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CAPÍTULO 5 – DESPERTAR

A dor veio antes da consciência.

Não era uma dor aguda, nem localizada. Era como se cada parte do corpo de Liora estivesse reaprendendo a existir. Como se seus ossos tivessem sido moldados novamente, seus nervos recalibrados, seus sentidos reescritos.

Ela abriu os olhos devagar.

O teto de madeira acima dela parecia… diferente.

Mais nítido.

Ela conseguia distinguir cada pequena fissura na madeira, cada variação de tom, cada partícula de poeira suspensa no ar.

Ela piscou.

Aquilo não era normal.

— Você acordou.

A voz grave veio da direita.

Kael estava sentado ao lado da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas. Ele não parecia ter se movido dali.

Os olhos dourados estavam fixos nela.

Alerta.

Tenso.

— Há quanto tempo eu…? — sua voz saiu rouca.

— Três horas.

Ela tentou se sentar.

O mundo girou por um segundo — não por fraqueza, mas por excesso. Sons demais. Cheiros demais. Informação demais.

Ela ouviu o vento lá fora.

Passos.

Um coração batendo rápido.

Outro, mais distante.

Ela congelou.

— Você está ouvindo também? — perguntou antes de perceber o que tinha dito.

Kael franziu levemente a testa.

— Ouvindo o quê?

Ela engoliu seco.

— Tudo.

Silêncio.

Ela levou a mão ao pulso.

A marca ainda estava lá.

Mas não era mais a mesma.

O símbolo principal continuava escuro sob a pele, mas entrelaçado a ele havia um traço fino, prateado, quase líquido. Pulsava suavemente, como se tivesse vida própria.

— Eu senti algo… durante o ritual — ela murmurou. — Não era só você. Não era só o vínculo.

Kael levantou-se lentamente.

O ar ao redor dele sempre parecia mais pesado.

— Eu sei.

Ela ergueu o olhar.

— Então me diga.

Ele hesitou.

Algo raro.

— Seu pai não era totalmente humano.

O chão pareceu desaparecer sob seus pés.

— O quê?

— Marcus Vale escondia a própria linhagem. Ele era descendente de híbridos antigos. Sangue humano e sangue de lobo misturados.

Ela ficou imóvel.

Seu pai.

Silencioso. Reservado. Sempre distante das histórias da vila.

Sempre evitando falar sobre o passado.

— Isso é impossível — ela sussurrou.

— Não é.

Kael se aproximou mais.

— Híbridos quase desapareceram. Alguns foram caçados. Outros se esconderam entre humanos. O poder deles era… instável.

Ela sentiu o ar ficar mais frio.

— Você está dizendo que eu sou uma dessas coisas?

Os olhos dele endureceram levemente.

— Você é Liora. Mas não é apenas humana.

Ela fechou os olhos por um instante.

Tentou respirar.

Mas então percebeu outra coisa.

Ela conseguia sentir.

Não ouvir.

Sentir.

A presença de cada lobo no território.

Como pontos de energia espalhados na floresta.

E havia algo mais distante.

Forte.

Agressivo.

Ela abriu os olhos rapidamente.

— Ele está mais perto.

Kael ficou rígido.

— Quem?

— Rowan.

O nome pairou no ar.

Rowan não era apenas um rival territorial. Ele era estratégico. Calculista. E odiava Kael com intensidade pessoal.

— Como você sabe? — Kael perguntou.

Ela não sabia explicar.

— Eu sinto.

O vínculo entre eles pulsou.

E Kael soube que ela não estava imaginando.

Uma batida forte na porta interrompeu o momento.

Um dos guerreiros entrou sem esperar resposta.

— Alfa. Movimentação na fronteira leste. Não estão escondendo mais.

Kael virou-se imediatamente.

— Quantos?

— Pelo menos vinte. Talvez mais nas sombras.

Isso não era provocação.

Era posicionamento.

Kael olhou para Liora novamente.

Ela já estava se levantando da cama.

— Não — ele disse firme.

— Eu não vou ficar aqui.

— Você mal acordou.

— E mesmo assim eu sei mais do que sabia ontem.

O ar ao redor dela vibrou levemente.

Não de forma visível.

Mas perceptível.

O guerreiro lançou um olhar desconfortável.

— Alfa… nós sentimos também. Algo mudou.

Kael sabia.

A alcateia inteira sentia.

A energia de Liora não era mais silenciosa.

Ela fazia parte do território agora.

Como raiz que se entrelaça à terra.

— Preparem as defesas — Kael ordenou. — Ninguém ataca sem meu comando.

O guerreiro saiu.

Liora deu dois passos.

O chão pareceu responder sob seus pés.

— O que está acontecendo comigo? — ela perguntou, mas havia menos medo em sua voz agora.

Havia… curiosidade.

Kael aproximou-se devagar.

— Seu corpo está despertando o que estava adormecido. Mas isso pode ser perigoso.

— Para mim?

— Para todos.

Ela absorveu aquilo.

— Rowan quer o território.

— Sempre quis.

— E se agora ele quiser mais do que isso?

Kael não respondeu.

Porque a resposta era óbvia.

Se Rowan percebesse que um híbrido raro havia despertado dentro da alcateia Nightshade, ele poderia:

Eliminar.

Capturar.

Ou usar como vantagem.

De repente, Liora sentiu uma pressão no peito.

A marca queimou.

Mas não como antes.

Era diferente.

Escura.

Ela olhou para o pulso.

O traço prateado começou a ser envolvido por uma sombra.

— Kael…

Ele já estava segurando seu braço.

A energia ao redor dela oscilou.

Como se algo estivesse respondendo a uma força externa.

E então ela sentiu claramente.

Rowan.

Mais próximo.

Mais consciente.

Como se estivesse tentando puxar algo invisível.

Os olhos dela arderam.

Quando ergueu o rosto, a respiração estava mais profunda.

Mais animal.

— Liora — Kael chamou, segurando seu rosto com firmeza. — Olhe para mim.

Ela tentou focar.

Mas o mundo estava diferente.

Mais instintivo.

Mais selvagem.

Ela conseguia ouvir os guerreiros se posicionando.

O metal sendo empunhado.

Os batimentos acelerados.

E dentro dela…

Algo respondia.

Não era medo.

Era defesa.

Seus músculos ficaram tensos.

Ela sentiu as unhas pressionarem a pele.

Por um segundo, pensou ter visto as sombras ao redor da sala se moverem.

Não externamente.

Mas através dela.

— Você precisa controlar isso — Kael disse, mas sua voz agora tinha uma nota que ela nunca tinha ouvido antes.

Preocupação real.

Não pela alcateia.

Por ela.

Ela respirou fundo.

Tentou se ancorar.

Tentou lembrar quem era.

Liora.

Não fera.

Não arma.

Liora.

A pressão diminuiu.

A marca estabilizou.

Mas o traço prateado não voltou ao brilho original.

Ele permanecia envolto por uma sombra fina.

— Ele está testando — ela murmurou.

— Quem?

— Rowan.

O nome soou como desafio.

Kael soltou lentamente o rosto dela.

— Então ele já sabe.

Silêncio pesado.

Do lado de fora, um uivo ecoou.

Não distante.

Na borda do território.

Desafiador.

A alcateia respondeu com um coro firme.

Mas Liora ouviu algo além do som.

Intenção.

Ela deu um passo em direção à porta.

Kael segurou seu braço novamente.

— Ainda não.

Ela o encarou.

Os olhos dela não estavam totalmente humanos agora.

Havia um reflexo diferente.

Mais profundo.

— Eu não sou mais apenas a humana que você trouxe para dentro da floresta.

— Eu sei.

— Então pare de tentar me proteger como se eu fosse.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois, aproximou-se até que suas testas quase se tocassem.

— Eu não protejo porque você é fraca.

A voz dele era baixa.

Intensa.

— Eu protejo porque você é minha.

O vínculo entre eles respondeu com força.

Ela sentiu.

Não submissão.

Mas conexão.

Escolha.

Ela tocou o peito dele.

— Então lute comigo. Não por mim.

Um estalo ecoou do lado de fora.

Como madeira partindo.

Kael virou a cabeça.

— Eles estão cruzando a linha.

O território estava sendo invadido.

Mas antes que ele pudesse se afastar, Liora sentiu algo atravessar o vínculo.

Não de Rowan.

De dentro da própria alcateia.

Um medo.

Traição.

Alguém hesitando nas defesas.

Ela segurou o braço de Kael.

— Não é só ele.

Os olhos dourados se estreitaram.

— O que você quer dizer?

Ela respirou fundo.

O instinto falava mais alto que a lógica.

— Há alguém aqui… que não está do nosso lado.

O uivo de Rowan ecoou novamente.

Mais próximo.

Mais confiante.

E, pela primeira vez, Liora sentiu seus ossos vibrarem com uma resposta.

Não humana.

Não totalmente lobo.

Mas algo que queria emergir.

Seus olhos escureceram.

E quando encontrou o olhar de Kael novamente…

Não havia apenas medo ali.

Havia poder.

E ele sabia.

O verdadeiro despertar dela ainda não tinha começado.

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