Mundo de ficçãoIniciar sessãoO amanhecer chegou envolto em névoa.
Não era comum que o território da alcateia Nightshade despertasse sob um véu tão espesso. A floresta costumava respirar com firmeza, clara, quase imponente. Mas naquela manhã, o ar estava pesado. Expectante.
Liora sentia isso na pele.
Cada passo que dava em direção à clareira central parecia mais lento do que o anterior. O chão úmido absorvia o som de seus pés, enquanto sombras se moviam entre as árvores — membros da alcateia observando.
A notícia do ritual havia se espalhado.
Alguns aceitavam.
Uma humana marcada.
Uma companheira escolhida pela lua.
Isso nunca acontecia.
Quando chegaram à clareira, o círculo já estava formado. Lobos em forma humana posicionavam-se ao redor da pedra ancestral — um bloco escuro marcado por símbolos antigos entalhados por gerações anteriores.
No centro, a fogueira ritualística queimava baixa e constante.
Liora vestia uma túnica branca simples, entregue a ela antes do nascer do sol. Disseram que simbolizava transição. Pureza não — porque ninguém ali acreditava que aquilo fosse puro ou simples.
Kael caminhava ao lado dela.
Vestia preto.
Sempre preto.
Sua presença era como a própria noite: inevitável, dominante, silenciosa. Os olhos dourados percorriam a alcateia com autoridade absoluta.
Mas quando pousaram nela…
Havia algo mais.
Preocupação.
— Ainda pode desistir — ele murmurou, sem encará-la diretamente.
O timbre baixo vibrava firme.
— Se eu desistir, você parecerá fraco — ela respondeu.
— Eu não me importo com parecer.
Ela o olhou.
— Mas eu me importo.
Aquilo o fez encará-la de verdade.
Havia força nela. Não física — ainda — mas uma determinação que nenhum lobo ali possuía coragem de questionar.
Viktor, o beta, deu um passo à frente e ergueu a mão.
O murmúrio cessou.
— A lua testemunha este momento — declarou ele. — Um vínculo foi formado além da escolha consciente. Hoje ele será reconhecido.
Um vento percorreu a clareira.
A chama da fogueira oscilou.
Kael tomou a mão de Liora.
A marca em seu pulso começou a reagir imediatamente.
Primeiro, um brilho suave.
Depois, mais intenso.
Um símbolo entrelaçado, como raízes vivas sob a pele.
Alguns lobos recuaram instintivamente.
— Eu, Kael Nightshade — sua voz ecoou firme — reconheço Liora Vale como minha companheira escolhida pela lua. Minha igual. Minha força. Minha Alfa ao meu lado.
A última frase causou tensão.
Igual.
Não subordinada.
Não protegida.
Igual.
O silêncio tornou-se denso.
Liora sentiu o ar pressionar seus pulmões.
Era sua vez.
Ela não sabia as palavras certas. Não havia ensaio. Não havia tradição para aquilo.
Mas quando abriu a boca, as palavras vieram naturais.
— Eu aceito o vínculo. Não como sombra… mas como presença.
Kael não quebrou o contato visual.
Algo ali se selou antes mesmo do ritual avançar.
Viktor aproximou-se da pedra ancestral.
— O selo será confirmado pelo toque do Alfa. Que a lua julgue a verdade do vínculo.
Kael posicionou-se diante dela.
Ergueu a mão lentamente.
E tocou a marca.
O mundo explodiu.
A energia não foi como da primeira vez — descontrolada e inesperada.
Foi intensa.
Antiga.
Consciente.
Uma onda invisível se espalhou pelo chão, fazendo folhas se erguerem, brasas saltarem da fogueira.
Liora arfou.
Não era dor.
Era expansão.
Como se algo estivesse sendo despertado dentro dela — algo que sempre esteve lá, mas dormia sob camadas de silêncio.
Ela ouviu.
Primeiro o próprio coração.
Depois…
Outros.
Batidas espalhadas pela clareira.
Respirações.
O vento entre as folhas.
E algo mais profundo.
Um chamado.
A marca queimava.
Mas o fogo não machucava.
Ela abriu os olhos.
E o mundo estava diferente.
As cores mais vivas.
Os cheiros mais intensos.
Os sons absurdamente claros.
E quando seus olhos encontraram os de Kael…
Ela viu mais do que o homem.
Viu o lobo.
Imenso. Negro. Poderoso.
O vínculo entre eles pulsava como uma corrente viva.
De repente, a energia aumentou.
Forte demais.
O chão tremeu.
Um estalo ecoou na pedra ancestral.
Alguém caiu para trás.
Outro lobo perdeu o equilíbrio.
— Isso não é normal! — alguém gritou.
A marca brilhou com intensidade cegante.
Liora sentiu o corpo ceder.
E então aconteceu.
Seus olhos arderam.
Quando se abriram novamente, um reflexo prateado atravessou suas íris.
Não humano.
Não totalmente lobo.
Algo entre os dois.
Kael sentiu.
Sentiu no vínculo.
Aquilo não era apenas confirmação.
Era revelação.
Uma descarga final atravessou o círculo.
A fogueira explodiu em faíscas.
E Liora desabou.
Kael a segurou antes que tocasse o chão.
O silêncio foi absoluto.
Nem mesmo o vento se atreveu a soprar.
Viktor aproximou-se devagar.
— Alfa… — sua voz não tinha firmeza dessa vez. — A energia não veio só de você.
Kael sabia.
Ele sentiu.
Havia algo nela.
Algo ancestral.
Algo que não respondia apenas à lua… mas à própria floresta.
Nos braços dele, Liora parecia frágil.
Mas a marca em seu pulso ainda emitia um brilho residual.
E quando a luz finalmente diminuiu, algo havia mudado.
Entrelaçado ao símbolo principal, surgira um segundo traço.
Mais fino.
Prateado.
Quase oculto.
Mas pulsando.
— Isso… — Viktor murmurou — não é símbolo comum.
Kael ergueu o olhar para a floresta.
E então ouviu.
Um uivo.
Distante.
Não era da alcateia Nightshade.
Era provocador.
Ameaçador.
Rowan.
Rowan tinha sentido.
Kael sentiu o sangue esfriar.
Se Rowan percebesse o que realmente havia despertado…
Liora deixaria de ser vista como fraqueza.
Se tornaria alvo.
Ou arma.
Ele a ergueu nos braços.
— O ritual terminou — anunciou, com autoridade que não permitia questionamentos. — Ela é minha companheira. E será respeitada como tal.
Alguns lobos abaixaram a cabeça.
Outros hesitaram.
Mas ninguém contestou.
Porque todos sentiram.
A energia ainda vibrava no ar.
Algo antigo havia sido acordado.
E não havia como voltar atrás.
Enquanto caminhava para fora da clareira, Kael sentiu o vínculo pulsar de forma diferente.
Mais profundo.
Mais conectado.
Mais perigoso.
Liora não era apenas humana.
Não era apenas marcada.
Ela era parte de algo que o mundo das alcateias acreditava estar extinto.
E, pela primeira vez em muitos anos…
Kael Nightshade sentiu medo.
Não de perder poder.
Mas de perder ela.
Ao longe, o uivo ecoou novamente.
Mais próximo.
Mais consciente.
A guerra não estava mais se aproximando.
Ela havia sido despertada.
E a lua…







