. Como se seus ossos tivessem sido moldados novamente, seus nervos recalibrados, seus sentidos reescritos de dentro para fora.
Havia calor sob a pele. Pulsos irregulares. Um formigamento fino correndo por suas veias.
Ela abriu os olhos devagar.
O teto de madeira acima dela parecia… errado.
Não.
Mais nítido.
Muito mais.
Ela conseguia distinguir cada pequena fissura na madeira, cada variação de tom, cada partícula de poeira suspensa no ar como se estivesse iluminada por uma lente invisível.
Ela piscou.
Aquilo definitivamente não era normal.
— Você acordou.
A voz grave veio da direita.
Kael estava sentado ao lado da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas. Ele parecia não ter se movido dali por horas. Os olhos dourados estavam fixos nela — atentos demais. Tensos demais.
Como se estivesse esperando exatamente esse momento.
— Há quanto tempo eu…? — A voz dela saiu rouca, áspera.
— Três horas.
Três horas.
Parecia que ela tinha dormido por dias.
Ela tentou se sentar.
O mundo girou por um segundo — não por fraqueza.
Por excesso.
Sons demais.
Cheiros demais.
Informação demais.
O ar parecia vivo dentro dos pulmões dela. Ela ouviu o vento lá fora passando entre as árvores. Passos no corredor. O ranger distante de madeira. Um coração batendo rápido. Outro, mais distante. Outro ainda… calmo e pesado.
Ela congelou.
— Você está ouvindo também? — perguntou antes de perceber o que tinha dito.
Kael franziu levemente a testa.
— Ouvindo o quê?
Ela engoliu seco.
— Tudo.
O silêncio que caiu entre eles foi denso.
Pesado.
Ela levou a mão ao pulso.
A marca ainda estava lá.
Mas não era mais a mesma.
O símbolo principal continuava escuro sob a pele — profundo, definitivo — mas entrelaçado a ele havia agora um traço fino, prateado, quase líquido. Ele pulsava suavemente, como se tivesse vida própria.
Como se respirasse.
— Eu senti algo… durante o ritual — ela murmurou, a voz mais baixa. — Não era só você. Não era só o vínculo.
Kael levantou-se lentamente.
O ar ao redor dele sempre parecia mais pesado quando se movia. Mais denso. Mais dominante.
— Eu sei.
Ela ergueu o olhar rápido.
— Então me diga.
Ele hesitou.
Foi sutil.
Mas Liora percebeu.
Algo raro estava passando pelo rosto do Alfa.
— Seu pai não era totalmente humano.
O chão pareceu desaparecer sob seus pés.
— O quê?
— Marcus Vale escondia a própria linhagem. — A voz de Kael estava controlada, mas firme. — Ele era descendente de híbridos antigos. Sangue humano e sangue de lobo misturados.
Ela ficou imóvel.
O nome do pai ecoou dentro dela.
Marcus Vale.
Silencioso.
Reservado.
Sempre evitando falar do passado.
Sempre desviava quando alguém mencionava as antigas histórias da vila.
Peças começaram a se encaixar — e isso era pior do que a ignorância.
— Isso é impossível — ela sussurrou.
— Não é.
Kael se aproximou mais um passo.
— Híbridos quase desapareceram. Alguns foram caçados. Outros se esconderam entre humanos. O poder deles era… instável.
Instável.
A palavra se cravou fundo.
Ela sentiu o ar ficar mais frio nos pulmões.
— Você está dizendo que eu sou uma dessas coisas?
Os olhos dele endureceram levemente.
— Você é Liora.
A voz dele veio mais baixa.
Mais firme.
— Mas não é apenas humana.
Ela fechou os olhos por um instante.
Tentou respirar fundo.
Tentou se ancorar.
Mas foi nesse momento que percebeu outra coisa.
Ela conseguia sentir.
Não ouvir.
Sentir.
A presença de cada lobo no território.
Como pontos de energia espalhados pela floresta. Pulsos vivos conectados a algo maior. Há algo que… agora parecia incluir ela.
O peito dela apertou.
E então—
Algo mais distante.
Forte.
Agressivo.
Ela abriu os olhos rapidamente.
— Ele está mais próximo.
Kael ficou rígido.
— Quem?
— Rowan.
O nome caiu pesado no ar.
Rowan não era apenas um rival territorial.
Ele era estratégico.
Calculista.
E odiava Kael com uma intensidade perigosamente pessoal.
— Como você sabe? — Kael perguntou.
Ela balançou a cabeça levemente.
— Eu não sei explicar.
O vínculo entre eles pulsou.
Forte.
Instintivo.
E Kael soube.
Ela não estava imaginando.
Uma batida forte na porta interrompeu o momento.
Um dos guerreiros entrou sem esperar resposta.
— Alfa. Movimentação na fronteira leste. Não estão escondendo mais.
Kael virou-se imediatamente.
Modo de guerra.
— Quantos?
— Pelo menos vinte. Talvez mais nas sombras.
Isso não era provocação.
Era posicionamento.
Preparação.
Kael olhou para Liora novamente.
Ela já estava se levantando da cama.
— Não — ele disse firme.
— Eu não vou ficar aqui.
— Você mal acordou.
— E mesmo assim eu sei mais do que sabia ontem.
O ar ao redor dela vibrou levemente.
Não de forma visível.
Mas perceptível.
O guerreiro lançou um olhar desconfortável.
— Alfa… nós sentimos também. Algo mudou.
Kael sabia.
A alcateia inteira sentia.
A energia de Liora não era mais silenciosa.
Ela fazia parte do território agora.
Como raiz se entrelaçando à terra.
— Preparem as defesas — Kael ordenou. — Ninguém ataca sem meu comando.
O guerreiro saiu rapidamente.
Liora deu dois passos.
O chão pareceu responder sob seus pés.
— O que está acontecendo comigo?
Mas havia menos medo em sua voz agora.
Havia curiosidade.
E algo mais.
Algo despertando.
Kael aproximou-se devagar.
— Seu corpo está acordando o que estava adormecido. Mas isso pode ser perigoso.
— Para mim?
Ele sustentou o olhar dela.
— Para todos.
Ela absorveu aquilo em silêncio.
— Rowan quer o território.
— Sempre quis.
— E se agora ele quiser mais do que isso?
Kael não respondeu.
Porque a resposta era óbvia.
Se Rowan percebesse que um híbrido raro havia despertado dentro da alcateia Nightshade, ele poderia:
Eliminar.
Capturar.
Ou usar como vantagem.
De repente, Liora sentiu uma pressão no peito.
A marca queimou.
Mas não como antes.
Era mais escura.
Mais profunda.
Ela olhou para o pulso.
O traço prateado começou a ser envolvido por uma sombra fina.
— Kael…
Ele já estava segurando o braço dela.
A energia ao redor dela oscilou.
Como se algo estivesse respondendo a uma força externa.
E então ela sentiu claramente.
Rowan.
Mais próximo.
Mais consciente.
Como se estivesse tentando puxar algo invisível.
Os olhos dela arderam.
Quando ergueu o rosto, a respiração estava mais profunda.
Mais animal.
— Liora — Kael chamou, segurando o rosto dela com firmeza. — Olhe para mim.
Ela tentou focar.
Mas o mundo estava diferente.
Mais instintivo.
Mais selvagem.
Ela conseguia ouvir os guerreiros se posicionando.
O metal sendo empunhado.
Os batimentos acelerados.
E dentro dela…
Algo respondia.
Não era medo.
Era defesa.
Seus músculos ficaram tensos.
Ela sentiu as unhas pressionarem a própria pele.
Por um segundo…
As sombras ao redor da sala pareceram se curvar.
Não externamente.
Mas através dela.
— Você precisa controlar isso — Kael disse.
Mas a voz dele agora tinha algo novo.
Preocupação real.
Não pela alcateia.
Por ela.
Liora respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Tentou se ancorar.
Tentou lembrar quem era.
Liora.
Não fera.
Não arma.
Liora.
A pressão diminuiu.
A marca estabilizou.
Mas o traço prateado não voltou ao brilho original.
Ele permaneceu envolto por uma sombra fina e pulsante.
— Ele está testando — ela murmurou.
— Quem?
— Rowan.
O nome soou como desafio.
Kael soltou lentamente o rosto dela.
— Então ele já sabe.
Silêncio pesado.
Do lado de fora, um uivo ecoou.
Não distante.
Na borda do território.
Desafiador.
A alcateia respondeu com um coro firme.
Mas Liora ouviu algo além do som.
Intenção.
Ela deu um passo em direção à porta.
Kael segurou o braço dela novamente.
— Ainda não.
Ela o encarou.
Os olhos dela não estavam totalmente humanos agora.
Havia um reflexo novo ali.
Mais profundo.
— Eu não sou mais apenas a humana que você trouxe para dentro da floresta.
— Eu sei.
— Então pare de tentar me proteger como se eu fosse.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então se aproximou até que suas testas quase se tocassem.
A presença dele era quente.
Sólida.
Perigosamente reconfortante.
— Eu não protejo porque você é fraca — a voz dele saiu baixa e intensa. — Eu protejo porque você é minha.
O vínculo entre eles respondeu com força.
Liora sentiu.
Não submissão.
Mas conexão.
Escolha.
Ela ergueu a mão devagar e tocou o peito dele, bem sobre o coração que batia forte e constante.
— Então lute comigo.
A voz dela era firme.
— Não por mim.
Um estalo ecoou do lado de fora.
Como madeira partindo.
Kael virou a cabeça.
Os olhos dourados afiados.
— Eles estão cruzando a linha.
O território estava sendo invadido.
Mas antes que ele pudesse se afastar, Liora sentiu algo atravessar o vínculo.
Não de Rowan.
De dentro da própria alcateia.
Um gosto amargo.
Frio.
Errado.
Medo.
Culpa.
Traição.
Ela agarrou o braço de Kael com força.
— Não é só ele.
Os olhos dele se estreitaram perigosamente.
— O que você quer dizer?
Ela respirou fundo.
O instinto falava mais alto que a lógica agora.
— Há alguém aqui… que não está do nosso lado.
Do lado de fora, o uivo de Rowan ecoou novamente.
Mais próximo.
Mais confiante.
E, pela primeira vez…
Liora sentiu seus ossos vibrarem em resposta.
Não humana.
Não totalmente lobo.
Mas algo antigo.
Algo poderoso.
Algo que queria emergir.
Seus olhos escureceram.
E quando encontrou o olhar de Kael novamente…
Não havia apenas medo ali.
Havia poder.
Cru.
Desperto.
E ele soube.
O verdadeiro despertar dela…
Ainda nem tinha começado.







